FORMAÇÃO MÉDICA NO TERRITÓRIO: EXPERIÊNCIAS NO ENFRENTAMENTO DA HIPERTENSÃO COM AGRICULTORES NO OESTE CATARINENSE

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Resumo

Introdução: O Projeto Integrador Interdisciplinar de Extensão III (PIIEX III), componente curricular do curso de Medicina da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), tem como objetivo desenvolver habilidades clínicas, comunicativas, críticas e práticas por meio da interação com a comunidade. Considerando que a hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma das doenças crônicas mais prevalentes no Brasil, ações educativas e orientativas voltadas à população tornam-se fundamentais para a promoção da saúde e a prevenção de agravos. Nesse contexto, foi proposto que os alunos da terceira fase do curso de Medicina realizassem atividades com o objetivo de informar e orientar a comunidade a respeito da HAS. A atividade foi realizada em parceria entre a UFFS e a Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (FETRAF). Objetivos: Relatar as atividades de extensão desenvolvidas com agricultores da região Oeste de Santa Catarina e com a comunidade acadêmica, abordando a temática da hipertensão arterial sistêmica. Além disso, busca-se apresentar as ações de extensão realizadas pela UFFS na região, destacando a importância de levar o conhecimento produzido no ambiente acadêmico para além da universidade e de fortalecer o vínculo entre ensino superior e sociedade. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência sobre a atividade de extensão desenvolvida nas cidades de Seara e Pinhalzinho (SC) e também no Seminário de Ensino, Pesquisa e Extensão (SEPE), ao longo do segundo semestre de 2024, no âmbito do componente curricular regular PIIEX III do curso de Medicina da UFFS. Foram realizados dois encontros com agricultores e um encontro nas dependências da UFFS, contando com a participação ativa de estudantes, professores e comunidade. As ações incluíram uma apresentação expositiva dialogada sobre a definição da HAS, seus riscos, orientações sobre o uso correto da medicação e a importância de hábitos de vida saudáveis. A apresentação foi planejada previamente em grupo, a fim de garantir uma linguagem acessível e próxima da realidade da população rural. Após a exposição, abriu-se espaço para que os agricultores compartilhassem dúvidas a respeito do uso dos medicamentos, da alimentação associada ao tratamento, dos hábitos de vida e da importância de manter a medicação nos mesmos horários. Também foram discutidas crenças populares e situações familiares relacionadas ao tema, o que permitiu compreender melhor os desafios enfrentados por essa população. Ademais, foi realizada a aferição da pressão arterial dos participantes, utilizando equipamentos calibrados e seguindo a técnica recomendada pelas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Os estudantes, acompanhados por professores, se revezaram na realização da aferição, possibilitando a todos a prática da habilidade clínica. Resultados e Discussão: Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (2020), “a hipertensão arterial é caracterizada por elevação persistente da pressão arterial (PA), ou seja, PA sistólica ≥140 mmHg e/ou PA diastólica ≥90 mmHg, medida com a técnica correta, em pelo menos duas ocasiões diferentes, na ausência de medicação anti-hipertensiva”. Diante disso, durante as atividades realizadas no SEPE, em Seara e em Pinhalzinho, aferiu-se a PA de 62 mulheres, sendo 23 classificadas como acima do considerado normal, e de 44 homens, dos quais 20 apresentaram alteração. Esses dados evidenciam a prevalência de alterações pressóricas e a importância do rastreio comunitário em populações rurais e acadêmicas. As ações possibilitaram aos alunos maior domínio do tema da HAS, proporcionando confiança e habilidade para lidar com situações inesperadas, uma vez que os agricultores trouxeram questões que excederam o conteúdo estudado. A interação entre estudantes e agricultores também promoveu uma troca de conhecimentos entre diferentes realidades, considerando que muitos alunos, vindos de áreas urbanas, não tinham familiaridade com o cotidiano rural. Durante as atividades, os estudantes observaram que, para a população rural, o controle da HAS ainda é um desafio, devido a múltiplos fatores de risco, alimentação inadequada, sedentarismo, obesidade, histórico familiar, tabagismo e etilismo. Além disso, em regiões rurais o acesso a serviços de saúde pode ser mais limitado, tornando a educação em saúde uma ferramenta ainda mais necessária. Nesse sentido, o componente curricular de extensão demonstrou-se relevante para levar conhecimento além do ambiente acadêmico, ampliando o contato direto com a comunidade e possibilitando continuidade e expansão futura do trabalho. O contato direto com os usuários fortaleceu competências e habilidades interpessoais, como a escuta ativa, a empatia e a capacidade de adaptação da linguagem médica à realidade do público. A experiência reforçou a importância do trabalho em saúde com foco na prevenção, no vínculo com a comunidade e nos princípios da Atenção Primária, alinhando-se à Política Nacional de Promoção da Saúde. Contribuições para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): As atividades realizadas se alinham diretamente ao ODS 3 – Saúde e Bem-Estar, uma vez que foi promovido  a prevenção, o rastreio precoce e a orientação sobre a hipertensão arterial sistêmica. Dessa forma, os alunos contribuíram para o fortalecimento das ações de promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas na comunidade, ampliando o acesso à informação e incentivando hábitos de vida mais saudáveis. Considerações Finais: Constatou-se maior participação feminina (58,5%) nas atividades, embora os homens tenham apresentado maior prevalência de pressão arterial elevada (45%) em comparação às mulheres (38%). Ressalta-se que a aferição isolada da PA não é suficiente para o diagnóstico de HAS, sendo indispensável o monitoramento constante fora do consultório para um diagnóstico mais preciso. Entretanto, o rastreio precoce em espaços comunitários mostrou-se uma ferramenta eficaz para prevenção e encaminhamento adequado. Nesse contexto, a atividade de extensão voltada à orientação e aferição da PA dos agricultores constituiu-se em um aliado na promoção da saúde e prevenção de agravos relacionados à hipertensão arterial, sobretudo em um grupo etário mais propenso a essa doença crônica. As ações extensionistas, portanto, reforçam a integração entre universidade e sociedade, além de fortalecerem a formação médica voltada à Atenção Primária à Saúde. Também demonstraram que o aprendizado extrapola o ambiente formal de ensino, tornando-se mais significativo quando os alunos vivenciam a realidade da comunidade. Dessa forma, fica evidente que atividades como esta são fundamentais não apenas para a comunidade atendida, mas também para a formação de futuros médicos mais humanos, críticos e preparados para lidar com diferentes contextos sociais.

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Publicado

16-01-2026

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Seção

Desinformação, informação e tradução do conhecimento em saúde