REPERCUSSÕES DA POLIFARMÁCIA NA SAÚDE DE MULHERES-IDOSAS RESIDENTES EM ÁREAS RURAIS: UM ESTUDO REFLEXIVO

Autores/as

Resumen

Introdução: A saúde de mulheres residentes em áreas rurais é marcada por múltiplas vulnerabilidades, que se tornam ainda mais evidentes nas mulheres idosas, cujas demandas são caracterizadas por doenças crônicas, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e particularidades socioculturais, as quais ultrapassam o processo do cuidado. O Brasil enfrenta um processo acelerado de envelhecimento populacional, evidenciado pelo aumento da proporção de indivíduos com 60 anos ou mais, que atualmente totalizam mais de 22 milhões (10,9% da população) e projeções indicam que alcançarão cerca de 30% da população em 2050 (IBGE, 2022). No contexto rural, apresentam os piores indicadores de expectativa de vida e saúde em comparação ao meio urbano, atribuíveis a vulnerabilidades estruturais, como limitado acesso a serviços de saúde, insuficiência no transporte, isolamento social e menor escolaridade. Nesse cenário, a polifarmácia, definida como o uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos (WHO, 2019), surge como uma prática frequente, impulsionada pelo acúmulo de diagnósticos e pela necessidade de tratamentos prolongados. Objetivos: Problematizar as repercussões da polifarmácia na saúde de mulheres idosas que vivem em áreas rurais. Metodologia: Trata-se de um ensaio teórico-reflexivo, que aborda o impacto da polifarmácia na saúde de mulheres idosas que vivem em áreas rurais. Foi elaborada a partir de revisão narrativa da literatura científica nacional e internacional, realizada em bases como SciELO, PubMed, LILACS e Portal de Periódicos da CAPES considerando publicações dos últimos 10 anos. A análise foi conduzida de forma crítica e interpretativa, integrando aspectos relacionados aos Determinantes Sociais da Saúde, barreiras de acesso aos serviços de saúde e os riscos inerentes ao uso simultâneo de múltiplos medicamentos. Resultados e discussão: A análise evidenciou que a polifarmácia em mulheres idosas rurais transcende o envelhecimento e a presença de múltiplas doenças crônicas, sendo uma expressão das desigualdades em saúde. Nesse contexto, determinantes sociais e culturais, como a baixa escolaridade, isolamento geográfico e relações de gênero, podem impactar na compreensão das orientações e na adesão ao tratamento, favorecendo o uso inadequado de medicamentos e também o consumo de medicamentos impróprios pela população (Spekalski et al., 2021). Em relação ao gênero, observa-se a prevalência do uso de polifarmácia entre mulheres, principais usuárias dos serviços de saúde e maiores consumidoras de medicamentos. Essa situação pode estar associada à prevalência de agravos crônicos não transmissíveis nessa população, principalmente dentre aquelas que continuam desenvolvendo atividades agrícolas intensas e tarefas domésticas. Embora a polifarmácia seja um recurso terapêutico necessário, ela também se configura como um importante marcador de vulnerabilidade para pessoas idosas, em razão dos potenciais riscos decorrentes dessa prática. Assim, a polifarmácia requer estratégias de cuidado integradas ao monitoramento de iatrogenia, reações adversas a medicamentos (RAMs), interações medicamentosas e declínio funcional e cognitivo. No meio rural, esses riscos se intensificam, diante da ausência de acompanhamento farmacoterapêutico contínuo pelas barreiras de acesso aos serviços de saúde, da fragmentação de prescrições entre diferentes profissionais e da frequente automedicação, configurando a vulnerabilidade que se potencializa no cenário rural. Problematizar as repercussões da polifarmácia permite visibilizar aspectos que ultrapassam os riscos clínicos, na medida em que compromete a qualidade de vida com piora nos índices de bem-estar físico, emocional e social. Esses efeitos ganham maior impacto na população rural, já fragilizada por suas condições de vida, reforçando a necessidade de um cuidado ampliado, incluindo estratégias de desprescrição, educação em saúde e fortalecimento do vínculo com a equipe de Atenção Primária à Saúde (Rodrigues et al., 2021). As repercussões da polifarmácia em mulheres idosas residentes em áreas rurais podem ser potencializadas pela interposição de distintas vulnerabilidades como as de gênero, as socioambientais e contextuais como as barreiras geográficas e de acesso. Tais elementos afetam a saúde dessa população, o manejo de suas condições clínicas, favorece o uso inadequado de medicamentos e automedicação, e compromete a qualidade de vida, pois frequentemente necessitam de familiares ou cuidadores para a administração de medicamentos, o que contribui para o agravo de suas condições de adoecimento. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): As reflexões aqui tecidas convergem às premissas dos ODS da agenda 2030, especialmente ao ODS 3 que aborda a Saúde e Bem-estar, ao ODS 5 no que tange a Igualdade de Gênero, ao ODS 10 com vistas à Redução das Desigualdades e ao ODS 17 ao enfatizar a "Parcerias e Meios de Implementação", por meio da urgente necessidade de articulação inter e multisetorial entre profissionais do campo da saúde, gestores e comunidade para o fomento e ampliação do escopo de políticas públicas específicas às demandas das pessoas que vivem em áreas rurais. Para tal, ressalta-se que a construção de redes colaborativas e interdisciplinares se configura em potente estratégia ao enfrentamento da problemática emergente com o envelhecimento desse contingente populacional, em que a polifarmácia expressa um desses desafios. Considerações finais: Embora o envelhecimento seja um tema amplamente estudado, ainda existem lacunas na literatura sobre o uso de polifarmácia entre mulheres idosas que vivem em áreas rurais. Apesar de esse processo ser semelhante ao observado em áreas urbanas, o meio rural apresenta particularidades, como o acesso restrito a serviços de saúde e atenção especializada, que podem afetar a qualidade de vida dessa população. Tal compreensão instiga o fomento de políticas públicas específicas à população idosa que vive em área rural, a adoção de protocolos clínicos e de boas práticas assistenciais, promoção de estratégias de uso racional de medicamentos com vistas a melhoria do cuidado e da qualidade de vida das mesmas. Evidencia-se que a redução de danos associados à polifarmácia na saúde de mulheres- idosas em área rural demanda abordagem intersetorial e multidisciplinar, integrando ações de promoção e educação em saúde, avaliação periódica de prescrição medicamentosa, ampliação do acesso à farmacêuticos clínicos e assistência farmacêutica, políticas públicas para o uso racional de medicamentos, fortalecimento do vínculo e ampliação da oferta de serviços de saúde e equipes profissionais da Atenção Primária à Saúde no próprio território rural. A observância dos contextos de vulnerabilidade incidentes na saúde de mulheres idosas na elaboração e implementação dessas estratégias alinham-se a agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na perspectiva dos Determinantes Sociais da Saúde e da Integralidade em saúde com vistas à promoção do cuidado longitudinal, humanizado e centrado nas necessidades dessa população em área rural.

Publicado

16-01-2026