OFICINA DE LETRAMENTO MIDIÁTICO EM SAÚDE NO ENFRENTAMENTO À DESINFORMAÇÃO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

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Resumo

Introdução: O bônus traz ônus consigo. Essa contradição está na essência da modernidade. Weber, em 1904, formulou a teoria posteriormente traduzida e popularizada como “gaiola de ferro”, que demonstra o quanto a racionalização e o capitalismo trouxeram ordem, previsibilidade e eficiência à sociedade, mas também aprisionaram o indivíduo sob estruturas impessoais e burocráticas, em um sistema que consome autonomia e liberdade (Querido, 2015). De modo similar, os avanços sociais, como a redução do analfabetismo, a popularização da imprensa e o advento da tecnologia aqui representado pelo avanço e popularização em massa das redes sociais, ampliaram o acesso à informação, mas isso também estimulou a disseminação de notícias falsas (fake news ou misinformation) ou semifalsas (malinformation) (Vasconcellos-Silva, 2023). Desta forma, o progresso educacional e midiático tornou-se terreno fértil ao fenômeno da desinformação, visto que a disseminação de informações incorretas ou descontextualizadas é histórica e a mentira não é um advento da modernidade (Vasconcellos-Silva, 2023). No entanto, se a desinformação já representava um risco, a internet a elevou a uma nova escala, com a velocidade de circulação de conteúdos e o alcance global característicos da web, transformaram-na em emergência de saúde pública, capaz de prejudicar gravemente diversas esferas sociais, incluindo processos coletivos de saúde e bem-estar. Diante deste contexto de facilidade de disseminação da desinformação em saúde, políticas e estratégias são indispensáveis para o alcance do letramento midiático e em saúde, de modo que os indivíduos não sejam receptores passivos de informações, mas possam interpretá-las criticamente e reconhecer sua veracidade ou não. O projeto Comunicar para Cuidar: Oficinas de Letramento em Saúde para o Enfrentamento à Desinformação em Saúde, desenvolvido pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) em parceria com outras instituições, busca fortalecer o papel de agentes comunitários de saúde, educadores, famílias e estudantes como protagonistas no enfrentamento da desinformação, por meio de oficinas participativas fundamentadas na Educação Popular em Saúde. Objetivo: Relatar a experiência vivenciada no desenvolvimento de uma oficina com adolescentes no contexto escolar, como estratégia de formação em letramento midiático em saúde. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência decorrente de uma oficina desenvolvida em parceria com o projeto Saúde em Ação, a Liga Acadêmica de Saúde Coletiva, o Laboratório ECOS/UnB, a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas e Gestão em Saúde (PPGS) da UFFS e o Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFFS. A oficina, intitulada “Os perigos da (des)informação”, foi realizada em 17 de julho de 2025 nas dependências da Escola Básica Municipal (EBM) Jardim do Lago, no município de Chapecó/SC. A demanda surgiu da própria instituição de educação básica, que contatou uma docente do curso de graduação em Enfermagem da UFFS, em busca de parceria para a realização de uma atividade de sensibilização e conscientização sobre os temas: fontes seguras de informação, consequências das fake news, riscos do compartilhamento irresponsável, influência digital na indução ao consumo de produtos desnecessários, cuidados no uso de inteligências artificiais e o papel da família na orientação e acompanhamento de crianças e adolescentes. A atividade então foi executada por uma acadêmica de medicina, duas mestrandas em enfermagem e duas docentes do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFFS, que planejaram a oficina em dois momentos principais: uma primeira parte expositiva e uma atividade prática para aplicação dos conhecimentos adquiridos, ambas com duração de cerca de 30 minutos. A oficina, que contou com a participação de aproximadamente 120 estudantes entre 11 e 12 anos de idade, indicados pela escola, quatro professores e cinco pais/responsáveis, além de profissionais da gerência da instituição, foi mediada pela acadêmica de medicina e uma das mestrandas. A parte expositiva abordou os temas sugeridos de forma lúdica, com o uso de slides previamente organizados pelas mediadoras na plataforma canva, que foram projetados aos participantes. No início da oficina, utilizou-se o conto de Jorge Luis Borges “Funes, o Memorioso”, que conta a história de um garoto que sofre um acidente, no qual bate a cabeça e então passa a apresentar uma memória prodigiosa, mas que não consegue articulá-la com sua pouca inteligência, não consegue processar as informações ou pensar a respeito delas, para estabelecer analogias reflexivas. Foram também abordados conceitos importantes, como fake news e desinformação, exemplificados com prints e vídeos, com dicas sobre como identificar um site falso e golpes. Foram também apresentadas algumas fontes confiáveis para buscar informações. A segunda parte da oficina, atividade prática, se desenvolveu a partir de oito reportagens/notícias, cinco verdadeiras e três falsas. Os estudantes foram separados em 10 grupos e as notícias impressas foram distribuídas, alguns grupos com impressões repetidas a fim de comparar respostas. O intento foi que o grupo as analisasse e chegasse em um consenso sobre a veracidade ou não das notícias, justificando sua escolha. Resultados