CÍRCULO DE CULTURA NA PROBLEMATIZAÇÃO DA OBESIDADE EM MEIO RURAL: RELATO DE EXPERIÊNCIA
Resumo
Introdução: Sobrepeso e obesidade advêm de um desequilíbrio entre ingestão e gasto energético. Na maioria dos casos, a obesidade é uma doença multifatorial devido a ambientes obesogênicos, fatores psicossociais e variantes genéticas. Em um subgrupo de pacientes, fatores etiológicos principais podem ser identificados como medicamentos, doenças, imobilização, procedimentos iatrogênicos e doença monogênica. A partir de 2025, o diagnóstico de obesidade passou a contar com novos critérios e o Índice de Massa Corporal (IMC) deixou de ser o único parâmetro utilizado, acrescentando a presença ou ausência de manifestações clínicas de disfunção orgânica que até então eram apenas complicadores da obesidade, desta forma alterando também a obesidade em pré-clínica e clínica. Há um novo conceito titulado como sindemia global, referente a três epidemias mundiais: mudanças climáticas, obesidade e desnutrição (Nepomuceno; Pereira; Simões, 2025). Na zona rural, essas questões podem se sobressair devido à falta de informação ou devido a hábitos culturais alimentares e sedentarismo. Objetivo: Relatar a experiência das participações de mestrandos profissionais da área da saúde sobre o tema obesidade a partir do círculo de cultura. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência a partir da vivência de um grupo de 21 alunos, dois homens e 19 mulheres. Destes, três nutricionistas, uma farmacêutica, um educador físico, um assistente social, uma psicóloga, uma pedagoga e os demais, enfermeiros, todos matriculados na disciplina de Abordagem do Ensino à Prática Docente, do Programa de Pós-Graduação em Saúde e Ruralidade da Universidade Federal de Santa Maria. A área de atuação dos discentes variou entre âmbito hospitalar, Atenção Primária à Saúde, escola, microempreendedor individual, além de 4 bolsistas do curso, sendo dois estrangeiros oriundos de Guiné Bissau e Moçambique. A faixa etária variou entre 27 e 45 anos. A atividade foi desenvolvida por quatro mestrandas, uma nutricionista e três enfermeiras a partir de uma aula simulada sobre “obesidade em contexto rural”, como proposta avaliativa da disciplina supracitada. Essa atividade ocorreu no turno da manhã do dia 12 de junho de 2025 em uma sala de aula da UFSM. O Círculo de Cultura de Paulo Freire e seu Itinerário de pesquisa foram adotados como método problematizador, aplicados por meio de uma árvore reflexiva, construída com os participantes da aula, com o intuito de debater a obesidade no contexto da ruralidade entre o corpo discente e concretizar este diálogo. Para a construção do método, foram utilizados slides teóricos e distribuição de papéis adesivos coloridos para que os alunos pudessem escrever seus conhecimentos prévios. Para isso, uma árvore com raízes, caule e copa desenhada previamente em um papel pardo, foi fixada no quadro da sala de aula. Posteriormente, foram anexadas na estrutura da árvore, as notas adesivas alaranjadas (raízes e caule) e verdes (copa), contendo as respostas escritas dos alunos, provocadas por perguntas indutoras da discussão. Para facilitar o processo de diálogo e realização do método freireano, os participantes foram dispostos em círculo, na sala de aula. Resultados e discussões: Inicialmente utilizou-se o círculo de cultura para a obtenção de conhecimento prévio sobre a obesidade. Conforme Souza, et al (2021), O Círculo de Cultura de Paulo Freire parte do pressuposto da construção do conhecimento mediante diálogo sistematizado. É uma proposta pedagógica democrática de aprendizagem não fragmentada e exige posicionamento perante os problemas vivenciados em determinado contexto (Antonini; Heideman, 2020). A construção da árvore reflexiva sobre a obesidade no contexto rural, subsidiou a compreensão da cultura alimentar da população rural e promoveu a reflexão do processo de acolhimento e tratamento da doença. A 1ª. etapa investigação temática/raízes, iniciou-se com as questões “O que é obesidade para você? O que causa a obesidade? Quais as consequências da obesidade? É possível tratar a obesidade? ”. Os alunos escreveram suas respostas em papéis alaranjados, os quais foram colados nas raízes da árvore. Aqui, surgiram conceitos como: doença crônica não transmissível, adoecimento corporal e mental, doença provocada pelo consumo em excesso de carboidratos, ausência