DESINFORMAÇÃO DIGITAL E QUEDAS NAS COBERTURAS VACINAIS: UM ALERTA PARA A SAÚDE PÚBLICA

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Abstract

Introdução: a desinformação e a hesitação vacinal configuram-se hoje como desafios centrais para a saúde pública global, intensificados pelo avanço das tecnologias de comunicação digital e pelo uso massivo das redes sociais. A circulação de notícias falsas sobre vacinas não é um fenômeno atual, porém ganhou amplitude global no ambiente digital, em que conteúdos sensacionalistas e teorias conspiratórias encontram terreno fértil para rápida disseminação. No Brasil, esses fatores têm influenciado diretamente para a redução das coberturas vacinais, reabrindo portas para doenças antes controladas ou erradicadas. De acordo com a OMS/OPAS (2021), a hesitação vacinal e a desinformação relacionada à imunização, são as maiores ameaças à saúde global, sendo necessária a adoção de medidas de combate a esses fatores, de forma iminente. As razões para a queda na cobertura vacinal são complexas e necessitam de estudos aprofundados para entendimento das causas que levaram os indivíduos ao comportamento da hesitação vacinal. Esse fenômeno constitui um fator de grande impacto na queda dos percentuais de imunização no Brasil, o que contribui para a proliferação de doenças preveníveis por vacinas (Gisondi et al., 2022). Neste cenário, é fundamental fortalecer o combate à desinformação em saúde, especialmente nas plataformas digitais. Para enfrentar esses desafios é preciso atender às demandas atuais da saúde global e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU), que orientam as ações globais para um futuro mais sustentável, com estrutura e princípios para as novas gerações, que poderão explorar o potencial das tecnologias, aprimorando a eficácia e a eficiência dos serviços de saúde. Portanto, este trabalho atende ao eixo das doenças imunopreveníveis do Ministério da Saúde e aos ODS, especialmente o item três, Saúde e Bem-Estar que visa assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. Assim, atender aos objetivos das ODS significa reduzir a taxa de mortalidade materna; eliminar com as mortes evitáveis de recém-nascidos e crianças; erradicar as epidemias, dentre elas de doenças transmissíveis; atingir a cobertura universal de saúde, incluindo o acesso a vacinas; apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas; proporcionar o acesso a vacinas; e, aumentar o desenvolvimento e formação do pessoal de saúde. Objetivo: analisar como o fenômeno da desinformação e da hesitação vacinal, impactam nas coberturas vacinais, compreendendo suas causas e consequências para a saúde coletiva no Brasil, e identificar quais estratégias podem ser adotadas para reverter esse quadro, principalmente as que estão alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Metodologia: trata-se de um estudo exploratório, por meio de revisão narrativa da literatura. Originou-se a partir da necessidade de compreender os fatores que levam a baixas coberturas vacinais.  A busca na literatura foi realizada no mês de julho de 2025, nas bases de dados PubMed e SciELO, utilizando o operador booleano AND, combinando os seguintes Descritores em Ciências da Saúde (DeCs): “Desinformação”, “Hesitação vacinal”, “Cobertura vacinal” e “Redes sociais”, nas bases de dados em língua portuguesa, com artigos publicados entre os anos de 2021 e 2025. A busca resultou em 21 artigos, destes, sendo que três deles repetiu-se, resultando em um total de 18 artigos selecionados para análise. Por se tratar de um estudo em banco de dados secundários, não foi necessária apreciação por comitê de ética, mas respeitou-se o direito autoral da literatura utilizada. Resultados e discussão: após a leitura de títulos e resumos, emergiram as categorias: Desafios da imunização (3); Hesitação vacinal (6) e Desinformação/Fake News (9), categorizados com auxílio do software Excel®. De acordo com Galhardi et al., (2022), notícias falsas, chamadas de fake news, são utilizadas para manipular e prejudicar a população, fator este, fortalecido com o aumento do uso das redes sociais e aplicativos de mensagens. Apesar de ser um fenômeno antigo, a desinformação atingiu grandes proporções, devido à facilidade e rapidez de disseminação e pode ser classificada como uma grave ameaça à saúde pública (Massarani et al., 2021). A vacina é uma estratégia essencial na promoção da saúde pública. Porém, uma crescente hesitação vacinal tem sido associada à desinformação em redes sociais. A desinformação associada às vacinas não resulta apenas de conteúdos falsos compartilhados casualmente, mas faz parte de estratégias organizadas que se aproveitam de incertezas e medos da população. Nesse cenário, é importante destacar que informações sobre a vacina têm sido mais consumidas nesses espaços (Gisondi et al., 2022). Assim, as coberturas vacinais no Brasil e em diversos países tem sido ameaçada pelo fenômeno da hesitação vacinal, definida como um conjunto de atitudes que vão desde a relutância até a recusa da vacina, apesar da disponibilidade dos serviços de vacinação (Massarani et al., 2021). Ainda, os mesmos autores enfatizam que dados recentes revelam um declínio preocupante nas coberturas vacinais no Brasil. Entre 2015 e 2020, houve redução dos indicadores de vários imunobiológicos em crianças menores de um ano. Em 2020, cerca de 3 milhões de crianças não completaram o esquema vacinal. Entre as