e discussão: o conto possibilitou uma analogia com o consumo de informações, sugerindo que não se deve consumi-las sem processá-las e pensar sobre elas, bem como é preciso cautela ao aplicá-las ou repassá-las. A participação ativa, principalmente dos estudantes, foi evidente na primeira etapa da atividade. Embora houvesse conversas paralelas no ambiente, as contribuições dos estudantes traziam luz às indagações e provocações das mediadoras, demonstrando a atenção dispensada ao conteúdo abordado. Na atividade prática, após debate e consenso nos pequenos grupos, as respostas foram apresentadas ao grande grupo, gerando um debate coletivo com o intuito de promover a aprendizagem crítica. Nas respostas e justificativas da atividade prática foi possível observar boa apreensão dos conteúdos através de um maior domínio crítico do tema ao final da atividade, expressado através das respostas dos grupos na parte prática. Mesmo quando não estavam corretas, as justificativas sinalizavam os sinais intencionais de caráter confuso, propiciando uma construção coletiva do conhecimento. Segundo Nagumo, Teles e Silva (2022), o combate à desinformação na escola passa, para além das questões estruturais como o alfabetismo funcional, pela formação docente para o entendimento da dimensão do problema. Após o desenvolvimento da atividade, as mediadoras receberam feedback verbal muito positivo dos docentes e da gerência da escola, que sinalizaram a aprendizagem de novos tópicos e conceitos sobre o tema, o que seria um incentivo para a abordagem durante as aulas. É de suma importância compreender o fenômeno da desinformação como algo complexo, potencializado pela cultura digital atual, um alerta ao capitalismo da vigilância, uma nova ordem econômica preocupada mais com a extração de dados do que com a avaliação da honestidade do conteúdo disseminado nas redes (Nagumo; Teles; Silva, 2022). A iniciativa da escola em buscar uma atividade educativa sobre o tema alinha-se com o que está proposto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), visto que há uma habilidade no Ensino Médio que trabalha especificamente a checagem de notícias falsas no campo jornalístico a partir da adoção de procedimentos básicos de checagem de veracidade de informação (Brasil, 2018). Além disso, essa foi uma ótima oportunidade de integração de universidade, escola e comunidade e da promoção da intersetorialidade entre educação e saúde, que se apresentaram benéficas e satisfatórias no desenvolvimento da oficina. Ademais, a ótima receptividade da escola e a interação com os adolescentes e pais/responsáveis contribuiu para a formação acadêmica das mediadoras, pois possibilitou praticar habilidades como: planejamento, gestão de tempo, tradução do conhecimento, didática, reforço no positivo, proatividade e comunicação em saúde. Houve ainda, ao final da atividade, o recebimento de um mimo dado pela gerência da escola, gesto simples que demonstrou gratidão e evidenciou o potencial da integração entre a universidade e a comunidade para ambas as partes. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: o presente estudo está principalmente alinhado ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 16 - Paz, Justiça e Instituições Eficazes, sendo melhor especificado à meta 16.10 que pretende assegurar o acesso público à informação e proteger as liberdades fundamentais, em conformidade com a legislação nacional e os acordos internacionais. A habilidade de identificar a veracidade das informações fornecidas é fundamental para garantir a liberdade fundamental dos indivíduos, visto que, a desinformação em saúde pode prejudicar a saúde coletiva e impactar o bem-estar de todos. Este fato evidencia a relação deste trabalho também com o ODS 3- Saúde e bem-estar, na meta 3.d: Reforçar a capacidade de todos os países, particularmente os países em desenvolvimento, para o alerta precoce, redução de riscos e gerenciamento de riscos nacionais e globais de saúde, tratando-se da desinformação como um risco à saúde coletiva. E ainda ao ODS 4- Educação de qualidade, à meta 4.1: Até 2030, garantir que todas as meninas e meninos completem o ensino primário e secundário livre, equitativo e de qualidade, que conduza a resultados de aprendizagem relevantes e eficazes, por se tratar de uma habilidade útil e necessária no cotidiano dos estudantes. Considerações finais: As estratégias lúdicas adotadas na oficina pode ter contribuído para o desenvolvimento de diversas habilidades academicamente relevantes, como o engajamento, o estímulo ao pensamento reflexivo e, além disso, podem contribuir para que estudantes, professores e pais reconheçam a importância da checagem de informações na internet e do papel ativo das famílias no acompanhamento digital. O início do desenvolvimento de competências previstas pela BNCC, a integração entre universidade, escola e comunidade e a intersetorialidade foram oportunizadas e demonstraram boa efetividade. A experiência da oficina evidencia o potencial do projeto Comunicar para Cuidar como estratégia de promoção do letramento crítico em saúde, fortalecendo a cidadania e a autonomia informacional em contextos escolares e comunitários. A ação reafirma a importância da curricularização da extensão universitária e do trabalho interinstitucional, para obtenção de resultados positivos e duradouros.

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Publicado

16-01-2026

Edição

Seção

Desinformação, informação e tradução do conhecimento em saúde