AÇÃO EXTENSIONISTA VISANDO A SAÚDE DO TRABALHADOR DO SISTEMA PRISIONAL: RELATO DE EXPERIÊNCIA

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Resumo

Introdução: O Sistema Único de Saúde (SUS), criado pela Constituição Federal de 1988, busca atender às necessidades de saúde de toda a população, incluindo a promoção, prevenção, tratamento e reabilitação da saúde mental dos trabalhadores. Suas ações são orientadas pelos princípios da equidade, universalidade e integralidade, e por diretrizes como regionalização, hierarquização, resolutividade, descentralização e participação social. Quando o assunto é saúde mental do trabalhador, o SUS reconhece os impactos que as condições de trabalho têm sobre o bem-estar psicológico. Ambientes estressantes, jornadas extensas, exposição a conflitos e violência, além da pressão psicológica constante, são fatores de risco importantes para o adoecimento mental. As ações nessa área, integradas à Atenção Primária e aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), priorizam a identificação precoce dos problemas, o acompanhamento multiprofissional e o apoio no retorno às atividades sociais e profissionais, fundamentais para garantir o cuidado integral. Além destas, a vigilância epidemiológica é uma ferramenta essencial para a saúde mental dos trabalhadores, em função de acompanhar e analisar os casos relacionados ao trabalho, incluindo os transtornos mentais. Assim, é possível identificar surtos de adoecimento, mapear fatores de risco e planejar ações preventivas. Com isso, contribui-se para a promoção de ambientes laborais mais saudáveis e para a prevenção de agravos mentais. O ambiente de trabalho nas prisões brasileiras, tanto como as condições de trabalho - materiais e infraestruturais, possuem ligação direta com o surgimento de sofrimento visto que condições de trabalho ruins trazem sobrecarga, medo e insatisfação a esses profissionais (Cadidé et al., 2022).  A tensão constante, o contato direto com a violência, a rotina rígida e a falta de apoio fazem com que o sofrimento psicológico dos funcionários de estresse, ansiedade, depressão e insônia, sejam problemas reais, mas pouco visíveis e discutidos nas políticas públicas. O bem-estar do empregado se destaca como uma área crucial da saúde pública, expandindo a visão para abranger os aspectos psicológicos e sociais do trabalho, e não apenas a falta de enfermidades. A Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT) sustenta que os locais de trabalho devem ser vistos como elementos que influenciam o processo de saúde e doença, tornando essencial a criação de atividades de monitoramento, incentivo e atenção completa. Particularmente, os funcionários de presídios formam um grupo que lida diariamente com fatores de estresse importantes, como isolamento, perigo contínuo, desvalorização no trabalho e interações pessoais instáveis. No entanto, faltam programas e medidas de cuidado eficazes direcionadas a essa população, o que enfatiza a importância de projetos colaborativos e originais (Woodall, 2024). Objetivo: Descrever a vivência de acadêmicos de Enfermagem em uma atividade extensionista com foco na saúde mental de policiais penais e demais servidores do sistema prisional. Método: O presente trabalho tem como objetivo relatar a experiência de acadêmicos do curso de Enfermagem no planejamento e na implementação de uma prática voltada à saúde mental de trabalhadores penitenciários, no âmbito da vigilância epidemiológica. A atividade foi desenvolvida como parte do componente curricular “A Enfermagem no Contexto da Vigilância em Saúde Coletiva”, do curso de graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus Chapecó. A intervenção ocorreu no Complexo Penitenciário de Chapecó, Santa Catarina, por meio do Programa de Apoio ao Servidor (PAS). Anterior a execução da ação extensionista, houve uma etapa de planejamento em sala de aula, no qual foi desenvolvido um check list para auxiliar no primeiro contato ao serviço,  que se deu por uma visita técnica. Durante a visita ao local, os estudantes tinham como propósito observar aspectos ambientais e laborais que pudessem impactar negativamente a saúde física ou mental dos trabalhadores e, a partir dessas observações, propor estratégias voltadas à prevenção de agravos e à promoção da saúde no contexto laboral. Considerando a sobrecarga mental identificada nesse cenário, a ação proposta a ser executada na ação extensionista, se deu por meio da produção e disseminação de um folder temático. Por meio do QR Code inserido no material, os trabalhadores eram estimulados à autorreflexão, com o auxílio de frases afirmativas e interrogativas. O conteúdo também incluía o acesso a uma playlist musical elaborada na plataforma Spotify, como recurso complementar voltado ao cuidado emocional. A iniciativa buscou contribuir para a promoção da saúde mental e a prevenção de possíveis agravos decorrentes das condições laborais vivenciadas pelos profissionais do sistema penitenciário. Resultado e Discussão: A experiência oportunizou aos acadêmicos uma aproximação direta com a realidade vivenciada pelos trabalhadores do sistema prisional. Durante a etapa inicial, a observação atenta do ambiente laboral e o diálogo aberto com os diversos profissionais atuantes nesse contexto - incluindo servidores do setor administrativo, policiais penais, profissionais da saúde e outros funcionários - foram fundamentais para