de autocuidado e políticas públicas de cuidado. Essas opiniões corroboram Souza, Lacerda e Machado (2025), os quais afirmam reavaliar o referencial teórico e evitar replicar discursos culpabilizadores, além de perceber a obesidade enquanto um problema de saúde pública. Essa enfermidade complexa e suas comorbidades, tornam a APS protagonista do cuidado em saúde. Após todos os alunos entregarem suas notas sobre obesidade, elas foram lidas, promovendo o debate sobre os conceitos apresentados. Na 2ª etapa, codificação/descodificação da realidade, houve breve apresentação do conceito de obesidade segundo a literatura, formas de diagnóstico da doença e suas complicações. Então, os alunos foram instigados a responder as questões: “Quais experiências vocês conhecem sobre obesos no meio rural? Os ambientes e profissionais estão preparados para atender esse público? ”. Os discentes relataram as experiências da sua realidade com a convivência e atendimento às pessoas obesas. Além da verbalização, houve a conceituação de forma escrita em notas alaranjadas que foram coladas no caule da árvore e socializadas entre os participantes. Surgiram respostas como: influência de hábitos culturais alimentares da população rural, ausência de infraestrutura para atendimento adequado do público obeso em unidades de saúde de baixa à alta complexidade, falta de compreensão dos profissionais de saúde para auxiliar este público, baixa adesão ao tratamento, estigma social, políticas públicas desconhecidas por parte dos profissionais da área da saúde, não reconhecimento da importância de acompanhamento psicológico como parte do tratamento. Essas situações ficaram evidenciadas nos relatos dos alunos, a partir de situações expostas como a relação de saúde e fartura alimentar, além da própria relação com a terra e a produção alimentar, onde o benefício supera o malefício por ser um alimento de origem rural, como trouxe um discente. Já outra aluna, trouxe a dificuldade de infraestrutura para o atendimento de um paciente obeso que não conseguia ser acomodado adequadamente na unidade. Outra aluna trouxe o medo que alguns pacientes têm de sofrerem julgamentos por parte dos profissionais da saúde. Martins, et al (2019), mostra a gravidade da epidemia de obesidade nas zonas urbanas e rurais do Brasil, uma vez que as consequências da obesidade impactam em outras doenças, que podem ser agravadas se considerado o difícil acesso das populações rurais à saúde. Na 3ª. Etapa- desvelamento crítico, os alunos foram estimulados a refletir sobre possíveis soluções para as problemáticas descritas anteriormente através da pergunta “Quais são as estratégias que podem mudar essa realidade? ”, escrevendo as sugestões em notas autocolantes verdes, que posteriormente foram coladas na copa da árvore. Foram sugeridas criação de novas políticas públicas para abranger o apoio psicoemocional e social do público obeso, além de melhorar políticas públicas que envolvam o apoio a alimentação saudável e prática de atividade física. Promover campanhas educativas que abordem a complexidade da obesidade, além da superação do estigma, preconceito e discriminação, reconhecer que ambientes alimentares não afetam a sociedade por igual e reduzir as disparidades econômicas, de gênero, raciais e sociais são um elemento muito importante para que questões como obesidade e acesso a alimentação saudável sejam trabalhadas corretamente. Contribuição do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Conforme os objetivos 1 e 2, é importante finalizar a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável, além de ser necessário garantir uma vida saudável e promover o bem-estar para todos (as), em qualquer idade. Considerações finais: O Círculo de Cultura/Itinerário de Pesquisa mostrou-se de extrema relevância como método pedagógico problematizador no ensino para o compartilhamento de informações e construção de conhecimentos sobre o tema Obesidade entre os discentes do programa de pós-graduação. Foi possível observar que os mestrandos profissionais da área da saúde trouxeram muitas dificuldades para atendimento e acolhimento ao paciente obeso. Sugere-se, a partir das experiências relatadas, que sejam realizadas políticas públicas diferenciadas voltadas principalmente ao apoio psicológico para o paciente condicionado à esta doença e desmistificação do tema entre os próprios profissionais de saúde.
