RELATO DE EXPERIÊNCIA: IMPLEMENTAÇÃO DO SINO DA VITÓRIA COMO PRÁTICA HUMANIZADA NO SUS
Resumo
Introdução: O tratamento oncológico, marcado por sua natureza prolongada e complexa, exige uma abordagem que vá além do aspecto clínico, integrando o cuidado psicossocial e a dignidade humana. No Brasil, a Política Nacional de Humanização (PNH), lançada em 2003, atua como um pilar fundamental do Sistema Único de Saúde (SUS) para promover uma atenção mais acolhedora e integral. A PNH busca transformar as relações e processos de trabalho, incentivando o acolhimento, a clínica ampliada, a valorização dos trabalhadores e a participação cidadã. Ao invés de uma mera política vertical, ela se propõe como um método para incluir a diferença nos processos de gestão e cuidado, reconhecendo cada pessoa como cidadã de direitos (Brasil, 2004). Em alinhamento com essa diretriz, o ritual do “sino da vitória” emerge como uma iniciativa que materializa os princípios da humanização. A prática, relatada em estudos internacionais e em relatos de experiência, descreve a tradição do “ring the bell” como forma simbólica de marcar a conclusão de um ciclo de tratamento e celebrar a vitória do paciente; tal ritual tem sido identificado e analisado em literatura de enfermagem e oncologia como prática com impacto emocional tanto para pacientes quanto para familiares e equipes (Bridarolli; Spiers; Pituskin, 2020; Williams et al., 2019). No Brasil, o rito tem sido adotado em centros de referência e serviços de oncologia como estratégia simbólica de acolhimento. O relato de experiência que apresentamos constitui um exemplo notável dessa prática. A instalação do sino na unidade de oncologia do Hospital Regional do Oeste (HRO), em Chapecó (SC), foi uma iniciativa de estudantes do curso de Enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). A ação foi concebida como parte do Estágio Curricular Supervisionado, com apoio financeiro do Projeto Luzes UFFS, e a coordenação do curso de Enfermagem. Essa colaboração entre a academia, o serviço de saúde e o fomento público demonstra como a humanização pode ser construída coletivamente, transformando um espaço de cuidado e reforçando a relevância do rito como potencial política pública para a gestão em saúde. Objetivo: Analisar o ritual do sino como uma prática de humanização do cuidado oncológico, a partir do relato de experiência de sua instalação por estudantes de enfermagem. O trabalho tem como propósito identificar os impactos terapêuticos e psicossociais do ritual sobre pacientes e equipes, e propor sua adoção como uma política pública de saúde para o Sistema Único de Saúde (SUS), alinhada aos princípios da integralidade e do acolhimento. Metodologia: Este trabalho se configura como um relato de experiência que descreve a implementação de uma ação de humanização em um serviço de oncologia. A iniciativa, que consistiu na instalação de um sino comemorativo para pacientes que finalizam a quimioterapia, foi concebida e executada por acadêmicos do curso de em Enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Chapecó. O projeto foi desenvolvido na disciplina de Estágio Curricular Supervisionado I e implementado na Unidade de Internação Oncológica do Hospital Regional do Oeste (HRO), em Chapecó (SC), com a instalação para o início de julho de 2025. A experiência foi operacionalizada em um processo sistemático de seis etapas, que buscou garantir a eficácia e o alinhamento institucional da iniciativa: (1) elaboração da proposta; (2) aprovação institucional; (3) aquisição e preparação dos materiais (sino de bronze com peso aproximado entre 1–1,5 kg e adesivo explicativo); (4) instalação física pela equipe de manutenção do HRO; (5) lançamento simbólico com participação de equipe e pacientes; e (6) comunicação, sensibilização e acompanhamento por observação e coleta de feedbacks espontâneos da equipe. Por se tratar de relato de experiência não interventiva e sem coleta de dados de pesquisa com seres humanos, o projeto não demandou submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme normas aplicáveis a esse tipo de trabalho. Resultados e discussão: A instalação do sino, idealizada por acadêmicos de Enfermagem da UFFS, revelou-se uma intervenção de humanização de forte impacto simbólico e terapêutico. O ato de tocar o sino transformou o término de um ciclo de tratamento exaustivo em momento de celebração e alívio, funcionando como rito de passagem percebido positivamente por pacientes e cuidadores em estudos qualitativos sobre a tradição (Bridarolli; Spiers; Pituskin, 2020). Entretanto, a literatura aponta que as reações emocionais ao ritual podem ser heterogêneas: enquanto muitos pacientes relatam benefícios emocionais e aumento do sentimento de coerência, outros estudos indicam que a intensificação emocional do evento pode, em alguns casos, reativar memórias negativas do tratamento, o que requer implementação sensível e centrada nas preferências do paciente (Williams et al., 2019). O impacto na equipe multiprofissional também foi relevante: a integração entre o cuidado técnico e a dimensão humana fortalece vínculos e contribui para maior reconhecimento do valor do trabalho. Considerando o risco elevado de esgotamento entre profissionais que atuam em oncologia, práticas humanizadoras que promovem acolhimento e relações de trabalho positivas podem colaborar na redução do burnout e na melhora do ambiente laboral (Paiva et al., 2021). Além disso, a iniciativa mostrou ser viável com baixo custo e alta aceitabilidade institucional, configurando-se como modelo replicável para outros serviços do SUS quando articulada entre a academia e o serviço. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O presente trabalho contribui para o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), especialmente no que tange à promoção do bem-estar psicossocial de pacientes oncológicos e seus familiares. Ao oferecer uma intervenção simbólica de baixo custo voltada à melhora da qualidade de vida e da autoestima, a iniciativa dialoga com metas relacionadas à saúde mental. Ademais, fortalece o ODS 17 (Parcerias) ao exemplificar a cooperação entre a UFFS, o HRO e o Projeto Luzes UFFS como mecanismo de implementação de práticas de cuidado integral. Considerações finais: O relato demonstrou que o ritual do sino é uma ferramenta eficaz de humanização do cuidado oncológico, com impactos terapêuticos e psicossociais relevantes para pacientes, familiares e equipes. Entretanto, diante da variabilidade das respostas emocionais observadas na literatura, recomenda-se que futuras pesquisas utilizem desenhos quantitativos e longitudinais para mensurar efeitos a longo prazo e que protocolos institucionais sejam desenvolvidos para orientar a implementação sensível e adaptada a cada contexto. Recomenda-se ainda que as instituições do SUS que adotarem a prática elaborem diretrizes de uso, orientação à equipe e mecanismos de acompanhamento e avaliação. A experiência relatada evidencia o potencial de práticas simbólicas e humanizadoras, de baixo custo e elevado impacto psicossocial, para integrarem políticas públicas de saúde voltadas à oncologia no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). O ritual do sino, ao articular saberes acadêmicos, participação social e cuidado multiprofissional, mostra-se como uma estratégia inovadora, replicável e sustentável, capaz de fortalecer os princípios da integralidade e do acolhimento previstos na Política Nacional de Humanização (PNH). Sua implementação não apenas contribui para a valorização da dimensão subjetiva do cuidado, mas também reforça a importância da integração ensino-serviço-comunidade como eixo estruturante para a sustentabilidade do SUS. Nesse sentido, recomenda-se que experiências como esta inspirem diretrizes institucionais e políticas públicas mais amplas, orientadas à promoção da dignidade humana e à valorização dos vínculos no processo terapêutico.
