SAÚDE DE PESSOAS LGBTQIAPN+ EM PAUTA NA UNIVERSIDADE:ESTRATÉGIA DE DISCUSSÃO E SENSIBILIZAÇÃO CONTRA LGBTFOBIAS

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Abstract

Introdução: O silenciamento das pautas que atravessam grupos que englobam a comunidade LGBTQIAPN+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais/transgênero/travestis, queers, intersexo, assexuais/arromânticos/agêneros, pansexuais, não binários e demais orientações ou identidades incluídas na sigla) é uma realidade presente em diversos espaços sociais, políticos e institucionais, refletindo uma estrutura histórica de marginalização e invisibilidade desta população. De modo geral, suas demandas costumam ser tratadas como secundárias, ou vistas apenas sob o prisma da estigmatização, o que dificulta o avanço de políticas públicas e a garantia de direitos humanos e sociais. O Mês Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, representado mundialmente no mês de junho, surge como um dispositivo de luta e resistência diante das barreiras sociais restritivas que percorrem o andar de vida dessas pessoas, no sentido do sobreviver com mais saúde e dignidade. Pessoas LGBTQIAPN+, enfrentam de forma recorrente, situações de violências e de preconceito social, além de terem seus direitos de cidadania, como o do acesso à saúde de qualidade, sistematicamente negligenciados (Brasil, 2023). O Programa de Educação Tutorial - PET Enfermagem, da Universidade Federal de Santa Maria, campus Palmeira das Missões (UFSM/PM), busca dentre suas atribuições, fomentar o processo de educação em saúde, a fim de cumprir com um de seus propósitos que é a busca pela melhoria na qualidade de vida da população (Brasil, 2005). Nessa perspectiva, o Compartilha PET, espaço que possibilita a reflexão no ambiente acadêmico por meio de encontros coletivos, foi projetado como ferramenta contribuinte no objetivo citado. Essas indagações favorecem a conscientização e a educação em saúde em relação a campanha, e direcionada ao público envolvido, pode favorecer um ambiente profícuo para o aprendizado sobre assuntos que permeiam os desafios incidentes nas trajetórias de vida das pessoas LGBTQIAPN+. Objetivo: Relatar a experiência de organização de duas edições do Compartilha PET sobre questões LGBTQIAPN+ no ambiente universitário. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência a partir de vivências extensionistas no ambiente universitário, durante a organização e planejamento das tematizações e discussões geradas no Compartilha PET acerca de pautas LGBTQIAPN+. A atividade é organizada e desenvolvida pelos integrantes do grupo PET Enfermagem UFSM/PM, a fim de promover um espaço dialógico e reflexivo de vivências em saúde. Essa atividade ocorre semanalmente, nas terças-feiras, na UFSM/PM, das 12 horas e 30 minutos até as 13 horas e 30 minutos, período destinado ao almoço na instituição. Nos encontros, os organizadores ficam responsáveis pela escolha de conteúdos atuais e pertinentes para o campo da saúde, fazendo uma breve explanação sobre a temática trabalhada, utilizando recursos visuais adequados para o aprendizado, dinâmicas que facilitem as trocas entre os participantes, além de contatar um convidado, e quando houver, auxiliar este em sua metodologia, mediando as perguntas e comentários a ele direcionados. Os encontros em questão, foram realizados nos meses de junho e dezembro de 2024, em parceria com a docente coordenadora do Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Gênero, Vulnerabilidade e Cuidado em Saúde (GENVULC), e fizeram referência a luta social em prol da liberdade e da resistência que a comunidade LGBTQIAPN+ enfrenta diariamente. Os encontros do Compartilha PET tiveram 1 hora de duração e contaram com a presença de aproximadamente 70 participantes, promovendo momentos de debates e aprendizado acerca dos impactos e impasses observados nas vivências relativas à saúde de pessoas LGBTQIAPN+. Resultados e discussão: O primeiro encontro iniciou com a fala da convidada que abordou a saúde de pessoas LGBTQIAPN+ na perspectiva da clínica ampliada, a qual trouxe dados sobre o perfil dessa população, indicando ser majoritariamente negra, feminina e com expectativa de vida de 35 anos, menos da metade da média nacional (ANTRA, 2024). Em 2024, a média anual de assassinatos de pessoas trans foi de 122 vítimas e o levantamento anual iniciado em 2018 demonstra que esses dados não refletem a dimensão deste problema de saúde coletiva, pois prevalece subnotificações, cujos crimes são predominantemente marcados por violência extrema (ANTRA, 2024).  