O PROTAGONISMO DO CONASS NO ENFRENTAMENTO À DESINFORMAÇÃO: A CRIAÇÃO DO CENTRO DE INTELIGÊNCIA ESTRATÉGICA
Abstract
Introdução: A pandemia de Covid-19 representou para o Brasil uma crise de múltiplas dimensões, que extrapolou a esfera sanitária e atingiu o cerne do ecossistema informacional do país. Entre 2020 e 2023, o Sistema Único de Saúde (SUS) foi desafiado não apenas pela emergência de um novo vírus, mas também por uma "infodemia" de proporções inéditas, caracterizada pela disseminação massiva e deliberada de desinformação. Este fenômeno, alimentado por narrativas anticientíficas, boatos sobre tratamentos ineficazes e ataques à credibilidade das vacinas, comprometeu a adesão da população às medidas de saúde pública e minou a confiança nas instituições. Em um cenário de fragilidade na coordenação federal e de vácuo na comunicação governamental, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) emergiu como um ator central, assumindo um protagonismo técnico e político para garantir o direito da sociedade à informação confiável. A atuação do Conass não se limitou a posicionamentos públicos; ela se materializou em uma estratégia robusta e multifacetada, alicerçada na governança de dados, na comunicação baseada em evidências e na articulação federativa. O marco dessa estratégia foi a criação do Centro de Inteligência Estratégica para a Gestão Estadual do SUS (Cieges), uma estrutura inovadora que transcendeu o modelo reativo das tradicionais salas de situação para se consolidar como um núcleo permanente de inteligência em saúde. O Cieges permitiu a integração de bilhões de registros de saúde, transformando dados fragmentados em conhecimento acionável para os gestores estaduais e em informação transparente para a sociedade. Essa iniciativa, articulada a uma comunicação institucional proativa e a campanhas interinstitucionais, posicionou o Conass como uma barreira de contenção à desinformação e como uma fonte de autoridade técnica reconhecida nacional e internacionalmente. Este trabalho se propõe a analisar essa experiência, compreendendo como a sinergia entre inteligência de dados e comunicação estratégica se tornou uma ferramenta essencial de defesa da vida e do SUS durante a maior crise sanitária da história recente. Objetivo: O presente estudo tem como objetivo principal analisar o papel estratégico desempenhado pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) no enfrentamento à desinformação em saúde durante a pandemia de Covid-19, com foco na concepção, implementação e impacto do Centro de Inteligência Estratégica para a Gestão Estadual do SUS (Cieges). Busca-se, especificamente, descrever como o Cieges se constituiu como uma resposta inovadora à crise informacional, superando as limitações dos modelos tradicionais de vigilância; investigar de que maneira a integração de dados e a produção de evidências pelo centro apoiaram a tomada de decisão dos gestores estaduais; e avaliar como a articulação entre a inteligência de dados e a comunicação institucional qualificou a transparência pública e fortaleceu a capacidade do SUS de combater a infodemia. Metodologia: Trata-se de um estudo de caso de natureza qualitativa, descritiva e analítica, fundamentado em pesquisa documental. A análise se concentrou na atuação do Conass e na estruturação do Cieges entre janeiro de 2020 e dezembro de 2023. O corpus da pesquisa foi composto por fontes primárias e secundárias, incluindo: documentos institucionais do Conass, como relatórios de gestão, notas públicas, atas de reuniões e os próprios painéis de dados desenvolvidos pelo Cieges; publicações científicas sobre a pandemia no Brasil, governança da informação, comunicação em saúde e desinformação; e uma análise da cobertura midiática de veículos de imprensa de circulação nacional e internacional que utilizaram o Conass como fonte de informação durante o período. A análise dos dados foi organizada em eixos temáticos que refletem os pilares da estratégia do Conselho: a produção de dados confiáveis, a inovação tecnológica com o Cieges, as campanhas e articulações interinstitucionais e a qualificação da comunicação pública. Por se tratar de uma pesquisa baseada exclusivamente em documentos e dados de acesso público, o estudo dispensa a submissão a um Comitê de Ética em Pesquisa, conforme as normativas vigentes. Resultados e discussão: Os resultados evidenciam que a resposta do Conass à infodemia foi estruturada e proativa, consolidando-se a partir da criação do Cieges como seu principal dispositivo de inteligência. A atuação pode ser compreendida em quatro frentes complementares. A primeira foi a garantia da transparência e da governança de dados. Em junho de 2020, diante do "apagão de dados" promovido pelo governo federal, que removeu os números acumulados da pandemia de seu portal, o Conass respondeu em menos de 48 horas com o lançamento do Painel Conass Covid-19. Desenvolvido sobre a plataforma Tableau, o painel passou a consolidar e divulgar diariamente os dados de casos e óbitos informados diretamente pelas 27 secretarias estaduais de saúde. A iniciativa não apenas preencheu o vácuo informacional, mas se tornou