GRUPO FOCAL NA ELABORAÇÃO DE TECNOLOGIA EDUCATIVA PARA A NOTIFICAÇÃO DE VIOLÊNCIA CONTRA MULHER RURAL

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Resumo

Introdução: O grupo focal (GF) tem sido adotado tradicionalmente em pesquisas qualitativas em saúde, e representa uma técnica de produção de dados em investigações grupais (Kinalski et al., 2016; Oliveira et al., 2020). Essa modalidade de produção de dados foi pensada para ocorrer presencialmente, onde os participantes se reúnem, dialogam entre si e com os pesquisadores, trazendo suas crenças e vivências práticas relacionadas ao objeto de estudo. No entanto, obstáculos podem ocorrer para que se consiga reunir os participantes fisicamente, como por exemplo, a distância geográfica e social. Nesse sentido, surge a possibilidade de GF on-line o que possibilita a aproximação, mas requer acesso à internet e letramento digital (Oliveira et al., 2022). O GF, além de ser um instrumento que identifica opiniões de um coletivo de pessoas, aproxima saberes científicos sobre a prática assistencial e por meio do debate produz um novo conhecimento, capaz de transformar a realidade concreta (Kinalski et al., 2016). Quando aplicado com participantes de contexto rural, a metodologia requer atenção dos pesquisadores com relação a aproximação do campo e disponibilidade dos sujeitos no envolvimento e engajamento com a questão de pesquisa. Desafios relacionados à organização e planejamento do grupo como dia, horário, transporte, deslocamento e local precisam ser levados em consideração pela equipe de pesquisa. A distância geográfica pode ser um limitador da participação, pois os participantes nem sempre têm condições de se deslocar (para o lugar onde ocorre a entrevista), e o mesmo pode acontecer com os pesquisadores. Portanto, a distância em quilômetros, as condições da estrada e o clima podem dificultar a ocorrência dos grupos e por vezes, atrasar o cronograma da equipe. O esforço e o empenho da equipe de pesquisa para manter o engajamento e a relação com os participantes é fundamental para o funcionamento do GF. Ainda, o objeto de estudo necessita fazer sentido para os integrantes do GF, o qual neste caso foi a construção de uma tecnologia educativa (TE) como proposta para ampliar as notificações de violência contra mulheres (VCM) em contexto rural, por fazer parte de uma demanda dos serviços de saúde do município apontada em estudo anterior.  Objetivo: Relatar a experiência de discentes do Programa de Pós-Graduação em Saúde e Ruralidade (PPGSR) na condução GF para produção de dados em pesquisa qualitativa. Metodologia: Relato de experiência a partir da vivência de um grupo de alunos do PPGSR da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) na condução de quatro sessões de GF que ocorreram na sala interativa da universidade, no turno da manhã durante os meses de julho e agosto de 2025. A atividade foi desenvolvida como parte de um projeto de pesquisa de mestrado, cujo objetivo é elaborar e validar uma TE para subsidiar o preenchimento da ficha de notificação de VCM em contextos rurais de Palmeira das Missões. A pesquisa foi aprovada pelo CEP da UFSM parecer nº: 7.494.335. Participaram dos GF 8 profissionais da Estratégia Saúde Rural e de equipes de saúde que atendem mulheres rurais. As categorias profissionais participantes foram: um médico, duas enfermeiras, três técnicas de enfermagem e dois Agentes Comunitários de Saúde. O grupo de pesquisa foi constituído pela moderadora (mestranda-autora da pesquisa) e duas observadoras (mestrandas do PPGSR), sendo uma responsável pelo diário de campo e outra pelas gravações dos diálogos. A pesquisadora principal fez contato com a responsável técnica da secretaria municipal de saúde, que indicou os profissionais das unidades de saúde rurais e não rurais como prováveis participantes, devido ao atendimento a mulheres desse contexto. A pesquisadora organizou um grupo no aplicativo Whatsapp com os prováveis participantes. Neste espaço virtual, foi realizado o convite para a primeira sessão presencial na universidade. Este meio tornou-se um canal de comunicação e partilha de material. Antes de cada sessão um convite foi disponibilizado para o grupo, a fim de reforçar o encontro. As sessões tiveram duração média de 110 minutos e foram gravadas em áudio com auxílio de gravadores colocados em locais próximos aos participantes. Todas as sessões seguiram um roteiro: GF1. 