compreender os principais desafios enfrentados por essas trabalhadores, especialmente no que se refere à sua saúde. Dentre as problemáticas identificadas, evidenciou-se que a saúde mental é a dimensão mais afetada, impactada principalmente pelo estresse, pela pressão, pelo cansaço físico e emocional, pela sobrecarga do ambiente corporativo e pela precariedade de colaboradores qualificados para atuar dentro do sistema carcerário. Essa percepção compartilhada pelos próprios trabalhadores foi decisiva para nortear o foco da intervenção. A ação consistiu na elaboração e apresentação de um folder informativo intitulado "Você tem 1 minuto para cuidar de você?". O material visava a promoção do autocuidado e da reflexão interna, contendo um QR Code que direcionava os profissionais a um conteúdo digital. Esse conteúdo era composto por perguntas de autorreflexão ("Pense quais são seus valores, seus sonhos, seus hobbies!", "Você tem sido verdadeiro consigo mesmo?", "Você reserva algum tempo para cuidar de você?"), mensagens motivacionais ("Grandes mudanças começam com pequenos passos!", "o seu trabalho tem valor e faz a diferença!") e uma playlist musical com o propósito de auxiliar no relaxamento e descompressão da rotina, sob o título "Um bom lugar para estar". A estratégia de intervenção foi implementada através de visitas diretas às salas de trabalho, onde o grupo realizou uma breve explicação sobre o material e a importância da manutenção da saúde mental, enfatizando o valor da vida pessoal e das escolhas individuais para o bem-estar futuro. A recepção por parte dos trabalhadores foi majoritariamente positiva. Eles demonstraram concordância com o tema abordado, reconhecendo a saúde mental como um fator crítico em seu ambiente de trabalho. Observou-se participação ativa, interesse e curiosidade durante as apresentações, com alguns profissionais acessando o QR Code e a playlist no mesmo momento, validando a abordagem interativa da ferramenta digital. A intervenção foi bem recebida e aprovada pelos profissionais, confirmando a pertinência da temática e a eficácia da abordagem. O feedback imediato, colhido durante as apresentações, foi o principal indicador do impacto da intervenção, uma vez que não houve acompanhamento posterior para mensurar resultados de longo prazo. Contudo, a avaliação positiva da psicóloga do serviço, responsável pelo PAS, que acompanhou e elogiou o trabalho, reforça a percepção de que a intervenção foi pertinente e bem executada. Essa observação inicial sugere que, mesmo sem um retorno formal posterior, o material e a conscientização podem ter contribuído para uma reflexão sobre o autocuidado e a saúde mental dos profissionais que acessaram o conteúdo. A inclusão de ferramentas como perguntas de autorreflexão e uma playlist demonstra uma abordagem prática e acessível para o manejo do estresse no ambiente de trabalho. A limitação da intervenção reside na impossibilidade de mensurar o impacto contínuo ou o número total de acessos ao material digital após a apresentação inicial. No entanto, a iniciativa reforça a importância de abordar a saúde mental em ambientes de trabalho de alta pressão e sugere a necessidade de ações contínuas e abrangentes para a promoção do bem-estar desses profissionais. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): trabalho se alinha ao ODS 3: Saúde e Bem-Estar – "Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades". Especificamente, a meta mais relevante em que o objetivo se vincula é a Meta 3.4: Até 2030, reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis por meio da prevenção e tratamento, e promover a saúde mental e o bem-estar, a ação extensionista vem em direção a este objetivo. Considerações finais: Com base na experiência relatada, se observa que alguns objetivos e princípios do SUS são atingidos por meio da extensão elaborada, dentre os objetivos estão o de vigilância epidemiológica e de saúde do trabalhador, os dois em concepção da saúde mental. Dentre os princípios presentes, os mais relevantes analisados são os de integralidade, igualdade e atenção humanizada, sendo incluída recentemente como novo princípio do SUS. Esses princípios e objetivos foram percebidos através de uma comunicação não-diretiva com a utilização da escuta ativa das narrativas dos trabalhadores, abordamos então na extensão diretamente através de tecnologia leve-dura para auxiliar na demanda presenciada, visando a desconexão da mente do contexto e ambiente laboral. Apesar da dificuldade da atenção dos trabalhadores sendo o tempo, se observa que uma intervenção para eles tem implicações positivas tanto para eles como para quem está encarcerado, pois isso será refletido, mesmo sendo às vezes um local altamente estressante e que impacta na saúde física e mental, havendo então para os profissionais uma forma de terapia que auxilia em um melhor desempenho do seu trabalho, conseguem discernir o seu valor e sua essência diante das funções que exercem, para assim não levar conflitos nos demais contextos sociais que vivencia. Diante disso, a sugestão de ter o cuidado com a mente humana perante a experiência relatada, deve ser constante, contínua e humanizada, por mais dos obstáculos presentes, jamais desconsiderar a ideia proposta, pois a longo prazo desconsiderada acarreta vários problemas sociais, emocionais, físicos e espirituais.

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Publicado

16-01-2026