RELATO DE EXPERIÊNCIA TEÓRICO-PRÁTICA EM CONSULTA DE ENFERMAGEM: SAÚDE DA MULHER
Resumo
Introdução: A consulta de enfermagem voltada à saúde da mulher constitui uma prática fundamental na Atenção Primária à Saúde (APS), sendo um espaço privilegiado para o cuidado integral, acolhimento e prevenção de agravos. A atuação do enfermeiro nesse contexto transcende o aspecto técnico, envolvendo escuta qualificada, educação em saúde e fortalecimento da autonomia feminina. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) orienta que o cuidado à mulher deve ser pautado na integralidade, considerando suas especificidades biológicas, sociais e culturais (Brasil, 2020). Este relato descreve uma experiência teórico-prática vivenciada em unidades básicas de saúde, durante estágio curricular supervisionado, com foco na promoção da saúde feminina e no fortalecimento da autonomia das usuárias, destacando aspectos que possibilitam compreender os desafios e potencialidades presentes no cotidiano da assistência. Objetivo: Relatar a experiência de atuação em consultas de enfermagem voltadas à saúde da mulher, destacando aspectos clínicos, educativos e humanizados da prática assistencial, com vistas à promoção da saúde, prevenção de agravos e fortalecimento da autonomia das usuárias. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência desenvolvido durante o estágio curricular supervisionado em unidades de saúde da família, vinculado ao curso de graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul, campus de Chapecó - SC. As atividades foram realizadas sob supervisão docente e acompanhamento das equipes de saúde da Unidade Alta Floresta, bairro Efapi e Rede Feminina do combate ao câncer, do município de Chapecó, respeitando os protocolos clínicos e diretrizes da APS. As ações incluíram: coleta de exame citopatológico do colo do útero; avaliação ginecológica básica; orientações sobre planejamento familiar e métodos contraceptivos; prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs); escuta qualificada e acolhimento às demandas espontâneas. A abordagem adotada foi pautada nos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS): integralidade, equidade, universalidade e humanização. Resultados e Discussão: A experiência permitiu aplicar os conhecimentos teóricos adquiridos ao longo da formação acadêmica em situações reais de cuidado, favorecendo o desenvolvimento de habilidades clínicas, comunicacionais e éticas. Durante as consultas, observou-se que muitas mulheres apresentavam dúvidas sobre seu corpo, ciclo menstrual, métodos contraceptivos e sinais de alerta para doenças ginecológicas, sugerindo lacunas na educação em saúde e na comunicação entre profissionais e usuárias. A escuta ativa e o acolhimento mostraram-se fundamentais para estabelecer vínculo e confiança, permitindo que as mulheres se sentissem seguras para compartilhar suas inquietações e vivências. A atuação do enfermeiro, nesse contexto, revelou-se estratégica para a promoção da saúde, identificação precoce de agravos e encaminhamento adequado aos demais níveis de atenção. Nesse sentido, é importante destacar que a consulta de enfermagem é uma prática clínica integrante da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), sendo uma atividade privativa do enfermeiro e respaldada por diretrizes do Conselho Federal de Enfermagem. Essa prática envolve etapas como acolhimento, coleta de dados, diagnóstico de enfermagem, planejamento, implementação e avaliação, permitindo a construção de um plano terapêutico singular e centrado nas necessidades da mulher. O COFEN tem investido na qualificação da atuação clínica do enfermeiro, com orientações que abrangem diferentes linhas de cuidado e reforçam a importância da autonomia profissional, da resolutividade do cuidado e da ampliação das competências clínicas (Conselho Federal de Enfermagem, 2023a). Essas iniciativas destacam a consulta como um espaço técnico, ético e relacional, que exige habilidades de comunicação, escuta ativa e empatia, além de domínio científico e capacidade de tomada de decisão (Conselho Federal de Enfermagem, 2023b). A consulta de enfermagem mostrou-se de grande valia para o autoconhecimento feminino, ao oferecer informações claras e acessíveis sobre o funcionamento do corpo, direitos sexuais e reprodutivos e opções de cuidado à saúde da mulher. A abordagem educativa contribuiu para a autonomia das mulheres na tomada de decisões sobre sua saúde, fortalecendo o protagonismo feminino no cuidado de si. Segundo Ayres (2004), o cuidado em saúde deve considerar os sujeitos em sua singularidade, respeitando seus valores, crenças e contextos de vida. Nesse sentido, a prática assistencial vivenciada reafirma a importância de uma enfermagem comprometida com a escuta sensível, o diálogo e a construção compartilhada do cuidado. A experiência também evidenciou desafios, como a sobrecarga das equipes, limitações estruturais das unidades e dificuldades de acesso a exames especializados. Tais questões apontam para a necessidade de investimentos na qualificação da APS e na valorização dos profissionais de enfermagem como agentes fundamentais na promoção da saúde da mulher. Contribuições aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: A vivência relatada contribui diretamente para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente: ODS 3 – Saúde e Bem-Estar: ao promover acesso à saúde de qualidade, prevenção de doenças e educação em saúde, a consulta de enfermagem fortalece a atenção básica e reduz desigualdades no cuidado à mulher (ONU Brasil, 2023). ODS 5 – Igualdade de Gênero: a prática assistencial voltada à saúde da mulher favorece o empoderamento feminino, o acesso à informação e o exercício da autonomia sobre o próprio corpo, contribuindo para a equidade de gênero e o enfrentamento da violência (Brasil, 2020). Essas contribuições reforçam o papel da enfermagem como profissão comprometida com os direitos humanos, a justiça social e a construção de uma sociedade mais saudável e igualitária. Considerações Finais: A prática teórico-assistencial em saúde da mulher revelou-se uma ferramenta potente para a formação crítica, reflexiva e humanizada dos futuros profissionais de enfermagem. O relato evidencia a importância da consulta de enfermagem como espaço de cuidado integral, escuta qualificada e transformação social. Ao vivenciar a realidade das unidades básicas de saúde, foi possível compreender a complexidade do cuidado à mulher e a relevância da atuação do enfermeiro na promoção da saúde, prevenção de agravos e fortalecimento da autonomia feminina. A experiência reafirma o compromisso ético, técnico e político da enfermagem com a construção de um cuidado sensível, inclusivo e transformador.
