FRAGILIDADES E POTENCIALIDADES NO CUIDADO DE ENFERMAGEM EM ALEITAMENTO MATERNO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA
Abstract
Introdução: O Aleitamento Materno (AM) é considerado eficiente método de prevenção da morbimortalidade infantil e oferece diversos benefícios para saúde do binômio mãe-filho. É recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que o aleitamento materno seja oferecido, de maneira exclusiva, até os seis meses de vida da criança. Após esse período, sugere-se que, até os dois anos de idade ou mais, seja complementado. Embora haja muitos avanços nas últimas décadas, até o momento, os índices do Aleitamento Materno Exclusivo (AME), no Brasil, perduram abaixo das metas. Isto pode ser justificado pela falha no acompanhamento contínuo e periódico das crianças, assim como consultas de pré-natal de má qualidade. É indiscutível que a Atenção Primária à Saúde é fundamental na promoção, na proteção e no apoio ao AM, pois é a porta de entrada para o acesso à saúde, ao acompanhamento da puérpera e da criança, em que o AM deve ser apresentado e incentivado (Faria; Silva; Passberg, 2023). Objetivo: Identificar as fragilidades e potencialidades do cuidado de enfermagem no aleitamento materno, na Atenção Primária, a partir dos fatores associados à prática entre puérperas do Sudoeste do Paraná, Brasil. Metodologia: Pesquisa de campo, exploratória-descritiva, com abordagem quantitativa, desenvolvida em duas maternidades de referência de risco habitual, intermediário e alto risco. Participaram da pesquisa 305 puérperas. Os dados foram coletados por questionário com variáveis sociodemográficas (idade, cor, escolaridade, renda familiar, estado civil, atividade remunerada), dados obstétricos e do pré-natal (histórico gestacional, planejamento gestacional, número de consultas, plano de parto, grupo de gestantes, via de parto, tipo de hospital, orientação sobre aleitamento no pré-natal, profissional que orientou), além dos conhecimentos específicos sobre o aleitamento materno intra-hospitalar (tipo de aleitamento ao nascer, se amamentou logo após o nascimento, se o primeiro contato foi doloroso, se estão/pretendem amamentar em livre demanda e se forneceu bico/chupeta). A pesquisa foi submetida à análise do Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos (CEPEH), da Universidade Paranaense (UNIPAR), conforme Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) n.º 83174924.8.0000.0109. Resultados e discussão: A pesquisa contou com 305 puérperas, com média de idade de 27,8 anos, predominando mulheres brancas (62,3%), com escolaridade entre 9 e 12 anos (54,4%), em união estável (47,5%) e com atividade remunerada (61,6%). Em relação às condições obstétricas, a maioria era multigesta (64,6%), não havia planejado a gestação (57,4%), realizou mais de seis consultas de pré-natal (94,8%), mas não elaborou plano de parto (87,9%), nem participou de grupos de gestantes (76,7%). O parto cesáreo foi predominante (77,4%) e a maior parte ocorreu em hospitais públicos (71,5%). Quanto às orientações sobre aleitamento, 58,4% receberam aconselhamento durante o pré-natal, principalmente de enfermeiros (60,3%). Acerca do aleitamento materno, 49,5% relataram amamentar de forma exclusiva, 19% iniciaram na primeira hora de vida, 88,5% praticaram a livre demanda e 74,1% não ofereceram bicos artificiais. Dentre os principais achados, destacam-se fragilidades relacionadas à assistência em aleitamento materno. Apenas 58,4% das puérperas receberam orientação no pré-natal, sendo que a literatura mostra que apenas a orientação sobre a importância do AME por seis meses está associada à prevalência 30% maior de amamentação exclusiva (Alves; Oliveira; Rito, 2018). Outro ponto importante foi a baixa participação em grupos de gestantes (76,7%), considerados fundamentais, tendo em vista que ajudam as futuras mães a entender melhor todos os aspectos do ciclo da gravidez e do pós-parto. Além disso, estes encontros funcionam como espaço para repensar atitudes, refletir sobre condutas e fortalecer o vínculo com a equipe multidisciplinar. Eles promovem mudanças nos sentimentos relacionados ao cuidado com as gestantes e contribuem para formar profissionais mais capacitados, humanizados e atentos às necessidades de saúde da população. Logo, estes devem ser priorizados nos serviços de Atenção Primária à Saúde (Dias; Quirino, 2021). O estudo também apontou predomínio de cesáreas (77,4%) e baixa taxa de início precoce do aleitamento (19%), o que representa risco