MONITORIA EM AÇÃO: ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS INOVADORAS E TRANSFORMAÇÕES DO PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM
Resumo
Introdução: a formação de enfermeiros e enfermeiras exige articulação entre teoria, prática e gestão, contemplando competências clínicas, organizacionais e pedagógicas alinhadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse processo, o aprendizado de modelos de gestão, como os de enfoque cibernético, matemático, de contingência e de desenvolvimento organizacional, bem como o estudo de teorias de Enfermagem e suas bases conceituais, constitui-se como alicerce para o desenvolvimento do raciocínio clínico, da liderança e da capacidade crítica. Entretanto, observa-se que tais conteúdos nem sempre recebem atenção sistemática nas fases iniciais da graduação, o que reforça a importância da monitoria acadêmica como estratégia de mediação e apoio para o processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, a prática da monitoria possibilita aprofundar a compreensão desses referenciais, valorizar metodologias ativas e oferecer espaços de formação ampliada, contribuindo para a consolidação de práticas inovadoras no ensino de Enfermagem, bem como estimular um espaço coletivo de aprendizado. Objetivo: relatar a experiência de monitoria acadêmica desenvolvida em componentes curriculares de um curso de graduação em Enfermagem, destacando as estratégias pedagógicas aplicadas e seus respectivos impactos para monitores e discentes. Metodologia: trata-se de um relato de experiência pedagógica envolvendo três estudantes monitores (uma bolsista e dois voluntários), supervisionados por três professoras (uma docente coordenadora e duas docentes colaboradoras), com a participação de quarenta e quatro estudantes. O suporte de monitoria ocorreu nos componentes curriculares de “Introdução à Gestão e Gerenciamento de Enfermagem nos Serviços de Saúde”, “Fundamentos para o Cuidado A” e “Fundamentos para o Cuidado B”, todos vinculados ao curso de graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Chapecó, durante o segundo semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2025. As atividades ocorreram de forma presencial e remota, por meio de encontros síncronos e atendimento individual e coletivo, em diversos dias e turnos da semana, a depender das ações programáticas das aulas desenvolvidas e necessidades dos estudantes. As ações contemplaram oficinas pedagógicas sobre ferramentas de gestão, com destaque para o uso do 5W2H, a qual é uma ferramenta de gestão e planejamento que utiliza sete perguntas: What (o quê), Why (por quê), Who (quem), When (quando), Where (onde), How (como) e How much (quanto); mentorias de desenvolvimento para um seminário de Teorias de Administração aplicadas ao contexto da saúde; monitorias para o desenvolvimento do Processo de Enfermagem balizados pela Resolução número 736 de 2024, do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN, 2024), com o uso dos Sistemas de Linguagem Padronizadas, como North American Nurses Diagnosis Association (NANDA-I), Nursing Outcomes Classification (NOC) e Nursing Interventions Classification (NIC) (Butcher et al., 2020; Moorhead; Johnson; Swanson, 2024); rodas de conversa voltadas às práticas culturais de cuidado, valorizando a pluralidade sociocultural do grupo; planejamento e aplicação de simulações clínicas em laboratórios de semiologia, permitindo uma sutil inserção dos estudantes em ambientes de saúde simulados; aprimoração de técnicas básicas de biossegurança, tais como lavagem de mãos, calçamento de luvas, paramentação e manuseios de materiais estéreis; mentorias e simulações de semiotécnicas para a realização de exame físico por sistemas (neurológico, cardíaco, pulmonar, endócrino, linfático, osteomusculares, entre outros); além da disponibilização de horários extracurriculares para grupos de estudos sobre modelos de gestão, especialmente os de enfoque cibernético, matemático, de contingência e de desenvolvimento organizacional. Destacou-se, ainda, a adaptação dos conteúdos teóricos à realidade sociocultural dos estudantes indígenas, procurando otimizar e aprimorar o processo de ensino-aprendizagem desses. A fundamentação teórica baseou-se nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) da Enfermagem (Brasil, 2001), nas principais Teorias de Enfermagem – especialmente a Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Wanda Horta e a Teoria do Cuidado Transcultural de Madeleine Leininger, além da abordagem problematizadora de Paulo Freire (1996). Resultados e discussão: a monitoria se mostrou espaço de aprendizado colaborativo e caráter coletivo, onde a diversidade de estratégias pedagógicas ampliou a compreensão dos conteúdos e favoreceu o protagonismo estudantil. As oficinas sobre ferramentas de gestão, principalmente com o uso do método 5W2H, estimularam o pensamento crítico-organizacional e o planejamento de processos em saúde. As rodas de conversa sobre práticas culturais de cuidado possibilitaram a integração entre saberes acadêmicos e saberes populares, fortalecendo a valorização da diversidade étnico-cultural e o cuidado em saúde. As simulações clínicas em laboratório favoreceram a consolidação de habilidades práticas essenciais à semiologia, aproximando teoria e prática em um ambiente seguro e inserção controlada em ambientes simulados, estimulando a criticidade quanto aos aspectos organizacionais. Já os grupos de estudos extracurriculares permitiram o aprofundamento em modelos de gestão, estimulando autonomia e interesse pela pesquisa. A aproximação dos conteúdos à cosmovisão de estudantes indígenas fortaleceu a inclusão, equidade e desenvolvimento crítico-reflexivo necessária na formação. Para os monitores, a experiência proporcionou o desenvolvimento de competências pedagógicas, comunicacionais e de liderança, bem como o despertar para a docência. Adicionalmente, conforme mencionado, procurava-se estabelecer um espaço de caráter coletivo, portanto, em diversos momentos foi possível construir novos aprendizados com base nas aulas recentes dos monitorados. Para os discentes, representou suporte essencial à aprendizagem, maior segurança prática e valorização da interdisciplinaridade. Esses achados apresentam consonância com a literatura, que aponta a monitoria como prática capaz de promover aprendizagem ativa, integração teoria-prática e desenvolvimento crítico-reflexivo (Freire, 1996; Butcher et al., 2020). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: a experiência dialoga diretamente com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 - Saúde e Bem-Estar, ao promover formação de profissionais mais qualificados para garantir assistência segura e integral, e com o ODS 4 - Educação de Qualidade, ao estimular metodologias participativas, inclusivas e inovadoras, capazes de promover equidade e valorização da diversidade sociocultural. Considerações finais: a monitoria acadêmica desenvolvida constitui uma estratégia de prática pedagógica potencialmente enriquecedora e inovadora, que favorece a formação integral dos estudantes, estimula o protagonismo discente e fortalece a docência. As múltiplas estratégias aplicadas possibilitaram integrar teoria, prática e gestão de forma crítica, dinâmica e contextualizada, alinhadas às necessidades do SUS e aos princípios da Agenda 2030. Como limitação, aponta-se a ausência de avaliação quantitativa do impacto da monitoria no desempenho acadêmico, sugerindo que estudos futuros explorem esse aspecto. Ainda assim, recomenda-se a continuidade e expansão dessa prática, valorizando a monitoria como espaço formativo capaz de articular saberes, promover equidade e preparar futuros enfermeiros e enfermeiras para os desafios contemporâneos do cuidado em saúde.
