SUPLEMENTOS ALIMENTARES, MEDICALIZAÇÃO E DESINFORMAÇÃO: UMA ANÁLISE CRÍTICA

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Resumo

Introdução: Na contemporaneidade é notável a crescente busca pelo bem-estar e saúde em decorrência do avanço científico mas também por conta da consolidação do estilo de vida Wellness principalmente através das redes sociais que vêm ganhando status de fonte de informação (Ançanello, Casarin, Furnival, 2023) além de ditadores de tendências. Paralelamente, vivencia-se uma infodemia que, amplificada pelas redes sociais, atinge também a área da saúde agindo na diminuição da confiança na ciência e valorização das crenças pessoais (Santos et al., 2021) dando espaço para a busca de soluções rápidas em detrimento do enfrentamento às raízes dos problemas. Esta revisão parte da premissa de que a indústria de suplementos alimentares associada ao movimento Wellness tornam-se um fenômeno ao se utilizar da crise comunicacional para ofertar seus produtos, com pouco embasamento científico, como a solução mágica e salvadora para os anseios estéticos e de bem-estar da população, assim obtendo ganhos financeiros independente do potencial dano à saúde dos indivíduos causados pela automedicação. Objetivo: Analisar criticamente a medicalização da alimentação e nutrição no contexto da indústria das suplementações alimentares e Wellness bem como analisar as estratégias de produção e disseminação de desinformação em saúde utilizadas por este setor para fomentar o consumo e maximizar lucros. Metodologia: Trata-se de uma revisão narrativa de literatura com caráter crítico-interpretativo. A busca bibliográfica foi realizada através das bases de dados PubMed, SciELO e Lilacs utilizando as palavras-chave em português e inglês: Desinformação; Lucro; Medicalização; Wellness; Suplementos alimentares. Foram incluídos artigos científicos e revisões publicadas entre 2015 e 2025, com abordagem crítica sobre desinformação em saúde e relação entre práticas de mercado, desinformação e a indústria de suplementos alimentares. Foram excluídos artigos que não contestavam os conflitos de interesse ligados ao setor e às estratégias de manipulação decorrentes do modelo neoliberal de mercado. A análise foi guiada pela técnica de análise de conteúdo temático de forma a organizar os resultados em eixos centrais de discussão. Resultados e discussão: O referencial teórico apresenta como temas mais frequentes a criação da necessidade e medicalização da alimentação, utilização de estratégias refinadas de marketing e disseminação de desinformação, bem como a exploração de vulnerabilidades sociais. A medicalização da vida se traduz em um fenômeno que transforma questões da vida cotidiana dos indivíduos em problemas médicos, de forma a criar a necessidade de um tratamento. No campo da nutrição os estudos analisados identificam como, através desta ótica, os alimentos foram reduzidos aos seus nutrientes associado à expansão do capitalismo e sua demanda por aumentar a eficiência e força de trabalho dos indivíduos (Kerpel, Medrano, Hellmann, 2024). O impacto causado pela alimentação no dia a dia do ser humano é muito diferente daqueles provocados pela suplementação, tendo em vista que para além da nutrição os alimentos possuem atributos afetivos e socioculturais que são ignorados pela lógica da medicalização empregada na indústria Wellness levando à individualização da alimentação e da saúde e resultando na automedicação irresponsável alheia aos efeitos adversos e à falta de evidências científicas dos resultados prometidos por estes produtos (Fogel et al., 2023). Os resultados apontam que a estratégia de responsabilização do indivíduo por seus comportamentos ditos problemáticos afasta do Estado à responsabilidade de ofertar acesso à alimentação saúdavel, serviços de saúde e melhores condições de trabalho através de políticas públicas ao passo que associada ao excesso de informações, emergem na população incertezas acerca de suas decisões alimentares gerando necessidade de auxílio de especialistas para deliberar sobre sua alimentação e tais ansiedades causadas pela lógica capitalista levam o sujeito a produzir e desejar sempre mais (Seixas et al., 2020). Através do referencial foi possível constatar que o contexto tecnológico e informacional é determinante para a ascensão e consolidação da indústria da suplementação, tendo como agente principal as redes sociais que vem ganhando espaço como fonte de informação mesmo que essa informação seja produzida e veiculada pelos próprios usuários além da ação dos algoritmos criarem bolhas informacionais que se retroalimentam (Ançanello, Casarin, Furnival, 2023). Esses ambientes possuem fraca