RELATO DE CASO DE LEISHMANIOSE VISCERAL (LVC) EM CÃO NO MUNICÍPIO DE CHAPECÓ - SC
Resumo
Introdução: Leishmaniose Visceral Canina (LVC) é uma zoonose de relevância em saúde pública, causada por protozoários do gênero Leishmania e transmitida principalmente pelo flebotomíneo Lutzomyia longipalpis, os principais sintomas incluem emagrecimento, fraqueza, anemia, febre intermitente e problemas renais (Mergen; Souza, 2023). De evolução lenta e início silencioso, apresenta ampla distribuição geográfica, sendo os cães os principais reservatórios domésticos (Brasil, 2024). Por ser uma doença de notificação compulsória e com características clínicas de evolução grave, o diagnóstico deve ser feito de forma precisa e o mais precocemente possível (Brasil, 2014). Diagnóstico precoce e manejo adequado são essenciais para o controle da doença, cuja transmissão pode ocorrer, ainda que raramente, por vias não vetoriais, como transfusões sanguíneas. Objetivo: Apresentar um caso de LVC em um cão residente na zona urbana do município de Chapecó – SC, com diagnóstico confirmado por exames sorológico e parasitológico, além da identificação de outros casos relacionados por meio de transfusão sanguínea. Metodologia: Este trabalho relata uma experiência interinstitucional (Secretaria municipal e estadual de saúde e uma instituição de ensino a Unidade Central de Educação Faem Faculdade ) ocorrida em 2024, no município de Chapecó (SC), envolvendo a confirmação de LVC em um cão oriundo de Goiás, e outros dois cães conviventes. A partir do diagnóstico confirmado do primeiro cão, foram iniciadas investigações epidemiológicas e laboratoriais, que identificaram mais dois cães positivos para LVC, ambos residentes em Chapecó e sem histórico de deslocamento para áreas endêmicas. Efetuou-se investigação entomológica conforme o Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral (Brasil, 2014), com armadilhas CDC instaladas na área de convivência para detectar flebotomíneos. Adicionalmente, conduziram-se inquéritos em imóveis vizinhos, em parceria com professores e alunos do curso de veterinária, para buscar cães sintomáticos. As ações envolveram equipes multiprofissionais (médicos veterinários, enfermeiros, agentes de combate a endemias e biólogos), com entrevistas, rastreamento de dados clínicos, exames laboratoriais e articulação entre instituições. Por se tratar de relato de experiência sem dados identificáveis, dispensou-se submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. Resultados e discussão: Não se identificaram vetores transmissores na investigação entomológica. A busca ativa na vizinhança não revelou novos casos, exceto nos dois cães conviventes com o animal inicial. A análise de históricos clínicos e prontuários veterinários confirmou que esses cães haviam recebido transfusão sanguínea do cão diagnosticado previamente. Essa conexão demonstrou, de forma inédita na região, a transmissão por via transfusional. A experiência ressaltou a necessidade de triagem sorológica rigorosa em doadores caninos, mesmo em áreas não endêmicas, e a importância da integração entre instituições públicas e privadas para detecção precoce e controle de zoonoses. A prevenção da LVC beneficia a saúde animal e pública, dado o risco de transmissão humana (Mergen; Souza, 2023). A abordagem de Uma Só Saúde é essencial para compreender e combater zoonoses, integrando saúde humana, animal e ambiental de forma sustentável. Ela promove soluções colaborativas que protegem ecossistemas e previnem agravos como a LVC por meio de vigilância contínua e comunicação intersetorial. Esta experiência contribui para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ao reforçar prevenção de doenças transmissíveis, evidenciar a importância do diagnóstico precoce e da segurança transfusional em medicina veterinária e destacar a necessidade de vigilância epidemiológica sensível; o ODS 4 (Educação de Qualidade), ao envolver professores e alunos em ações práticas de investigação, fomentando capacitação em saúde pública e veterinária; o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), por abordar estratégias de prevenção de zoonoses em áreas urbanas, garantindo maior proteção à saúde coletiva; o ODS 15 (Vida Terrestre), ao enfatizar interfaces entre saúde animal, ambiente e ecossistemas para manejo responsável e preservação da biodiversidade; e o ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação), pela articulação entre município, estado e instituição de ensino, destacando a cooperação técnica e científica na perspectiva de “Uma Só Saúde”. Considerações finais: A investigação multiprofissional, com profissionais das secretarias estadual e municipal de saúde e uma instituição de ensino, confirmou a transmissão não vetorial, enfatizando triagens sorológicas rigorosas em doadores caninos e vigilância epidemiológica sensível em áreas não endêmicas. Apesar de limitações, como a ausência de dados sobre prevalência em doadores, o que pode subestimar o risco real de transmissão transfusional e limitar a generalização dos achados para populações maiores de cães doadores, e a investigação entomológica restrita, que reduz a capacidade de excluir completamente a presença de vetores em escalas mais amplas, potencialmente afetando a interpretação da ausência de transmissão vetorial como conclusiva, o relato reforça a abordagem “Uma Só Saúde”. Recomenda-se implementar protocolos de triagem, bancos de dados integrados e ampliar estudos para robustecer o controle de zoonoses.