causas estão fatores estruturais, como a complexidade do calendário vacinal, dificuldades de acesso às salas de vacinação, desabastecimento de imunobiológicos e falhas de comunicação com a população, configurando-se em enormes desafios a serem enfrentados pelos programas de vacinação. Conforme Galhardi et al., (2022), a adesão à vacinação está sujeita ao imaginário e a mecanismos sociais que influenciam, de forma decisiva, a propensão de uma dada comunidade a ser vacinada ou não. Entre os múltiplos fatores que afetam a decisão em vacinar, destacam-se a confiança na importância, segurança e eficácia das vacinas, bem como a compatibilidade com os valores religiosos do indivíduo. Países que têm maiores percentuais de concordância com afirmações de que vacinas são seguras, importantes e eficazes apresentam maior percentual de pessoas que relatam ter vacinado seus filhos. Atualmente, o papel da desinformação que se traduz em hesitação vacinal, tem sido considerado como um aspecto fundamental no processo de não adesão à vacinação. As atitudes antivacina e a hesitação vacinal decorrem de vários fatores, incluindo a circulação de fake news. Estudos em mídias sociais, evidenciaram que discursos antivacinas tendem a contestar a segurança e a apelar à autoridade dos pais contra ingerências das instituições de saúde e que indivíduos com atitude antivacinação tendem a desprezar informações corretas e a valorizar informações que reforcem suas convicções. Assim, as redes antivacinação podem ser de difícil contenção pelas intervenções sanitárias (Massarani et al., 2021). As consequências são graves: ressurgimento de doenças previamente controladas, aumento de hospitalizações e mortes evitáveis, e maior pressão sobre o sistema de saúde. Segundo a Organização Pan Americana da Saúde (2021), as vacinas evitam de 2 a 6 milhões de mortes por ano no mundo, e ampliar a cobertura vacinal poderia salvar mais 1,5 milhão de vidas anualmente. A desinformação e a informação falsa nas redes sociais aumentam a hesitação em relação às vacinas, diminuem as taxas de vacinação e causam mortes evitáveis, especialmente entre certas populações demográficas (Gisondi et al., 2022). Estudiosos recomendam que para enfrentar esse cenário, deve-se incluir a qualificação da comunicação entre profissionais de saúde e população; treinamento específico para lidar com fake news; engajamento de líderes comunitários, religiosos, influenciadores e produção de conteúdos digitais claros, objetivos e baseados em evidências científicas. É necessário, ainda, fortalecer políticas públicas e aprimorar sistemas de informação, reduzindo desigualdades regionais e melhorando o acesso da população às vacinas. É importante que um conjunto de forças distintas, entre cientistas, agentes públicos, profissionais de saúde, de mídia e do jornalismo, promovam o acesso a conteúdo de qualidade sobre a vacinação em redes sociais. Portanto, a contínua aproximação entre a divulgação científica e os diferentes atores sociais, com a integração de saberes acadêmicos e práticos, pode contribuir para suscitar nas redes sociais um debate público de qualidade e confiabilidade acerca da vacinação (Massarani et al., 2021). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: o enfrentamento da desinformação e da hesitação vacinal coopera diretamente para o ODS 3 – Saúde e bem-estar, ao buscar diminuir doenças imunopreveníveis e mortes evitáveis por meio do fortalecimento da vacinação, além de contribuir para o ODS 10 – Redução das desigualdades, ao expor como fatores socioeconômicos, regionais e culturais tornam alguns grupos mais vulneráveis à desinformação, exigindo políticas públicas específicas de equidade. Por fim, alinha-se ao ODS 17 – Parcerias e meios de implementação, ao evidenciar a necessidade de integração entre governo, sociedade civil, profissionais de saúde, instituições científicas e plataformas digitais para intensificar ações para resgatar altas coberturas vacinais, bem como, combater a desinformação. Considerações finais: a queda das coberturas vacinais no Brasil, reflete não somente a hesitação vacinal individual, mas trata-se de um fenômeno complexo que envolve desigualdades sociais, falhas estruturais do sistema de saúde e circulação generalizada de desinformação em saúde. Para superar essas dificuldades, é necessária a adoção de estratégias multifatoriais, combinando informação de qualidade, educação permanente em saúde, participação comunitária e ações de comunicação assertivas. Nesse sentido, os profissionais de saúde têm um papel essencial para levar informação efetiva para a população, através da utilização de tecnologias educativas com maior aderência e de fácil disseminação, incluindo as tecnologias digitais, permitindo a avaliação das estratégias e ações públicas de promoção e prevenção e o alcance destas, sobre as populações que demandam destes serviços, fortalecendo a imunização no sentido de resgatar as altas coberturas vacinais. É fundamental a adoção de campanhas públicas que expliquem os benefícios e a segurança das vacinas, corrigindo desinformação através de evidências científicas. A vacinação é uma conquista coletiva que depende do esforço conjunto de gestores, profissionais, sociedade civil e mídias digitais. Somente assim será possível restaurar a confiança da população no Programa Nacional de Imunizações, garantindo a continuidade dos avanços obtidos nas últimas décadas.

Published

16-01-2026