TERAPIA DE FLORAIS NA CONSULTA DE ENFERMAGEM: EXPERIÊNCIA DE IMPLANTAÇÃO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA
Resumen
Introdução: A saúde mental está entre os principais desafios contemporâneos para a Saúde Coletiva (Lopes, 2020), exigindo respostas intersetoriais e estratégias inovadoras de cuidado. Na Atenção Primária à Saúde (APS), a ansiedade, insônia, estresse e sintomas depressivos leves têm se tornado queixas recorrentes entre os usuários, exigindo abordagens que ultrapassem o modelo biomédico tradicional e favoreçam uma atenção centrada na integralidade e no cuidado humanizado (Brasil, 2018). Nesse contexto, o enfermeiro assume importante papel, pois a consulta de enfermagem representa um encontro clínico privilegiado para a escuta qualificada, a partir da qual pode-se ofertar de fato um cuidado centrado na pessoa por meio da mobilização de recursos terapêuticos que melhor se adequem às necessidades de cada usuário. Dentre estes recursos estão as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) - amparadas no Sistema Único de Saúde (SUS) pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) (Brasil, 2018), sendo a terapia de florais uma destas práticas. Objetivo: relatar a experiência do uso da terapia de florais durante consultas de enfermagem na Atenção Primária. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo, na modalidade relato de experiência, resultado da implantação da terapia de florais em consultas de enfermagem de uma Unidade Básica de Saúde localizada em um município com população de 6.295 habitantes, no Extremo Oeste do Estado de Santa Catarina, Brasil. O cenário do estudo caracteriza-se por atendimento à população adstrita majoritariamente de perfil rural, com predomínio de condições crônicas e demandas relacionadas à saúde mental, o que justificou a introdução da prática integrativa. O relato compreende a experiência de uso da terapia de florais em consultas realizadas pela enfermeira na unidade mencionada entre 2018 e 2025. Foram descritas as etapas de implantação da prática, os critérios de indicação terapêutica, o processo de prescrição e acompanhamento dos pacientes, bem como as percepções profissionais quanto à adesão e aos resultados observados. A análise dos dados foi realizada de forma narrativa e reflexiva, buscando identificar potencialidades, desafios e lições aprendidas para a prática clínica e para a gestão do cuidado. Por tratar-se de um relato de experiência, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, entretanto, foram respeitados os princípios éticos de sigilo e anonimato dos usuários, em conformidade com a Resolução CNS nº 466/2012. Resultados e discussão: Antes do uso da terapia, a enfermeira foi habilitada com especialização para a realização das avaliações clínicas, identificação dos usuários com queixas de ansiedade e insônia, e habilitada para a oferta de acompanhamento terapêutico com prescrição individualizada de florais de Bach. Adotou-se como fluxo de atendimento a realização de uma avaliação inicial dos usuários, visando identificar os pacientes em consultas médicas ou de enfermagem com queixas de ansiedade ou insônia persistentes. Em seguida, realizava-se a avaliação clínica por meio de consulta de enfermagem em saúde mental na APS, com ênfase no acolhimento e na escuta qualificada. Os atendimentos ocorreram de forma individual, sendo a escuta qualificada o eixo central do cuidado, permitindo que o paciente expressasse livremente suas angústias, emoções e expectativas. Posteriormente, no planejamento terapêutico, que consistia em um diálogo entre a enfermeira e o usuário sobre as possibilidades de tratamento, havia a possibilidade de incluir a terapia floral como recurso complementar de cuidado, quando indicada e discutida com o usuário. A partir da escuta qualificada foram realizadas as prescrições de fórmulas individualizadas de florais de Bach (Bach, 2006). Estas ocorreram considerando os estados emocionais predominantes, aspectos comportamentais e relatos subjetivos de cada usuário. Realizou-se o acompanhamento dos usuários atendidos, que retornaram mensalmente em 30, 60 e 90 dias para reavaliação clínica, ajuste de formulação, aprofundamento do diálogo terapêutico e avaliação quanto aos resultados observados. Os atendimentos foram registrados de maneira sistematizada em prontuário eletrônico, auxiliando no acompanhamento longitudinal. Entre 2018 a 2025 cerca de 813 usuários foram atendidos com terapia floral, observando-se na prática profissional - através da percepção clínica da enfermeira durante o acompanhamento dos usuários e também com os relatos subjetivos dos próprios usuários durante as consultas - melhora da ansiedade, na qualidade do sono e da capacidade de enfrentar situações de sobrecarga emocional. Para além dos resultados clínicos observados, a experiência demonstrou que a consulta de enfermagem, quando associada ao uso da terapia de florais, fortalece a relação de confiança entre profissional e usuário, amplia o vínculo terapêutico e legitima a escuta como ferramenta essencial de cuidado. Muitos usuários relataram sentir-se acolhidos e valorizados, afirmando que o espaço da consulta lhes proporcionou alívio emocional e sentimento de pertencimento. A prática contribuiu ainda para a redução do uso de medicamentos em casos leves e para maior adesão às propostas terapêuticas não medicamentosas, em consonância com acompanhamento multiprofissional. Essa experiência reforça o papel do enfermeiro como protagonista na implementação das PICS, ao integrar ciência, sensibilidade e humanização no processo de cuidar (Zapelini et al., 2023). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: este relato contribui em direção ao objetivo 3 (Saúde e Bem-Estar), sobretudo com a meta 3.4 deste objetivo, que compreende a busca pela redução da mortalidade prematura por doenças não transmissíveis, promoção da saúde mental e do bem-estar, já que evidências prévias e a experiência prática enquanto enfermeira têm apontado que a implantação das terapias florais promove qualidade de vida e previne agravamentos em saúde mental. Além disso, esta experiência se associa com o 5º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (Igualdade de Gênero), pois a maioria dos usuários atendidos eram mulheres, que encontraram na prática um espaço de acolhimento de suas demandas emocionais; com o 10º objetivo (Redução das Desigualdades), já que a terapia floral é de baixo custo e acessível a populações de pequenos municípios; e ao objetivo 16º (Paz, Justiça e Instituições Eficazes), ao promover fortalecimento dos vínculos comunitários e institucionais com os usuários atendidos. Considerações finais: Conclui-se que a incorporação da terapia de florais durante a consulta de enfermagem contribuiu significativamente para o fortalecimento dos vínculos profissionais, comunitários e institucionais com os usuários atendidos, potencializando a escuta qualificada e ampliando o campo de atuação em saúde mental. A prática demonstrou-se viável, resolutiva e centrada no cuidado humanizado, reafirmando a relevância das PICS no SUS e o papel do enfermeiro como agente transformador na promoção do cuidado integral e da qualidade de vida da população. Recomenda-se a continuidade da prática, sua expansão para outras Unidades Básicas de Saúde e o desenvolvimento de pesquisas que possibilitem uma avaliação mais sistemática da efetividade da terapia floral como recurso complementar na atenção à saúde mental. Quanto às limitações do estudo, destaca-se que se trata de um relato de experiência, não contemplando avaliação da efetividade com base em amostra estatisticamente determinada ou por protocolos de pesquisa específicos, o que configura um importante direcionamento para investigações futuras.
