EDUCAR PARA TRANSFORMAR: REFLEXÕES SOBRE OS DESAFIOS PEDAGÓGICOS DO ENFERMEIRO NA FORMAÇÃO EM SAÚDE

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Resumo

Introdução: o modelo tradicional de ensino, amplamente adotado na formação de profissionais da saúde, fundamenta-se em uma abordagem passiva, na qual o aluno assume um papel receptivo, com ênfase em aulas expositivas presenciais, memorização e reprodução de conteúdo. Esse método caracteriza-se por um ensino verticalizado, centrado no docente, com limitada criticidade e pouca inserção na realidade prática, muitas vezes, destoando das demandas formativas dos trabalhadores da saúde. A docência em nível superior, caracterizada como essencial e valorizada pela sociedade brasileira, é frequentemente assumida de forma intuitiva ou empírica por profissionais de áreas técnicas, como a Enfermagem. Parte-se, equivocadamente, da premissa de que dominar determinado conteúdo técnico-científico é o suficiente para atuar como educador. De acordo com Behrens et al (2022), os saberes docentes devem se basear em uma abordagem complexa e transdisciplinar, que promova a renovação da prática pedagógica. Essa perspectiva exige uma reconfiguração do ser professor, entendido como alguém em constante aprendizado, comprometido com a construção coletiva de sentido e com a transformação social. Ao integrar complexidade, diálogo e ética, o saber docente torna-se mais crítico e inovador. Objetivo: refletir o papel do enfermeiro como educador, problematizando a docência em Enfermagem frente aos desafios da formação tradicional, às demandas das metodologias ativas e à necessidade de integração entre saber técnico-científico, pedagógico e humanista. Metodologia: trata-se de um estudo qualitativo e documental, desenvolvido entre junho e julho de 2025, à luz das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para formação do curso de Graduação em Enfermagem no Brasil (vigentes - 2001, e futuras - já aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação e no aguardo de publicação pelo Ministério da Educação em 2025), para refletir-se acerca da formação pedagógica no âmbito da Enfermagem, visando a identificação de implementação, ou não, de ensino e práticas docentes no referido curso de ensino superior. A análise dos dados se baseou em autores considerados alinhados com a pergunta de pesquisa. Resultados e Discussão: a evolução do conhecimento na área da saúde, bem como as transformações sociais, têm gerado discussões a respeito da necessidade de mudança na formação dos profissionais de Enfermagem, em todos os níveis de formação, esta realidade está declarada em documentos de âmbito internacional que incluem a Organização Mundial de Saúde, a Organização Panamericana de Saúde (OPAS), o Conselho Internacional de Enfermagem, como Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) e Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) (Penha Conceição et al., 2024). Na Enfermagem, esse desafio é ainda maior, pois a formação acadêmica tradicional prioriza o domínio técnico, com pouca ênfase em fundamentos pedagógicos. A atuação educativa do enfermeiro manifesta-se em todos os níveis de atenção à saúde, desde a Atenção Primária, com práticas sensíveis e comunitárias, até os níveis Secundário e Terciário, onde são necessárias estratégias educativas estruturadas. Muitos enfermeiros recorrem à própria vivência como estudantes para exercer a docência, o que, segundo Mizukami (2011), leva à reprodução de métodos tradicionais, autoritários e desatualizados, limitando o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo. Silva, Jacinto e Pereira (2021) apontam que, apesar do domínio técnico dos enfermeiros-docentes, muitos se sentem inseguros quanto às estratégias de ensino e avaliação. A falta de políticas institucionais para formação pedagógica contínua compromete a qualidade do ensino e a satisfação dos profissionais, evidenciando a necessidade de investimentos nessa área para fortalecer o papel do enfermeiro como educador. O enfermeiro, ao assumir o papel de docente, tem uma função essencial na formação de novos profissionais da saúde. Atua em instituições de ensino, como universidades, faculdades e escolas técnicas, sendo responsável pelo planejamento, condução e avaliação de conteúdos teóricos e práticos. Além disso, desempenha papel fundamental na articulação entre ensino, serviço e comunidade, aproximando estudantes dos cenários reais de cuidado por meio de estágios, projetos de extensão e pesquisas aplicadas às necessidades da população, integração que fortalece a qualidade do aprendizado. Diante das transformações na sociedade contemporânea, com a evolução da tecnologia e o volume crescente de informações, as discussões sobre os processos de ensino e aprendizagem na formação dos profissionais de saúde têm se ampliado. As DCN’s para o curso de Enfermagem enfatizam a necessidade de metodologias de ensino-aprendizagem que estimulem a autonomia, a criticidade, a capacidade de resolução de impasses e a competência de aprender a aprender. Neste sentido, as metodologias ativas apresentam potencial como estratégia pedagógica no ensino em saúde (Colares; Oliveira, 2020). A educação superior contemporânea, orientada pela formação por competências, demanda docentes capazes de integrar teoria e prática, mobilizando também aspectos afetivos e éticos dos alunos. Metodologias