(TRANS)FORMAR PARA CUIDAR: DESAFIOS DA FORMAÇÃO EM SAÚDE PARA O ENVELHECIMENTO
Resumo
Introdução: O envelhecimento populacional é uma realidade global, marcada por significativas mudanças demográficas e sociais. Nas últimas décadas, o Brasil tem demonstrado aumento expressivo na expectativa de vida e redução das taxas de fecundidade, modificando o panorama etário da população. Estima-se que em até 2050, o país ocupará a sexta posição no ranking mundial de pessoas idosas, somando mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Com o avançar da idade, há maior prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, multimorbidades e condições específicas, que demandam abordagens multiprofissionais e interdisciplinares (Silva et al., 2021). Nesse contexto, emergem dois campos complementares, mas distintos: a Geriatria, especialidade médica voltada ao diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças da pessoa idosa, e a Gerontologia, ciência multidisciplinar que estuda o processo de envelhecimento em suas dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais. Apesar da relevância, ainda existem lacunas significativas entre a demanda crescente por profissionais capacitados nessas áreas e a oferta de programas formativos adequados nas instituições de ensino superior brasileiras (Barbosa et al., 2025; Rodrigues; Todaro; Batista, 2021). A pergunta de pesquisa que norteia este estudo é: como está estruturada a formação em Gerontologia e Geriatria no Brasil diante do acelerado envelhecimento populacional? Com isso, a relevância deste trabalho reside na necessidade de compreender e analisar a disponibilidade de cursos e programas, bem como refletir sobre os impactos dessa escassez na qualidade do cuidado à população idosa. Objetivo: Analisar documentos oficiais e dados institucionais sobre a formação em Gerontologia e Geriatria no Brasil, identificando lacunas, desafios e perspectivas para o fortalecimento da formação profissional e acadêmica no cuidado à pessoa idosa. Metodologia: Trata-se de uma análise documental realizada a partir de fontes oficiais do Ministério da Saúde, Ministério da Educação, Conselho Nacional de Saúde, dados disponibilizados pelo sistema e-MEC sobre cursos superiores na área da saúde (Brasil, 2024), além de informações institucionais da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Foram incluídos documentos normativos, relatórios de políticas públicas e registros institucionais publicados entre 2018 e 2025. A análise foi conduzida em três etapas: identificação dos documentos e bases oficiais pertinentes. Extração e categorização das informações relativas à formação em Gerontologia e Geriatria (cursos, programas de residência, especializações e associações profissionais). Análise crítica com base em literatura técnico-científica atualizada, a fim de contextualizar os achados frente às demandas da população idosa brasileira. Por se tratar de análise documental com dados públicos, não foi necessária submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. Resultados e discussão: A análise revelou um panorama de escassez significativa na formação em Gerontologia e Geriatria no Brasil. Quanto à oferta de cursos em Gerontologia a nível de graduação, existem apenas dois cursos presenciais de Bacharelado em Gerontologia, ofertados pela Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), visto que a profissão do gerontólogo ainda não é regulamentada no Brasil, mas está sendo tramitado um projeto de lei para essa regulamentação no Congresso Federal desde 2013 (Brasil, 2013). Além disso, há oferta de cursos tecnólogos em modalidade a distância/Ensino a Distância, como os da UniCesumar, Uninter, Estácio e PUC Minas. Considerando a média de 40 vagas anuais por instituição, estima-se que o Brasil forme aproximadamente 120 bacharéis em Gerontologia por ano, número inferior diante da população idosa que já ultrapassa 19 milhões de pessoas. No âmbito da pós-graduação stricto sensu, o país conta com seis programas de mestrado e doutorado em Gerontologia (UFPE, USP, PUC-SP, UFSM, UFSCar e UFPB). Desses, destaca-se o programa da UFPB, que instituiu o