GRAVIDEZ SEGURA: EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA NA PROMOÇÃO DA SAÚDE INDÍGENA

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Resumo

Introdução: A promoção da saúde materna em comunidades indígenas demanda abordagens culturalmente sensíveis, interdisciplinares e comprometidas com a equidade, princípio fundamental do Sistema Único de Saúde (SUS), que garante universalidade, integralidade e participação social (Brasil, 2017). A população indígena, historicamente marginalizada, enfrenta barreiras linguísticas, geográficas e culturais que dificultam o acesso aos serviços de saúde, além de vivenciar a desvalorização de seus saberes tradicionais (Oliveira et al., 2021). Esse cenário evidencia a importância de estratégias que reconheçam a diversidade cultural e assegurem o cuidado integral e humanizado. Desse modo, a extensão universitária desempenha papel fundamental na organização de ações educativas em saúde que reconhecem e valorizam os saberes tradicionais, ao mesmo tempo em que contribuem para a redução de riscos, morbidade e mortalidade. Nesse processo, ao promover o encontro entre estudantes e comunidades, favorece-se a construção de práticas de cuidado mais participativas e culturalmente sensíveis, fortalecendo o protagonismo comunitário e ampliando a formação crítica dos acadêmicos. Objetivo: Relatar a execução de atividades de extensão universitária realizada com uma comunidade indígena Kaingang, voltada  à identificação de sinais de alerta, com intuito de promover uma gravidez e um puerpério seguros. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência de uma ação de extensão executada no âmbito do componente curricular regular do Projeto Integrador Interdisciplinar de Extensão II (PIIEX II), por estudantes do segundo período do curso de Medicina da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) - Campus Chapecó. A atividade foi desenvolvida junto a uma comunidade indígena Kaingang, no Sul do Brasil, durante o mês de maio de 2025. A abordagem utilizada compreendeu o uso de encontro de grupo. A organização das mulheres participantes foi realizada em parceria com a Unidade de Saúde Indígena local, compondo ações de educação e saúde para mulheres gestantes e/ou puérperas na área de abrangência. O encontro foi realizado pelo grupo de estudantes, sob orientação de uma docente responsável, vale-se destacar que houve pactuação prévia entre os atores envolvidos, possibilitando que a ação respondesse a uma necessidade local evidenciada pela enfermeira e médica da equipe envolvida, assim como por parte da coordenação do Polo Base Chapecó. A ação foi realizada como parte de um projeto iniciado ainda no semestre anterior, onde os estudantes no PIIEX I puderam dialogar com membros da equipe gestora, como também a equipe local para traçar um diagnóstico das principais necessidades e possibilidades de ações extensionistas a serem realizadas. Resultados e discussão: Inicialmente, foram realizadas reuniões da equipe de acadêmicos, com acompanhamento da docente coordenadora, para o planejamento das etapas e aproximação dos estudantes em relação à temática proposta. A partir da pesquisa bibliográfica em bases de dados científicas, foi desenvolvido um seminário de cunho técnico científico, o qual foi discutido e apresentado em  sala de aula. O seminário foi organizado partir de um caso clínico, abordando os seguintes tópicos: embriologia do período embrionário e fetal; alterações anatômicas e fisiológicas no corpo da mulher durante a gestação; principais teratógenos; alimentação saudável; importância do exame morfológico e direitos garantidos à gestantes e puérperas pela legislação vigente no Brasil. Essa construção teórica serviu de embasamento para a elaboração do plano de ação extensionista, alinhado aos princípios do SUS e também com a Rede Alyne, que se propõe a reduzir a morbimortalidade materna e infantil, sobretudo da população indígena (Brasil, 2024). Considerando as demandas relatadas pela equipe de saúde da comunidade, o tema foi direcionado aos sinais de alerta durante a gravidez, a fim de promover a prevenção de agravamentos relacionados a riscos gestacionais e incentivar o vínculo com as equipes de Atenção Primária. Com foco na participação ativa do público-alvo, foi preparada uma dinâmica de “Verdadeiro ou Falso” intitulada: “Gravidez Segura: Identificando Sinais de Alerta na Gestação e no Pós-parto”, com afirmações importantes sobre gestação, puerpério e cuidados com o recém-nascido. Ressaltou-se ainda, a importância do acompanhamento pré-natal, da vacinação e a seriedade de questões de saúde mental materna e violência obstétrica. No dia agendado, a equipe se deslocou até a Aldeia onde a atividade seria realizada, como também foi possível visitar a escola local e uma oca tradicional indígena, onde a imersão na cultura local ampliou a compreensão sobre a realidade socioeconômica da comunidade e, sobretudo, acerca da relação da população indígena com a saúde e a