a principal fonte de referência para a imprensa, pesquisadores e a sociedade, alcançando mais de 24 milhões de visualizações de 199 países apenas em 2020. Essa ação foi um marco de federalismo cooperativo reativo e estabeleceu o Conass como um guardião da transparência. A segunda frente foi a inovação institucional com a consolidação do Cieges. O centro representou uma ruptura com o modelo reativo e pontual das salas de situação. Concebido como uma estrutura permanente, o Cieges integrou mais de 700 bases de dados em um ecossistema analítico robusto, processando mais de 20 bilhões de registros. Utilizando tecnologias de Business Intelligence e Data Lake, o centro produziu cerca de 100 painéis dinâmicos que permitiram aos gestores monitorar em tempo real a ocupação de leitos, a cobertura vacinal, o excesso de mortalidade e outros indicadores críticos. Essa capacidade transformou o dado bruto em inteligência acionável, subsidiando decisões estratégicas, como o remanejamento de insumos críticos durante a crise de abastecimento de medicamentos para intubação. A terceira frente foi a articulação de campanhas e pactos interinstitucionais. O Conass compreendeu que o combate à desinformação exigia uma mobilização coletiva. A entidade participou ativamente de campanhas como a "Vacina Mais", em parceria com a Opas/OMS, o CNS e o Conasems, para disseminar informações de qualidade sobre os imunizantes. Além disso, aderiu ao "Pacto Nacional pela Consciência Vacinal", coordenado pelo CNMP, atuando como articulador técnico para reverter a queda das coberturas vacinais. Essas ações ampliaram a capilaridade das mensagens de confiança na ciência e no SUS. A quarta frente, que articulou todas as outras, foi a qualificação da comunicação pública. A Assessoria de Comunicação (Ascom) do Conass, atuando de forma sinergica com o Cieges, transformou os dados técnicos em mensagens acessíveis. A Ascom atendeu a mais de 1.000 demandas da imprensa em 2020, um aumento de 2.500% em relação ao ano anterior, posicionando o Conass como fonte de referência para veículos como The New York Times, BBC e Deutsche Welle. Essa atuação proativa junto à imprensa, somada à produção de conteúdo digital e ao fortalecimento da Câmara Técnica de Comunicação em Saúde, consolidou uma comunicação federativa coesa e baseada em evidências, que funcionou como um antídoto factual contra as narrativas negacionistas. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: A experiência do Conass e do Cieges dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. A atuação da entidade contribui de forma significativa para o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), especialmente na meta 3.d, que preconiza o fortalecimento das capacidades dos países para o alerta precoce, redução de riscos e gerenciamento de riscos nacionais e globais de saúde. Ao fornecer dados confiáveis e em tempo real, o Cieges fortaleceu a capacidade de vigilância e resposta do SUS, permitindo que gestores tomassem decisões mais eficazes para proteger a saúde da população. A luta contra a desinformação sobre vacinas e medidas preventivas foi uma ação direta para assegurar o bem-estar e salvar vidas. Adicionalmente, o trabalho se alinha ao ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes), que visa promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis. A criação do Painel Conass Covid-19 e a transparência ativa promovida pelo Cieges são exemplos concretos de fortalecimento da responsabilidade e da transparência institucional (meta 16.6), assegurando o acesso público à informação (meta 16.10). Ao preencher o vácuo informacional deixado por outras esferas de poder e se firmar como uma instituição técnica e confiável, o Conass reforçou a resiliência das instituições de saúde do Brasil em um momento de profunda crise. Considerações finais: A pandemia de Covid-19 impôs ao Brasil um teste de estresse sem precedentes, revelando tanto as fragilidades do SUS quanto sua imensa resiliência. A análise da atuação do Conass demonstra que, em meio a uma crise informacional e de coordenação federal, a instituição assumiu um protagonismo decisivo, construindo uma resposta à desinformação alicerçada na governança de dados, na comunicação estratégica e na cooperação federativa. A criação do Centro de Inteligência Estratégica (Cieges) não foi apenas uma resposta emergencial, mas uma inovação institucional que estabeleceu um novo paradigma para o uso da informação em saúde pública no país. Ao transformar dados em decisões e evidências em comunicação pública qualificada, o Conass não apenas combateu boatos, mas construiu um ecossistema de informação confiável que salvou vidas. A experiência deixou um legado duradouro: a demonstração de que a inteligência em saúde, quando articulada à comunicação e institucionalizada como política permanente, é uma ferramenta essencial para a defesa do SUS e da democracia sanitária. O modelo do Cieges aponta um caminho para o fortalecimento da capacidade do Brasil de enfrentar futuras emergências sanitárias, tornando o sistema de saúde mais resiliente, transparente e preparado para os desafios do século XXI.