Foi destacado ainda, a influência do gênero e interseccionalidades nos processos de adoecimento e a importância dos profissionais de saúde aderirem esses referenciais para boas práticas na atenção à saúde de pessoas LGBTQIAPN+, visando um cuidado integral, equânime e humanizado garantido no Sistema Único de Saúde e rede suplementar. Além dos impactos na saúde física e psicoemocional dessas pessoas, a violência estrutural e LGBTfobias que marcam e acompanham seus itinerários terapêuticos, barreiras de acesso aos serviços de saúde, não respeito ao nome social, o descuidado prestado e desafios no exercício de direitos de cidadania, demonstram ainda mais a vulnerabilidade enraizada nestes contextos. Debateu-se sobre preconceito e estigma social enraizado, desqualificação profissional para identificar demandas de saúde singulares no cuidado em saúde de pessoas fora de padrões heterocisnormativos esperados, dentre tantas barreiras e desafios que permeiam o andar de vida das pessoas LGBTQIAPN+. Esses desafios e preconceitos experienciados no acesso aos serviços de saúde, culminam em processos de vulnerabilização e mais adoecimento, motivo pelo qual investir na formação de profissionais de saúde comprometidos com pautas dessa luta tem potência para mudar essa realidade. Demanda-se também, movimentos de luta por financiamento equitativo com vistas a efetiva e eficaz implementação de políticas públicas convergentes ao bem viver de pessoas LGBTQIAPN+ com saúde e segurança social. Os participantes problematizaram essas questões, e pelo Compartilha PET ser um espaço respeitoso, ético, seguro e promotor de vínculos, e de escuta afetiva atenta, alguns se sentiram encorajados a partilhar suas orientações e identidades de gênero, propiciando o acolhimento das discriminações relatadas, oportunizando a sensibilização à erradicação de violências, injustiças familiares e sociais e outras LGBTfobias, assim como à preservação da vida e promoção da saúde de pessoas LGBTQIAPN+. O segundo encontro exibiu o curta-metragem “Quem foi a mãe Verônica?”, pelo protagonismo, trabalho social em prol de pessoas trans, militância e potente resistência, Verônica, mulher trans, assassinada aos 40 anos em 2019, era reconhecida em Santa Maria/RS como "mãe loira". Em 2008, criou o primeiro alojamento para mulheres trans, enfrentando estigma e preconceito à época, fomentando dobras e espaços de construção social coletiva. A casa da “mãe loira” ampliou-se gradativamente e cobrava-se aluguel social, por essas afetações e acolhimento amoroso e protetor às pessoas LGBTQIAPN+, cujos corpos no andar a vida são marcados por violências familiares, escolar e sociais e seu andar da vida atravessado por resiliência diária à transfobia. Esse debate na universidade vai ao encontro da Política de Igualdade de Gênero da UFSM (Resolução n°064/2021) e criação do espaço multiprofissional Casa Verônica, dedicado ao acolhimento de pessoas em situação de violência de gênero e à promoção da igualdade de gênero nos campi da instituição, cujo nome foi escolhido por consulta à comunidade. Esses encontros articulam o ensino-extensão universitária mediante investimentos em ações educativas dessa natureza, e ofertam subsídios ancorados em saberes científicos, em tecnologias leves de cuidado em saúde e na clínica ampliada para maior capilaridade de temáticas sensíveis. Evidencia-se que os participantes desses encontros e integrantes dos grupos PET Enfermagem e GENVULC acessaram mais recursos para que possam se constituir em futuros profissionais da saúde comprometidos com o fim de LGBTfobias institucionais arraigadas no tecido social. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): O trabalho desenvolvido vai ao encontro da Agenda 2030, especialmente em relação aos ODS 3 - Saúde e Bem-estar, ODS 4 – Educação de qualidade e ODS 10 – Redução das desigualdades. Tais ODS perpassam transversalmente as ações promovidas pelo GENVULC e PET Enfermagem que, por meio dos encontros semanais do Compartilha PET favorece a construção coletiva de conhecimentos, possibilita debates reflexivos entre os participantes e fortalece os vínculos entre a comunidade acadêmica. Esses espaços de trocas de experiências no ambiente universitário são fundamentais para o crescimento ético, pessoal e desenvolvimento profissional de estudantes e demais pessoas envolvidas, pois promovem o compartilhamento de saberes, vivências, perspectivas diferentes, sensibilização e respeito a grupos vulneráveis socialmente, enriquecendo e qualificando o processo de aprendizagem no ensino superior. Considerações finais: O apagamento de pautas voltadas às pessoas LGBTQIAPN+ não apenas limita a representatividade e a voz destas, como perpetua desigualdades, preconceitos e um viver em sociedade violento, cuja sentença da expectativa de vida dificilmente ultrapasse os 35 anos. Romper com esse silenciamento é essencial à construção de uma sociedade mais justa, plural e inclusiva, em que todas as identidades e orientações sejam respeitadas e legitimadas. Dessa interlocução, ativa-se outras novas dobras capazes de afetar processos formativos no ensino superior, contribuindo no desenvolvimento de competências e habilidades éticas, técnico-científica, comunicacional para que o trabalho colaborativo em equipe no cuidado à saúde de pessoas seja, de fato, inclusivo e acolhedor às pessoas independente de suas identidades, orientações e afetos, para que o direito humano básico e essencial do conviver em uma comunidade ultrapassem o campo da utopia social.

Published

16-01-2026