espiritualidade. Experiências como essa ampliam a compreensão dos acadêmicos sobre a realidade, aspectos culturais e espiritualidade, sendo estes aspectos fundamentais para o cuidado integral. Durante o encontro estiveram presentes cerca de 20 pessoas, dentre elas: gestantes e puérperas, profissionais da Unidade Básica de Saúde (enfermeira, médica, dentista, agentes comunitárias de saúde e técnica de enfermagem), estudantes de Medicina, professores da UFFS e colaboradoras do Serviço Social do Comércio de Santa Catarina (SESC-SC). A atividade foi bem recebida pelo público, que demonstrou interesse e engajamento. Ao final, o SESC-SC, por meio do programa Mesa Brasil, forneceu uma mesa de frutas aos participantes e organizadores. Em momento posterior, a equipe realizou uma reunião para preenchimento do relatório final para ações de extensão e compartilhamento das percepções acerca da vivência. Nesse sentido, experiências extensionistas representam estratégias fundamentais para aproximar o estudante de cenários reais de cuidado, articulando ciência, prática assistencial e impacto social, sobretudo em contextos de vulnerabilidade (Rodrigues et al, 2025). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Este trabalho se relaciona diretamente com o 3° Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS): Saúde e Bem-Estar, em especial com as metas 3.1 e 3.2, que estabelecem, respectivamente, a redução da mortalidade materna global e a eliminação das mortes evitáveis de recém-nascidos e crianças menores de 5 anos até 2030 (Organização das Nações Unidas do Brasil, 2025). A atividade de extensão desenvolvida buscou contribuir para essas metas ao promover o acesso a informações qualificadas em saúde, voltadas à identificação de sinais de alerta na gestação e no puerpério. Essa estratégia reforça a importância da prevenção em múltiplos níveis, favorecendo o diagnóstico precoce de complicações, a adesão ao pré-natal e a criação de vínculos entre gestantes, puérperas e equipes de saúde da Atenção Primária. Além disso, ao valorizar saberes tradicionais e promover práticas de cuidado culturalmente sensíveis, a experiência contribui de forma transversal para outras dimensões do ODS 3, como a promoção da saúde mental materna, a prevenção da violência obstétrica e o incentivo à alimentação saudável. Também dialoga com o ODS 10 – Redução das Desigualdades –, na medida em que atua na promoção da equidade em saúde, contemplando uma população historicamente vulnerabilizada e frequentemente excluída das políticas públicas (Organização das Nações Unidas do Brasil, 2025). Outro aspecto relevante é a contribuição para o fortalecimento das redes locais de atenção, uma vez que a ação foi realizada em articulação com a Unidade de Saúde Indígena, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) e instituições parceiras. Tal integração favorece a sustentabilidade das práticas e amplia os efeitos positivos a médio e longo prazo, pois fortalece o vínculo comunitário e potencializa o acesso contínuo aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). Por fim, a experiência também impacta a formação dos estudantes, preparando-os para o exercício de uma prática profissional crítica, ética e socialmente comprometida. Dessa forma, além de contribuir para as metas globais estabelecidas pela Agenda 2030, o trabalho reforça o papel da Universidade como agente ativo na transformação social e na promoção da saúde em contextos de diversidade cultural (Organização das Nações Unidas do Brasil, 2025). Considerações finais: A experiência relatada evidenciou a importância das ações de extensão universitária como ferramenta de aproximação entre saberes acadêmicos e necessidades reais das comunidades indígenas. Através de uma abordagem participativa, lúdica e sensível ao contexto sociocultural da comunidade, foi possível favorecer a construção de vínculo entre usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) e a equipe de saúde local. Além disso, a vivência dos estudantes possibilitou a imersão em práticas interculturais, promovendo a valorização dos saberes indígenas e evidenciando seu papel fundamental na APS. Também pode-se ressaltar que o vínculo formado entre a Universidade Federal da Fronteira Sul e a equipe de saúde indígena por meio do Projeto Integrador Interdisciplinar de Extensão PIIEX do curso de Medicina Campus Chapecó, possibilita o desenvolvimento de ações junto às futuras turmas do curso de Medicina. Dessa forma, torna-se possível desenvolver intervenções, compreendendo o papel do profissional de saúde na adaptação de estratégias às especificidades dessa população. Nesse sentido, a profunda compreensão dos desafios enfrentados pela população indígena no cotidiano da APS é capaz de ampliar a formação crítica, ética e humanizada dos futuros profissionais da saúde, reafirmando, assim, o potencial transformador da extensão como prática formativa socialmente comprometida.

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Publicado

16-01-2026