ativas, como a Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL) e em Projetos (PjBL), favorecem a autonomia, o pensamento crítico e a resolução de problemas reais. Nesse contexto, as emoções influenciam diretamente o engajamento e a aprendizagem, tornando o processo mais significativo e humanizado (Penha Conceição et al., 2024). Ainda, de acordo com os autores recém citados, apesar dos avanços nos programas de formação, como o uso de metodologias ativas, persistem desafios como a falta de apoio institucional, a resistência dos docentes e a desvalorização da docência em comparação com outras áreas. Para superar essas fragilidades é necessário investir em espaços de aprendizagem colaborativa e contínua, apoiados por políticas públicas eficazes, que garantam uma formação reflexiva e qualificada para docentes da saúde. Assim, a questão “quem ensina, sabe ensinar?” desafia a própria estrutura dos cursos de formação em Enfermagem, que ainda carecem de uma integração mais robusta entre os conteúdos técnicos e pedagógicos. Saber ensinar exige mais do que boa disposição ou domínio de conteúdo: exige intencionalidade, metodologia, ética e, acima de tudo, compromisso com a transformação do outro e de si mesmo no processo educativo. A atuação do enfermeiro transcende a dimensão técnica do cuidado e alcança um papel educador que se manifesta em diversas esferas da prática profissional: no ensino formal, na assistência direta, na gestão e na educação em saúde. Contudo, afirmar que “todo enfermeiro é um educador” exige uma análise crítica, pois há uma diferença substancial entre realizar ações educativas pontuais e assumir, de fato, a identidade de educador com integralidade pedagógica. A formação do enfermeiro, historicamente centrada no modelo biomédico e hospitalocêntrico, contribuiu para uma compreensão restrita do processo educativo e acadêmico, sendo, em sua maioria, limitada a transmissão de informações ao paciente ou à capacitação técnica da equipe. No entanto, o paradigma da saúde coletiva e os princípios do Sistema Único de Saúde – SUS demandam uma prática profissional que articule conhecimento técnico-científico com competências pedagógicas e comunicacionais (Colares e Oliveira, 2020). Segundo Silva, Jacinto e Pereira (2021), o papel educador do enfermeiro precisa ser compreendido em três dimensões complementares: a educação em saúde, voltada ao paciente e comunidade; a educação permanente em saúde, voltada aos profissionais de saúde; e à docência acadêmica formal, exercida nos espaços de ensino superior ou técnico. Em todas essas dimensões, o enfermeiro não apenas compartilha saberes, mas também intermedia a construção coletiva do conhecimento, contribuindo para o empoderamento dos sujeitos e para a autonomia no cuidado. Contudo, conforme Behrens et al (2022) é necessário reconhecer que nem todo enfermeiro se sente preparado ou confortável para desempenhar o papel de educador. Isso se deve, muitas vezes, à ausência de formação pedagógica durante a graduação e à falta de reconhecimento institucional das ações educativas.  A construção da identidade docente na Enfermagem exige, portanto, mudanças em políticas institucionais de formação continuada, reformulação da estrutura curricular dos cursos de graduação, constante dedicação à educação continuada nos níveis lato sensu e stricto sensu, buscando aprimorar a formação metodológica e docente. O enfermeiro precisa compreender-se como um educador em todas as instâncias do cuidado, e essa compreensão só se efetiva quando mediada por uma formação crítica, ética e humanista. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: o estudo se relaciona com maior robustez com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 (ODS 3) Saúde e bem-estar, e nele, na meta: aumentar substancialmente o financiamento da saúde e o recrutamento, desenvolvimento e formação, e retenção do pessoal de saúde nos países em desenvolvimento, especialmente nos países menos desenvolvidos e nos pequenos estados insulares em desenvolvimento. O trabalho mostra que a partir de investimentos em ferramentas que melhoram a qualidade do atendimento e profissionais qualificados, ocorre o desenvolvimento dos setores de saúde, já que o atendimento passa a ser organizado, diminuindo gastos. Considerações finais: o presente trabalho reflete criticamente a atuação do enfermeiro como educador, ressaltando que esse papel ultrapassa a simples transmissão de conhecimentos técnicos. A atividade educativa está presente em diversos contextos como o acadêmico, assistencial, institucional e comunitário, exigindo competência técnica, fundamentos pedagógicos, ética e sensibilidade social e cultural. Embora os enfermeiros possuam domínio técnico, a docência demanda habilidades específicas, como conhecimento em teorias da aprendizagem, comunicação, mediação e reflexão. A falta de formação pedagógica adequada leva à reprodução de práticas tradicionais e pouco eficazes. Além disso, obstáculos institucionais e culturais, como estruturas hierarquizadas e falta de incentivo à formação, dificultam a construção de uma cultura de aprendizado contínuo. A afirmação de que "todo enfermeiro é um educador" deve ser problematizada. É preciso incorporar uma identidade pedagógica comprometida com a autonomia e criticidade dos sujeitos.

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Publicado

16-01-2026