ENCONTROS SOCIOIDEOLÓGICOS EM DISCURSOS FUNDADORES: TENTATIVAS DE UNIFICAÇÃO NO HETERODISCURSO

Autores

  • Luciano Leite Caitano UFFS
  • Drª. Ana Beatriz Ferreira Dias UFFS

Palavras-chave:

Luso-brasileiro, Colonos, Círculo de Bakhtin

Resumo

O presente trabalho tem por objetivo principal a compreensão de enunciados que compõem o livro Reminiscências (2002), escrito pelo Pe. Max Von Lassberg, com base nos conceitos de forças centrípetas e centrífugas formulados pelo Círculo de Bakhtin. De modo a melhor introduzirmos esta discussão, consideramos importante dizer que entendemos, a partir de outros estudos, a obra Reminiscências (2002) como uma espécie de diário, onde o autor faz uso da palavra para relatar vivências de sua vida e deixar informações e registros sobre processos de colonização em assentamentos e territórios do Rio Grande do Sul, bem como relatos de encontros socioideológicos e culturais entre diferentes grupos humanos. Posto isso, nos interessamos pelos enunciados relativos ao contato entre dois grupos étnico-culturais: os luso-brasileiros e colonos alemães, no território da colônia de Serro Azul — espaço que abrange o atual município de Cerro Largo (RS) e redondezas, localizado na região Noroeste do Rio Grande do Sul, acontecido no contexto do início dos anos de 1900, que envolve processos de colonização e apropriação de terras. Como estratégia metodológica, recorremos à metodologia de cotejamento entre textos, tal qual propõe estabelecer relação com outros textos. Sob essa perspectiva, estabelecemos um diálogo com (com)textos historiográficos e linguísticos, objetivando ir de encontro a contrapalavras contra-hegemônicas que propõem outras interpretações de mundo. Nesse exercício de escuta, percebemos que predomina uma visão dominante sobre a história do município de Cerro Largo — a fundação da colônia de Serro Azul como ponto de inflexão na história deste município, como se tudo tivesse começado com a chegada dos imigrantes alemães. Conforme essa perspectiva, coube ao imigrante alemão Pe. Max Von Lassberg a tarefa de fundar Cerro Largo, numa ideia de mito fundador. Tal concepção deixa de fora a contribuição de outros grupos étnico-culturais, que também foram responsáveis pelo desenvolvimento e povoação da cidade de Cerro Largo, como os caboclos — que, a depender do contexto sócio-histórico e quem os vinculava, eram conhecidos por diversas palavras. Dentre as nomenclaturas associadas aos caboclos, estão: nacional, luso-brasileiro, homem livre e pobre, sitiante, posseiro, ervateiro, intruso, lavrador nacional, entre outros. Ao nos valermos da compreensão da palavra como lugar que abrange a sistematização de relações sócio-históricas e histórico-materiais dos seres humanos, compreendemos a materialidade discursiva Reminiscências (2002) como um signo ideológico, atravessado por refrações axiológicas quanto ao contexto sócio-histórico no qual se encontra. Dessa forma, neste texto heterodiscursivo, povoado por diversas vozes, não existe a possibilidade de residir uma única força centralizadora. Ao lado das forças centrípetas, segue o trabalho das forças centrífugas, desenvolvendo, incessantemente, os processos de descentralização e separação. Ao considerarmos o todo dos enunciados, observamos uma construção sócio-hierárquica entre os grupos humanos sustentando-se, principalmente, na ideia de força de trabalho. Nessa divisão, os alemães, retratados de forma apreciativa no texto, são justapostos aos caboclos, assumindo uma posição superior a eles. Nessa composição, ouvimos vozes de forças centrípetas, que sugerem a preservação das formas de produção dos alemães — considerado, por ideologias dominantes da época, como mais desenvolvidas.

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Publicado

01-07-2026