PERFIL DE INCLUSÃO E LETRAMENTO DIGITAL DE PROFISSIONAIS DA APS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS NO SUS
Resumo
Introdução: A transformação digital na saúde trouxe novas possibilidades para o cuidado, mas impôs desafios importantes, especialmente aos profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS), que atuam diretamente com a população em territórios diversos. Assim, é preciso conhecer o perfil do letramento digital desses profissionais, para definir estratégias de fortalecimento das competências digitais, comunicacionais e de tradução do conhecimento, para que equipes da APS, particularmente Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e Agentes de Combate a Endemias (ACE), sejam mediadores confiáveis da informação em saúde, reduzindo assimetrias, promovendo equidade e elevando a qualidade do cuidado. Objetivo: Analisar o perfil de inclusão e letramento digital de profissionais da APS a partir de resultados parciais do Paraná, identificando competências, desigualdades e demandas formativas. Metodologia: Trata-se de resultados parciais de um recorte do projeto multicêntrico intitulado "Estudo Nacional sobre fatores formadores da Inclusão e Letramento Digital dos profissionais da Atenção Primária à Saúde". É estudo de métodos mistos, desenvolvido em duas etapas não concomitantes. A primeira etapa, quantitativa, está com coleta de dados em andamento. É desenvolvido na APS, com profissionais atuantes em Unidades Básicas de Saúde tradicionais e em unidades organizadas segundo os princípios e diretrizes da Estratégia Saúde da Família (ESF). As amostras são estratificadas por região, porte municipal e tipologia de território (urbano/rural). Para definir o quantitativo de equipes por região utilizou-se o índice de classificação por estrato do Índice de Equidade e Dimensionamento (IED), um dos critérios para transferência do componente fixo da ESF para o ano de 2025. Para cálculo amostral adotou-se a suposição de que todas as variáveis do estudo poderiam ser dicotomizadas, atribuindo-se proporção de 50% a cada categoria para maximizar o número amostral. Considerou-se erro amostral de 3%. Após a estratificação por Região, realizou-se estratificação por estado, definindo o número de equipes a serem entrevistadas por estrato do IED, considerando vulnerabilidade, porte populacional, disponibilidade e viabilidade logística dos municípios, com inclusão das capitais sempre que possível. Em cada município são entrevistados profissionais com idade igual ou maior de 18 anos, que atuem como médico, enfermeiro, técnico de enfermagem e ACS das equipes de saúde da família (eSF), garantindo diversidade étnico-racial e profissionais em exercício. Assim, no Paraná, serão entrevistados 440 participantes, utilizando-se a plataforma Rede Cap, que disponibiliza os instrumentos de coleta (questionários e TCLE). Cada entrevistador recebe um código que foi cadastrado no seu celular para coleta online e off line. O instrumento utilizado é o eHealth Literacy Scale (eHEALS-Br). Os dados levantados são: dados socioeconômicos, acesso a dispositivos e conectividade, habilidades digitais operacionais, informacionais e comunicacionais em saúde, confiança em fontes, segurança e privacidade de dados, além de autoeficácia para uso de aplicativos e plataformas de teleatendimento/monitoramento. As análises incluirão estatística descritiva e modelos associativos para explorar fatores correlacionados aos níveis de letramento digital, com recortes de sexo, escolaridade e vínculo profissional. A análise do Letramento em Saúde Digital (LDS) identificará participantes com pontuações mais altas como representantes de LDS suficiente e aqueles com pontuações mais baixas, como LDS inadequado, considerando cotas por idade e sexo. A seleção de casos segue Malterud, Siemans e Guassora (2016), priorizando informações contrastantes para capturar diferenças entre categorias profissionais. Na etapa qualitativa, a amostragem por cotas será realizada por região do país, garantindo subgrupos mínimos para comparação interna (Ritchie; Lewis; 2003). O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde