ATUAÇÃO DO FISIOTERAPEUTA EM PROGRAMAS DE SAÚDE COLETIVA NO ENFRENTAMENTO DA OBESIDADE INFANTIL: REVISÃO NARRATIVA
Resumen
Introdução: A obesidade infantil é reconhecida atualmente como um dos maiores desafios de saúde pública em nível global. Segundo a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020), o número de crianças com sobrepeso e obesidade cresceu de forma alarmante nas últimas décadas, alcançando proporções epidêmicas em países desenvolvidos e em desenvolvimento. No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PENSE, 2019) indicam que cerca de 23% dos adolescentes apresentam excesso de peso, sendo 7,8% obesos. Esse cenário preocupa porque a obesidade infantil está associada a alterações metabólicas precoces, maior risco de desenvolvimento de hipertensão arterial, diabetes tipo 2, dislipidemias, problemas respiratórios, ortopédicos e impactos psicossociais, incluindo estigmatização e baixa autoestima. A partir dessa realidade, torna-se urgente adotar estratégias integradas de prevenção e enfrentamento da obesidade infantil, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS). A saúde coletiva, enquanto campo multidisciplinar, tem a função de articular práticas educativas, preventivas e de promoção da saúde. Nesse contexto, o fisioterapeuta tem conquistado espaço relevante por sua capacidade de atuar não apenas no tratamento das complicações decorrentes da obesidade, mas também na criação e implementação de ações que incentivem hábitos de vida saudáveis desde a infância (Silva; Souza, 2021). Assim, investigar a atuação do fisioterapeuta em programas de saúde coletiva direcionados à obesidade infantil é essencial para compreender as possibilidades de intervenção e reforçar a importância da abordagem multiprofissional no enfrentamento desse problema de saúde pública. Objetivo: Analisar a importância da atuação do fisioterapeuta em programas de saúde coletiva no enfrentamento da obesidade infantil, destacando suas principais estratégias de intervenção e contribuições para a promoção da saúde e prevenção de complicações. Metodologia: Trata-se de uma revisão narrativa da literatura. A busca foi realizada nas bases de dados SciELO, LILACS e PubMed, utilizando os descritores: “fisioterapia”, “obesidade infantil” e “saúde coletiva”. Foram incluídos artigos publicados entre 2015 e 2025, em português, inglês e espanhol, que abordassem a atuação do fisioterapeuta em programas de saúde coletiva ou em ações multiprofissionais voltadas para crianças com obesidade. Foram excluídos estudos que tratassem apenas de intervenções em nível hospitalar ou em adultos. Resultados e discussão: Os estudos analisados evidenciam que a atuação do fisioterapeuta em programas de saúde coletiva voltados ao enfrentamento da obesidade infantil é ampla e apresenta impactos positivos tanto na prevenção quanto na promoção da saúde. Um dos aspectos mais recorrentes é a promoção da atividade física, considerada fundamental para reduzir o sedentarismo e estimular hábitos saudáveis desde a infância. O fisioterapeuta, nesse contexto, planeja intervenções que vão além da prescrição de exercícios tradicionais, utilizando atividades lúdicas, jogos, danças e circuitos motores que favorecem o gasto energético e aumentam a adesão das crianças às práticas corporais. Essas estratégias demonstraram bons resultados na melhoria da aptidão física, no controle do peso corporal e na motivação para a continuidade das atividades (Pereira et al., 2020). Outro ponto destacado é a relevância das ações de educação em saúde, especialmente quando direcionadas não apenas à criança, mas também à família. O fisioterapeuta contribui para o processo educativo ao orientar sobre postura, ergonomia nas atividades escolares, importância do sono adequado e necessidade da prática regular de exercícios físicos. A literatura mostra que o envolvimento dos pais e responsáveis é decisivo para a manutenção de mudanças comportamentais, pois as crianças tendem a reproduzir os hábitos do ambiente familiar (Silva; Souza, 2021). Além da promoção de hábitos saudáveis, a fisioterapia se mostra relevante na prevenção de complicações ortopédicas e respiratórias associadas à obesidade. Crianças com excesso de peso apresentam maior risco de desenvolver alterações posturais, dores musculoesqueléticas e dificuldades respiratórias, como apneia obstrutiva do sono e redução da capacidade ventilatória. Nesse cenário, o fisioterapeuta atua de maneira preventiva, identificando alterações precoces, propondo exercícios respiratórios e alongamentos, além de orientar atividades que preservem o desenvolvimento motor adequado (Lopes et al., 2019). A análise também evidenciou que a atuação multiprofissional é um dos pilares para o sucesso das intervenções. O enfrentamento da obesidade infantil não pode ser realizado de maneira isolada, visto que envolve fatores nutricionais, psicológicos, sociais e comportamentais. Nesse sentido, a integração entre médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e fisioterapeutas amplia a efetividade das ações. O fisioterapeuta agrega valor por compreender a relação entre movimento, função e saúde, propondo estratégias específicas que complementam o trabalho dos demais profissionais e potencializam os resultados alcançados (Brasil, 2021). Por fim, destaca-se a importância da adesão e do vínculo estabelecido entre profissionais, crianças e famílias. Programas coletivos que incluem atividades participativas e envolvem a comunidade têm maior probabilidade de sucesso. O fisioterapeuta, ao adotar metodologias ativas e dinâmicas, contribui para criar um ambiente acolhedor e motivador, favorecendo a continuidade das práticas e a transformação de comportamentos. Esse aspecto é fundamental para que as mudanças sejam mantidas a longo prazo e não apenas durante o período de intervenção (WHO, 2020). Dessa forma, os resultados apontam que a atuação do fisioterapeuta em saúde coletiva transcende a simples execução de exercícios físicos, abrangendo dimensões educativas, preventivas, funcionais e sociais. Sua presença em programas de enfrentamento da obesidade infantil reforça a visão integral da saúde e amplia o potencial das ações de prevenção em nível populacional Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Este estudo contribui diretamente para o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ao destacar a importância da atuação do fisioterapeuta na promoção de atividade física e na prevenção da obesidade infantil, reduzindo riscos de doenças crônicas na vida adulta. Também dialoga com o ODS 4 (Educação de Qualidade), na medida em que envolve práticas educativas com crianças e famílias sobre hábitos de vida saudáveis e cuidados posturais. Indiretamente, relaciona-se ao ODS 10 (Redução das Desigualdades), ao valorizar a inserção de programas de saúde coletiva em territórios vulneráveis, ampliando o acesso a serviços de prevenção. Por fim, reforça o ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação), ao evidenciar a relevância do trabalho multiprofissional e intersetorial no enfrentamento da obesidade infantil como problema de saúde pública. Considerações finais: A obesidade infantil é um problema multifatorial que demanda estratégias integradas de prevenção. Nesse contexto, o fisioterapeuta tem papel essencial em programas de saúde coletiva ao promover atividade física, orientar famílias, prevenir complicações e integrar equipes multiprofissionais. Sua atuação fortalece a promoção da saúde e contribui para reduzir os impactos da obesidade no futuro, reforçando a necessidade de ampliar políticas públicas que valorizem esse profissional no cuidado à infância.