regulamentação onde qualquer pessoa pode se entitular especialista em algum assunto favorecendo a produção intencional de informações falsas que não possuem embasamento científico causando uma infomedia relacionada à diminuição da confiança na ciência e à valorização de crenças pessoais causando desorientação e dificuldade em reconhecer fontes confiáveis resultando em predisposição em aceitar soluções vendidas como salvadoras em meio à crise informacional (Santos et al., 2021). Soluções essas que são apresentadas pelo movimento Wellness utilizando estratégias de ciberpublicidade como a utilização da reputação de formadores de opinião ou influenciadores digitais em suas campanhas e o "desaparecimento" da marca destacado pela sua diluição com a cultura contemporânea suavizando seu discurso de apelo ao consumo, assim contornando as normas regulatórias pré-existentes e obtendo sucesso na persuasão em pregar que as soluções alimentares se encontram ao alcance de um comprimido (Fogel et al., 2023). Os estudos apontam que a publicidade deste setor explora ansiedades inerentes da sociedade capitalista como a pressão estética e a busca por maior produtividade ao mesmo passo que culpabiliza o indivíduo pelo adoecimento propagando que a mudança de hábitos individuais é suficiente para atingir uma vida saudável (Seixas et al., 2020; Kerpel, Medrano, Hellmann, 2024). No que tange à interpretação de informações, o estudo aponta que 30% da população brasileira com idade entre 15 e 64 anos são considerados analfabetos funcionais o que em associação aos efeitos socioculturais da consolidação capitalista torna dificultoso visualizar as estratégias de controle e poder que permeiam os discursos que se apresentam como científicos (Santos et al., 2021; Seixas et al., 2020). O referencial evidência que a individualização da responsabilidade por questões decorrentes do modo de produção neolibeal – como estresse, ansiedade, sobrepeso, obesidade, fome e desnutrição – dissolve a responsabilidade do Estado e função pública da saúde na alimentação e bem-estar social, desta forma o modo de ação desta indústria desconsidera as desigualdades socioeconômicas e políticas bem como evita que sejam tratadas às raízes das problemáticas nutricionais dificultando uma abordagem respeitosa as histórias e cultura dos sujeitos (Seixas et al., 2020; Kerpel, Medrano, Hellmann, 2024). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Ao evidenciar as estratégias e práticas exploratórias da indústria de suplementação baseadas no neoliberalismo promovendo a automedicação irresponsável, o presente trabalho vincula-se primordialmente ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3: Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades, contribuindo diretamente para a Meta 3.4: "Reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis, via prevenção e tratamento, e promover a saúde mental e o bem-estar". O estudo fornece subsídios para a criação de políticas públicas robustas de regulação desta indústria bem como regulação da disseminação de desinformação na internet para além das políticas públicas focadas na promoção de educação em saúde. Adicionalmente, dialoga com o ODS 12: Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis (Meta 12.8), ao incentivar uma visão crítica sobre as estratégias do mercado que levam ao consumo impulsivo e não prescrito de produtos de saúde, levantando também a ideia de que o bem-estar e saúde não devem ser mercadoria. Considerações finais: A presente análise evidencia os mecanismos complexos e interligados empregados pela indústria da suplementação e Wellness para perpetuação da prosperidade e expansão do próprio mercado, perpassando pelas estratégias de culpabilização do sujeito, medicalização da vida, produção de desinformação, exploração de vulnerabilidades sociais e fraca regulamentação dos meios digitais e publicitários agindo em prol da manutenção da lógica neoliberal contemporânea. Este nicho se mostra um grave desafio para a saúde pública que para enfrentamento recomenda-se o endurecimento das regulamentações já existentes e implementação urgente de políticas públicas robustas em regulação rígida e a priori da publicidade de suplementos, intenso investimento em educação cientifica e midiática e fortalecimento de narrativas contra-hegemônicas. Este trabalho reforça a latente necessidade do combate à desinformação, da defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e valorização da educação como plano de resistência à mercantilização da saúde e bem-estar.

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Publicado

16-01-2026

Edição

Seção

Desinformação, informação e tradução do conhecimento em saúde