DA NOTIFICAÇÃO TARDIA AO MONITORAMENTO EM TEMPO REAL: READEQUAÇÃO TECNOLÓGICA NA VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA
Resumo
Introdução: A vigilância epidemiológica constitui-se como um dos pilares fundamentais da saúde pública, possibilitando a detecção precoce de agravos, a análise de tendências e a execução de medidas oportunas de prevenção e controle (Cruz et al., 2024). No contexto das doenças diarreicas agudas, especialmente em municípios turísticos, a celeridade no reconhecimento de padrões inusitados é crucial, tendo em vista a elevada rotatividade populacional e o potencial de disseminação por água e alimentos contaminados. No município em questão, considerado de pequeno porte e com destaque econômico na área turística, possuía seu monitoramento através de planilhas físicas distribuídas na unidade básica de saúde e no hospital, as quais continham dados resumidos, como iniciais do paciente, faixa etária e bairro de residência. Todavia, tais registros eram encaminhados à vigilância apenas uma vez na semana, o que comprometia a detecção precoce de surtos e condicionava a resposta à percepção subjetiva de profissionais de saúde (Ferraz et al., 2024). Diante dessa fragilidade, foi concebida uma readequação do processo de notificação, mediante o uso de tecnologias digitais acessíveis, com vistas a otimizar o fluxo de informações, reduzir o tempo de resposta e fortalecer a capacidade de análise situacional em tempo real. Objetivo: Apresentar a criação e implementação de uma ferramenta digital, construída a partir da vinculação de um formulário eletrônico a uma planilha automatizada, destinada ao monitoramento contínuo de casos de diarreia em município turístico de pequeno porte, do interior de Santa Catarina. Metodologia: trata-se de um relato de experiência em saúde digital, realizado no âmbito da vigilância epidemiológica municipal. O processo consistiu na elaboração de um formulário eletrônico, disponibilizado em plataforma gratuita, contemplando não apenas as informações básicas necessárias à notificação de casos como as iniciais do paciente, faixa etária e bairro, mas também variáveis relevantes para a investigação epidemiológica, como locais frequentados, endereço de residência, ocorrência de sintomas em familiares, alimentos ingeridos e demais exposições consideradas de risco. O formulário foi vinculado a uma planilha digital de preenchimento automático, permitindo a organização sistematizada dos dados. Para assegurar o uso cotidiano da ferramenta, o acesso foi disponibilizado na área de trabalho dos computadores das unidades de saúde, favorecendo o preenchimento imediato. Além disso, o envio de notificações instantâneas foi configurado, de modo que cada novo registro fosse prontamente comunicado à equipe de vigilância, viabilizando monitoramento em tempo real. Resultados e discussão: A implementação da ferramenta resultou em transformações significativas no processo de vigilância epidemiológica. A periodicidade da comunicação foi modificada, passando de semanal para instantânea, o que ampliou expressivamente a capacidade de resposta da equipe. Essa alteração temporal permitiu maior agilidade na detecção de surtos e na adoção de medidas de contenção. Além disso, a ferramenta contribuiu para a padronização e a completude das notificações, diminuindo a perda de informações relevantes e qualificando a base de dados. Observou-se também maior engajamento dos profissionais de saúde, que passaram a registrar os casos de maneira mais ágil e prática, favorecendo a integração entre a assistência e a vigilância. Outro aspecto relevante foi o fortalecimento da análise epidemiológica, uma vez que a incorporação de variáveis contextuais possibilitou identificar rapidamente nexos entre os casos notificados, como a frequência a espaços coletivos, o consumo de alimentos específicos e a ocorrência de sintomas em membros de uma mesma família. Essas informações favoreceram a formulação precoce de hipóteses diagnósticas, o direcionamento de equipes de campo para coleta de amostras e a comunicação imediata com instâncias superiores. Sob a ótica da saúde digital, tais resultados evidenciam o potencial transformador da utilização de tecnologias simples e acessíveis na vigilância em saúde. A digitalização de processos tradicionalmente manuais não apenas agrega agilidade e precisão, mas também amplia a capacidade de integração entre diferentes níveis de atenção, promovendo fluxos de informação mais horizontais e colaborativos. Ao mesmo tempo, possibilita maior rastreabilidade dos dados e geração de séries históricas com qualidade, fortalecendo o papel estratégico da informação em saúde como instrumento de gestão. Nesse sentido, a experiência relatada alinha-se ao movimento global de incorporação da saúde digital como ferramenta estruturante para o alcance da cobertura universal e da equidade em saúde (Muniz; Mota; Sousa, 2023). Mais do que uma simples substituição do papel pelo meio eletrônico, a iniciativa representa um avanço na construção de sistemas de vigilância mais responsivos, sustentáveis e adaptados às novas demandas epidemiológicas. Essa perspectiva é especialmente relevante em territórios turísticos, onde a dinâmica populacional exige respostas rápidas e efetivas, sob pena de amplificação do risco sanitário. Assim, a ferramenta descrita reafirma a importância da saúde digital como campo estratégico para o fortalecimento da vigilância epidemiológica e para a consolidação de um SUS mais ágil, integrado e resolutivo. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O presente trabalho contribui de forma direta para o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 – Saúde e Bem-Estar, em especial para a Meta 3.d, que propõe “reforçar a capacidade de todos os países, particularmente os em desenvolvimento, para o alerta precoce, a redução e o gerenciamento de riscos à saúde nacionais e globais”. A experiência relatada materializa essa meta ao fortalecer a capacidade de vigilância epidemiológica local, permitindo que a detecção de casos suspeitos de doenças diarreicas ocorra em tempo real, com imediata comunicação à equipe de saúde. Essa readequação do processo de notificação possibilitou não apenas maior agilidade na resposta frente a potenciais surtos, mas também a qualificação da análise epidemiológica, ampliando a precisão das ações de prevenção e controle. Ao garantir rapidez, padronização e integralidade nas informações, a ferramenta implementada contribuiu para práticas de saúde pública mais resolutivas, alinhando-se ao compromisso global de fortalecimento dos sistemas de vigilância em saúde como elemento essencial para a proteção da vida e o alcance da equidade sanitária. Considerações finais: A adoção da planilha digital vinculada a formulário eletrônico possibilitou (re)adequação estratégica dos processos de vigilância epidemiológica no município, qualificando a coleta e a análise de dados, reduzindo o tempo de resposta e ampliando a integração entre profissionais de saúde e gestão. Embora simples, trata-se de uma estratégia de grande impacto, replicável em diferentes realidades do Sistema Único de Saúde, reafirmando a importância da saúde digital como ferramenta indispensável à promoção da segurança sanitária e ao fortalecimento das políticas públicas de saúde.