1º Momento:  Recepção, agradecimento pela participação e apresentação dos espaços onde ocorreram os encontros, apresentação da equipe de pesquisa, do projeto de pesquisa e esclarecimento de dúvida. 2º Momento: Apresentação dos participantes com dinâmica de escolha de diversos objetos dispostos em cima da mesa, cada integrante escolhia um objeto e fazia suas apresentações e a relação com o material que lhe representava. Retomada do objetivo da pesquisa e pactuação atividades a serem desenvolvidas nos encontros da pesquisa; 3º Momento:  Entrega da ficha de caracterização aos participantes e orientação da condução do GF.  Questionamentos disparadores de reflexão: vocês conhecem os tipos de violência? Receberam orientação sobre a ficha de notificação? Ela faz parte do cotidiano profissional? Quais as dificuldades no preenchimento da ficha? Fechamento das discussões com as sínteses do aprendizado e avaliação do dia. GF2-1º. Momento: Recepção, agradecimento pela participação e apresentação da síntese da sessão anterior para validação dos discursos. 2º. Momento: Retomada do objetivo da segunda sessão. Apresentação do vídeo ¨Sozinhas - VCM que vivem no campo. Entrega de casos reais e fictícios e de uma ficha de notificação (FN) impressa para leitura e preenchimento. Apresentação dos desafios do preenchimento dos campos da FN. 3º. Momento: Síntese das dificuldades no preenchimento dos campos da FN e avaliação da sessão. GF3-1º. Momento: Recepção, agradecimento pela participação e apresentação da síntese da sessão anterior para validação das narrativas. 2º. Momento: Vocês possuem conhecimento acerca das TE utilizadas para orientação da notificação? O que você considera que deveria ser incluído? Vamos construir juntos? Quais as características que a tecnologia deve conter? Quais as potencialidades e fragilidades da aplicabilidade e exequibilidade? Vamos construir a tecnologia? Foi entregue folhas e cartolinas com canetas coloridas e fichas para elaborar uma prévia da TE. 3º. Momento: Identificação de itens na composição da TE. Escolha de conceitos, desenhos, temas, e indicações de respostas mais apropriadas no preenchimento da FN. Síntese e avaliação da sessão. GF4- 1º. Momento: Recepção, agradecimento pela participação e apresentação da síntese da sessão anterior para validação das narrativas 2º. Momento com o esboço da TE em papel, os participantes elaboraram no computador a primeira versão do infográfico da notificação. Na sequência foi aprovado para o envio para a designer gráfico e 3º. Momento:  Síntese e avaliação da sessão. Quanto maior a habilidade e competência da equipe de pesquisa na condução do GF maior a possibilidade de gerar nos participantes o sentimento de pertença e corresponsabilidade no desenvolvimento da pesquisa (Kinalski et al., 2016). Contribuição do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: este trabalho está alinhado com os seguintes objetivos: Objetivo 3 - Saúde e bem-estar:  as mulheres e meninas vítimas de violência apresentam sérios problemas de saúde físicas, emocionais e econômicas sendo assim a equipe de saúde possui papel primordial nas ações de prevenção da violência, na sensibilização e na educação em saúde. Objetivo 5- Igualdade de gênero e empoderamento de todas as mulheres e meninas, pois a exclusão de mulheres e meninas afeta negativamente todas as áreas da sociedade e as equipes de saúde precisam estar capacitadas para atuar na identificação, notificação, acolhimento e encaminhamento das vítimas. Objetivo 17 - Parcerias e meios de implementação tem como propósito fortalecer a contribuição mundial para alcançar os outros 16 ODS estimulando recursos, fomentando a tecnologia e os saberes. Considerações finais: O GF mostrou-se potente como método de produção de dados, além de identificar a opinião dos participantes acerca do problema de pesquisa, possibilita o compartilhamento de informações e construção de conhecimentos sobre a TE para a notificação da VCM. Os participantes elaboram um esboço de um infográfico, esse processo ocorreu a partir do preenchimento da ficha de notificação compulsória de violências interpessoais e autoprovocadas preconizada pelo Ministério da Saúde (2004), das experiências práticas associada a situações de problemas reais e fictícios, e do Instrutivo Notiviva.

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Publicado

16-01-2026