de desmame precoce. Este achado converge com as orientações do Ministério da Saúde, que sugere, durante o acompanhamento do pré-natal, nos atendimentos individuais, que a enfermagem converse com a gestante sobre as vias de parto, estimulando o parto normal e fortalecendo o conhecimento da paciente sobre o tema, além de apresentar informações sobre a importância da amamentação precoce ainda na sala de parto e os impactos positivos dessa prática (Brasil, 2015). Ademais, a ausência de plano de parto na maioria das gestantes (87,9%) reforça a carência de autonomia feminina na escolha do cuidado, evidenciando fragilidade no empoderamento durante o pré-natal. Por outro lado, a pesquisa também revelou importantes potencialidades no cuidado de enfermagem. A alta taxa de consultas pré-natais (94,8% realizaram mais de seis) evidencia a adesão ao acompanhamento na APS, configurando oportunidade para fortalecer a educação em saúde. Outro aspecto positivo foi o protagonismo do enfermeiro nas orientações sobre aleitamento, representando 60,3% dos profissionais que prestaram aconselhamento. Dado que confirma pesquisas recentes, que reforçam que o enfermeiro é o profissional da Atenção Primária que mais realiza ações de promoção em saúde, em comparação a outros profissionais com nível superior (Cordeiro et al., 2016). Quanto às práticas maternas, a pesquisa mostrou elevada adesão à livre demanda (88,5%) e baixa utilização de bicos artificiais (74,1%), aspectos reconhecidos como protetores do aleitamento. Estudos revelam que a abordagem de educação em saúde voltada ao aleitamento materno — coletiva ou individual e com diferentes recursos informativos — contribui para aquisição de conhecimento e adequada realização da amamentação (Lacerda; Oliveira, 2023). Por fim, o fato de a maioria das mães não relataram dor na primeira mamada (75,7%) sugere boa prática inicial, possivelmente associada às orientações recebidas. Isto demonstra que intervenções de enfermagem têm potencial para promover confiança e reduzir intercorrências como desmame precoce, fortalecendo a autoeficácia materna, o que é determinante para boa jornada na amamentação (Torres et al., 2023). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O referido estudo contribui para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propostos pela Organização das Nações Unidas até 2030, visto que se vincula ao ODS 3 (saúde e bem-estar). O aleitamento materno se relaciona com os ODS, pois promove a prevenção de doenças maternas e infantis, diminui o índice de mortalidade infantil, reduz casos de desnutrição e contribui para o desenvolvimento cognitivo da criança. Fatores como estes colaboram para redução das desigualdades sociais, considerando a disponibilidade do leite materno para crianças de diferentes classes sociais e para que este indivíduo progrida de maneira positiva na vida adulta. Diante do exposto, evidencia-se que a APS é a principal estratégia para atingir os ODS, pois visa promoção e prevenção na saúde, proporcionando atenção integral. Considerações finais: O presente trabalho buscou identificar as fragilidades e potencialidades do cuidado de enfermagem em aleitamento materno na APS. Em síntese, os principais achados voltados às fragilidades foram: início tardio da amamentação, baixa prevalência de AME, ausência de plano de parto, pouca participação em grupos de gestantes e cobertura limitada de orientações no pré-natal. E, entre as principais potencialidades encontradas no estudo, destacam-se: protagonismo do enfermeiro nas orientações, adesão à livre demanda, baixo uso de bicos artificiais e boa experiência inicial sem dor. Diante disso, estes dados permitem compreender pontos críticos a serem fortalecidos e práticas positivas a serem mantidas, no âmbito da APS. Destaca-se que a pesquisa foi realizada em uma cidade do Sudoeste do Paraná, e os aspectos metodológicos influenciam diretamente nos achados da análise, o que limita a generalização do tema. Porém, algumas recomendações podem ser citadas em relação ao trabalho da enfermagem e ao aleitamento materno. Portanto, entende-se que ampliar ações educativas no pré-natal e estimular grupos de gestantes, fortalece a prática assistencial. Assim como investir em capacitação dos profissionais de enfermagem para manejo do AM é fundamental para melhor gestão. E, por fim, desenvolver novos estudos multicêntricos, qualitativos ou de intervenção sobre estratégias para promover e sustentar o AME é indispensável para o fortalecimento desta temática.