primeiro Doutorado Profissional em Gerontologia do país. Apesar disso, a capacidade de formação é limitada, restringindo o número de pesquisadores e docentes especializados, o que repercute na qualidade da educação em saúde e na disseminação do conhecimento científico sobre envelhecimento. Nos Programas de Residências Multiprofissionais, em 2024, foram ofertadas mais de 200 vagas entre as pós-graduações voltadas para atenção à saúde da pessoa idosa, tais como: Saúde do Adulto e Idoso; Saúde do Adulto e Idoso com ênfase na Atenção Cardiovascular; Atenção à Saúde do Idoso; Atenção à Saúde do Adulto e Idoso - Atenção às Doenças Crônicas; Atenção à Saúde do Idoso - Gerontologia; Atenção à Saúde do Idoso - Atendimento Humanizado. Profissionais de diferentes formações foram contemplados com a oportunidade, a saber: Enfermagem, Fisioterapia, Psicologia, Nutrição, Serviço Social, Farmácia, Fonoaudiologia, Odontologia, Terapia Ocupacional e Biologia (Brasil, 2024). No entanto, a Gerontologia ainda não é reconhecida como especialidade em todas essas profissões, o que pode representar um desafio para a consolidação da atuação multiprofissional nesse campo (BARBOSA et al., 2025). Na área da Geriatria, também se evidencia carências, visto que atualmente existem apenas 35 programas de residência em Geriatria em todo o território nacional. Dados da Comissão Nacional de Residência Médica (2018) apontam que apenas 1.817 médicos estavam registrados como especialistas em Geriatria, colocando a especialidade em 39º lugar entre as mais procuradas. A SBGG reúne cerca de 2.250 associados, número reduzido frente à necessidade de atendimento especializado para milhões de idosos. Com isso, esses resultados refletem um cenário de descompasso entre a transição demográfica brasileira e a formação profissional em saúde. Enquanto a população idosa cresce em ritmo acelerado, a formação em Gerontologia e Geriatria permanece restrita a poucas instituições, reforçando desigualdades regionais e limitando o acesso da população a profissionais capacitados, visto que a ausência de formação consistente pode comprometer a qualidade da assistência prestada à pessoa idosa, impactando tanto o sistema de saúde quanto a sustentabilidade de políticas públicas (Barbosa et al, 2025). Nesse contexto, torna-se urgente (re)pensar a formação em saúde, incorporando conteúdos de Gerontologia nos currículos, fortalecendo práticas interprofissionais e ampliando a oferta de programas de residência e pós-graduação. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): Este estudo dialoga diretamente com a Agenda 2030, contribuindo para com a: ODS 3 - Saúde e bem-estar, pois evidencia a necessidade de profissionais capacitados para garantir atendimento integral e qualificado à população idosa; ODS 4 - Educação de qualidade, ao destacar lacunas e propor estratégias para a melhoria da formação acadêmica e profissional em Gerontologia e Geriatria; e a ODS 11 - Cidades e comunidades sustentáveis, ao reforçar a importância de profissionais preparados para promover envelhecimento ativo, participação social e inclusão. Assim, o trabalho aponta caminhos para a construção de políticas públicas educacionais e de saúde mais integradas, que reconheçam o envelhecimento como prioridade social. Considerações finais: O panorama analisado evidencia que o Brasil enfrenta escassez de programas formativos em Gerontologia e Geriatria, tanto a nível de graduação quanto de pós-graduação e de residência médica e multiprofissional. Essa limitação impacta diretamente a capacidade do país de responder às demandas de uma população que envelhece de forma acelerada. Com isso, reforça-se a necessidade de ampliar a oferta de cursos e programas: inserir a Gerontologia nos currículos de saúde de maneira transversal; investir em práticas pedagógicas inovadoras e interprofissionais; e de articular políticas públicas que garantam formação qualificada para atender a diversidade e complexidade do envelhecimento humano. Entre as limitações, destaca-se a ausência de dados atualizados e sistematizados sobre egressos dos cursos, o que dificulta mensurar com precisão o impacto formativo.