da UnB (Parecer nº 7.361.118) e segue as normas éticas vigentes. Resultados e discussões: Até o presente, foram realizados 159 registros, correspondendo a 35,2% da meta de 440 participantes. A qualidade dos dados é satisfatória, pois 97,5% dos registros (155) encontram-se completos. A coleta abrangeu diversas cidades, o que contribui para uma representação ampla da população. Quanto às categorias profissionais, a amostra parcial inclui: ACS (41), ACE (3), Auxiliares em Saúde Bucal (2), Enfermeiros (35), Farmacêuticos (8), Médicos (3), Nutricionistas (3), Odontólogos (8), outros profissionais (10), Psicólogos (22) e Técnicos de Enfermagem (22). Tal diversidade evidencia a inserção de diferentes perfis profissionais da APS no estudo, embora se destaque maior concentração de ACS e enfermeiros, refletindo, em certa medida, o protagonismo desses trabalhadores na linha de frente do cuidado. A média de idade foi de 37,8, com 84,8% de mulheres, com ensino médio completo (32, 20,3%), curso técnico e profissionalizante completo (20-12,7%), ensino superior incompleto (12-7,6%), ensino superior completo (38-24,1%), especialização (54-34,2%), mestrado (2-1,3%); média de atuação na APS de 9,7 anos. Dos 159 participantes, a grande maioria possui dispositivos digitais e acesso à internet: Smartphone (97%), Smart TV (98%), Notebook (81%) e computador de mesa (25%), reportando conexão de internet em casa (99%). Nos últimos três meses, os equipamentos mais utilizados para acessar a internet foram telefone celular (99%), notebook (63%) e Smart TV (83%), predominando o uso em casa e no trabalho (100%), seguido de casa de terceiros e deslocamentos (81%). A maioria dos participantes acessa mídias sociais diariamente (98%), assiste a vídeos, filmes ou séries com frequência semanal ou diária (85%), lê notícias online (68% diariamente) e utiliza serviços de trabalho ou profissionais (87% diariamente). O uso para atividades acadêmicas, cursos à distância ou estudos independentes é variável, com aproximadamente 30–40% usando semanalmente ou diariamente, enquanto a busca por informações sobre cursos de graduação/pós-graduação ocorre com menor frequência (5% diariamente). Em relação ao letramento digital em saúde, a maior parte dos participantes se considera capaz de encontrar e utilizar recursos de saúde online: 60–62% concordam parcialmente e 28–41% concordam fortemente sobre saber onde encontrar informações, usar dados para decisões pessoais e avaliar a qualidade das informações. Porém, há maior insegurança em relação à tomada de decisão baseada em informações online, com cerca de 25% relatando algum grau de discordância ou insegurança. Por fim, 97,5% dos registros foram completados corretamente, indicando boa adesão e qualidade de preenchimento dos questionários. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O estudo contribui para diversos ODS, promovendo literacia digital, confiança informacional e cooperação entre serviços, escolas e comunidades. Destaca-se o ODS 3 (Saúde e Bem-estar), ODS 4 (Educação de qualidade), ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições eficazes) e ODS 17 (Parcerias). Os resultados orientam ações e políticas para uma APS mais inclusiva, equitativa e resiliente. Considerações finais: O estudo fornece evidências sobre o perfil de inclusão e letramento digital dos profissionais da APS, revelando ampla disponibilidade de dispositivos digitais e conectividade, mas apontando lacunas de confiança na utilização de informações de saúde online, especialmente para tomada de decisões clínicas e comunitárias. Os achados destacam o protagonismo de ACS e enfermeiros, reforçando a necessidade de intervenções formativas direcionadas que integrem capacitação em avaliação crítica de informações, uso seguro de tecnologias e governança de dados, promovendo autonomia profissional e equidade no cuidado. Ao conectar o mapeamento de competências digitais às estratégias de qualificação da APS, o estudo contribui para a formulação de políticas públicas mais eficazes, fortalecendo a atuação da equipe no enfrentamento da desinformação e na promoção da saúde digital.
