CUIDANDO DE QUEM CUIDA: FORTALECENDO LAÇOS, REDES E BEM-ESTAR MATERNO ATRAVÉS DA MÚSICA

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Resumen

Introdução: a maternidade, por si só, é repleta de desafios, mas para mães de crianças neurodivergentes, esses desafios são amplificados por uma série de questões emocionais e práticas. Muitas dessas famílias se veem, inesperadamente, confrontadas com um mundo repleto de limitações, tanto para a criança quanto para si mesmas. Frequentemente, a sociedade não está preparada para lidar com as especificidades de pessoas neurodivergentes, o que coloca essas famílias em um ciclo de incertezas e medos. No caso das mães, esse ciclo se torna ainda mais complexo, pois, historicamente, são socialmente pressionadas a colocar as necessidades de seus filhos acima de tudo, muitas vezes à custa de seu próprio bem-estar emocional e físico. Esse cenário de sobrecarga constante pode resultar em frustração, pois, diante de tantas responsabilidades, nem sempre conseguem desempenhar seu papel de forma plena, gerando sentimentos de inadequação e esgotamento (Kintope; Borges, 2020). Nesse contexto, diante dos anseios, desafios e dificuldades enfrentadas por mães atípicas em seus cotidianos, possibilitar um momento acolhedor utilizando a música como recurso de intervenção para promoção à saúde e para o cuidado com vistas ao bem-estar materno, contribui para fortalecer laços e redes de apoio, bem como proporciona um momento para que essas mulheres voltem o olhar para si e para seu processo de viver. A música exerce um papel fundamental no cuidado da saúde materna, principalmente ao proporcionar momentos de alívio emocional e conexão consigo mesmas. Além disso, a música ativa uma resposta emocional profunda no corpo e na mente, o que pode resultar em comportamentos de relaxamento e reconexão emocional, tornando-se uma ferramenta valiosa para promover o bem-estar das mães, proporcionando momentos de cuidado integral e humanizado (Marquesini et al., 2023). Objetivo: relatar a experiência de uma intervenção do grupo Musicagem junto a mães de crianças atípicas, destacando o papel da música no acolhimento, no cuidado e na promoção do bem-estar materno. Metodologia: este estudo consiste no relato de experiência vivenciada no âmbito do grupo Musicagem, um Programa de Extensão e Cultura vinculado ao curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Chapecó, que tem como objetivo promover a saúde através da música. A atividade foi desenvolvida junto a um grupo de mães de crianças atípicas vinculadas à Aldeia 21, Associação de Mães com Filhos com Trissomia do Cromossomo 21, situada na região Oeste de Santa Catarina, com o propósito de acolher famílias, promover informações qualificadas sobre a Trissomia do Cromossomo 21, combater estereótipos e preconceitos, além de fortalecer direitos e contribuir para a melhoria da qualidade de vida das crianças com síndrome de Down e de seus familiares. A participação do grupo Musicagem ocorreu mediante convite realizado pela psicóloga convidada para ministrar um momento de partilha, escuta e acolhimento no segundo Encontro de Mães Atípicas de 2025, realizado no dia 31 de maio de 2025. A atividade foi planejada de forma colaborativa pelos integrantes do Musicagem, considerando a singularidade do público e os objetivos do encontro. O repertório selecionado contemplou canções populares brasileiras de fácil reconhecimento, relacionadas ao cotidiano das mães e de seus filhos, favorecendo a interação e o envolvimento de todos ali presentes. Durante a intervenção, foram utilizadas diferentes estratégias musicais, como canto coletivo e o uso de instrumentos musicais como violão, com vistas a estimular a participação e o engajamento do grupo. Participaram da vivência 19 mulheres da associação, uma criança atípica, a psicóloga e seis integrantes do Musicagem, em um encontro com duração aproximada de 45 minutos. Resultados e discussão: o momento foi conduzido de maneira a favorecer a expressão emocional, a troca de experiências entre as mães e a criação de um espaço de acolhimento e pertencimento. Observou-se que a música atuou como recurso facilitador de vínculos, possibilitando a vivência de sentimentos de alegria, leveza e fortalecimento do cuidado de si. Os achados da literatura científica corroboram de maneira significativa os efeitos observados nesta intervenção musical com mães de crianças com síndrome de Down. Estudos prévios apontam que intervenções musicais grupais promovem benefícios psicossociais relevantes: um ensaio controlado demonstrou que música e, especialmente, canto contribuem para melhora do bem-estar materno, redução do estresse (medido por cortisol salivar) e fortalecimento do vínculo mãe-bebê (aumento de oxitocina e autoconfiança) (Wulff et al., 2021). Além disso, investigações com grupos de pais de crianças com deficiência evidenciaram melhorias significativas na saúde mental dos cuidadores, sensibilidade parental, engajamento com a criança, aceitação e habilidades comunicativas e sociais das crianças (Williams et al., 2012). Revisões sistemáticas também indicam ganhos nas relações sociais, afeto, comunicação e qualidade de vida em contextos pediátricos, com efeitos particularmente robustos em casos de crianças com deficiência e em interações familiares (Stegemann et al., 2019). No presente trabalho, a vivência musical junto ao grupo de mães segue nessa direção, unindo a música, vozes e instrumentos favorecendo uma atmosfera de descontração, alegria e acolhimento. Observou-se, qualitativamente, um fortalecimento das trocas afetivas entre as participantes, expressão de emoções, momentos de choro, alívio e uma vivência ampliada do bem-estar e pertencimento. Esses efeitos são convergentes aos benefícios relatados nos estudos acima, especialmente no que se refere ao suporte emocional, regulação afetiva e fortalecimento do cuidado materno. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: a experiência relatada vincula-se aos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) 10 - Redução das Desigualdades, em especial à meta 10.2, que propõe até 2030 empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todas as pessoas, independentemente de idade, sexo, deficiência ou outras condições, e ao ODS 3- Saúde e Bem-estar, ao considerar o cuidado integral e a promoção da saúde mental. Ao favorecer um espaço de acolhimento, escuta e bem-estar para mães de crianças atípicas, a intervenção musical contribuiu para o fortalecimento de vínculos sociais, para a valorização das diferenças e para o enfrentamento de estigmas e preconceitos associados à deficiência. Dessa forma, o trabalho reforça práticas que estimulam a equidade, a inclusão e o reconhecimento dos direitos das famílias de crianças com síndrome de Down, alinhando-se às metas globais de promoção da justiça social e de redução das desigualdades. Considerações finais: o presente relato de experiência evidenciou que a intervenção musical promovida pelo grupo para com as mães contribuiu de forma significativa para o acolhimento, o bem-estar materno e o fortalecimento de vínculos sociais e afetivos. Ressalta-se que esse tipo de prática constitui uma alternativa de baixo custo e de fácil implementação em diferentes contextos, podendo ser adaptada e replicada em outros grupos e comunidades sem a necessidade de recursos financeiros elevados. A música, como tecnologia de cuidado, mostra-se aplicável em diversas situações de promoção da saúde, oferecendo benefícios psicossociais relevantes e acessíveis, além de fortalecer as redes de apoio social e emocional das mães. Entre as limitações deste estudo, destaca-se o caráter pontual da intervenção, a duração restrita e o número reduzido de participantes, fatores que impedem a generalização dos resultados.

Publicado

16-01-2026