INTEGRALIDADE NO CUIDADO EM SAÚDE: PRÁTICAS PROFISSIONAIS EM CONTEXTOS INDÍGENAS
Resumo
Introdução: A população indígena vem conquistando seu espaço e reconhecimento de forma lenta ao longo dos anos, passando por situações que podem acarretar no comprometimento de gerações futuras, envolvendo seus territórios, enfraquecendo seus saberes e favorecendo o aparecimento de patologias e agravos à saúde. O cuidado em saúde nos territórios indígenas demanda profissionais de saúde que possuam conhecimentos e habilidades acerca de todos os ciclos vitais, compreendendo as particularidades de cada aldeia e acima de tudo, profissionais que considerem os saberes, culturas, crenças e valores do território indígena onde está inserido, visto que cada etnia traz consigo singularidades próprias dos seus antepassados (Gomes; Reis, 2021). É necessário então adaptar as ações e condutas a partir das influências expressas nas subjetividades dos espaços indígenas, visualizando os indivíduos em sua integralidade. Contudo, as equipes enfrentam dificuldades para realizar o cuidado de forma efetiva e necessitam reorganizar prioridades e demandas (Gomes, et al, 2021). Dessa forma, refletir sobre os cuidados em saúde a população indígena com vistas a integralidade pode contribuir para elaboração de políticas públicas específicas que considerem as reais necessidades de cada aldeia e etnia, bem como, pode auxiliar profissionais de saúde ao pensar criticamente sobre suas práticas de cuidado, considerando as singularidades de cada contexto. Para tanto, elenca-se como questão de pesquisa deste estudo: “Quais as práticas de cuidado em saúde indígenas implementadas pelos profissionais de saúde que atuam em Terra Indígena, na perspectiva da integralidade?”. Objetivo: Analisar as práticas de cuidado em saúde indígena implementadas pelos profissionais de saúde que atuam em Território Indígena, na perspectiva da integralidade. Metodologia: Trata-se de um recorte de um estudo que foi desenvolvido através de abordagem qualitativa de caráter descritivo e compreensivo a partir do referencial teórico das Representações Sociais. Participaram do estudo dezoito profissionais de saúde que atuam na Terra Indígena do Guarita (TIG), localizado na região noroeste do estado do Rio Grande do Sul. Elegeu-se como critérios de inclusão os profissionais de saúde que desenvolvem práticas de cuidado em saúde as populações indígenas pertencentes a TIG a mais de 3 meses. Como critérios de exclusão: profissionais que estiverem em gozo de período de licença e férias no período de coleta de dados. A geração de dados ocorreu por meio de atividade em grupo, utilizando abordagem de núcleos figurativos e simbólicos e através de entrevista semiestruturada, entre os meses de setembro a novembro de 2023. Os dados foram analisados através da análise de conteúdo temático. A pesquisa possui autorização da Liderança da Terra Indígena do Guarita, do DSEI Interior Sul, autorização de ingresso em Território Indígena pela Fundação Nacional de Saúde Indígena (FUNAI) com a geração do Protocolo Digital Número Único de Protocolo (NUP) 08620.002324/2023-91, e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de Santa Maria, e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) com o Parecer 6.292.636, CAEE: 68883823.0.0000.5346. Resultados e discussão: De acordo com os participantes, o vínculo entre profissional de saúde e a comunidade indígena é o princípio para o cuidado, o que demanda tempo para que se estabeleça uma relação de confiança e que a comunidade aceite o profissional, principalmente quando este não é indígena. Os profissionais precisam articular os saberes adquiridos ao longo da formação acadêmica com os conhecimentos tradicionais indígenas, sendo esse um desafio enfrentado diariamente pelos mesmos. No diálogo intercultural há noções de cuidado que diferem do modelo biomédico, estimulando a troca de saberes entre todos os envolvidos nesse processo. Assim, é relevante considerar a cura, a eficácia e o curso da doença quando se utiliza da medicina indígena (Schweickardt; Freitas; Ahmadpour, 2020). Nesse cenário, a visita domiciliar é trazida pelos participantes como espaço que aproxima as relações de vínculo e permite que os profissionais conheçam a realidade da população, identificando as reais necessidades de cada indígena e família, como condições de moradia, água, renda, saneamento básico, dentre outros aspectos (Silva; Nora, 2021). Além disso, oportuniza o acompanhamento de crianças, idosos, gestantes, hipertensos e diabéticos mensalmente. As consultas de enfermagem também foram citadas pelos participantes como local de orientações e fortalecimento de vínculos, promovendo estratégias de cuidado que buscam melhorar a qualidade de vida e sendo base para encaminhamento dos pacientes que necessitam de serviços de referência em saúde (Silva; Nora, 2021). Os grupos educativos, que também são citados como espaço de cuidado são desenvolvidos através de parceria das equipes de saúde com os profissionais do Polo-Base, além de contarem com participação de profissionais externos convidados. Nestes, há participação da comunidade em rodas de conversas acerca de diferentes temáticas, aproximando a equipe com os indígenas, que compartilham suas vivências e saberes tradicionais de cuidado, fortalecendo as práticas (Silva; Nora, 2021). Os participantes mencionam que também são desenvolvidas ações específicas no território, com controle e acompanhamento do Polo-Base e que diferem da Atenção Primária em Saúde fora das aldeias. A comunicação entre a unidade de saúde e demais pontos da rede de atenção ocorre principalmente através de profissionais que possuem conhecimento da realidade da comunidade, potencializando o cuidado da população indígena e contemplando as dimensões da integralidade. Através das falas emergiram as dificuldades enfrentadas diariamente pelos profissionais, principalmente devido à dificuldade de adaptação à nova realidade, aos saberes e práticas da comunidade que precisam ser consideradas, as diferenças entre os contextos indígenas e aos acessos aos recursos. Assim, a rotina de trabalho das Equipes de Saúde Indígena é marcada por desafios que fazem que os profissionais repensem a atuação nesses espaços, ocasionando escassez que profissionais em algumas regiões (Gomes, et al, 2021; Guimarães, et al., 2022). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Esse trabalho contribui para o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 10 e a meta 10.2, que busca empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente de idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião, condição econômica ou outra, visto que o trabalho busca dar visibilidade para as questões de saúde da população indígena. Considerações finais: O cuidado em saúde em territórios indígenas ocorre de maneira ampliada, em diferentes espaços. Os profissionais buscam a integralidade do cuidado através da junção de seus conhecimentos e dos saberes próprios da população, além de considerarem os aspectos culturais, sociais e relações que envolvem a aldeia. O vínculo entre profissionais e população é imprescindível para que o cuidado ocorra de forma efetiva, sendo facilitadores na atenção à saúde. Assim, as práticas de cuidado em saúde indígena partem de um olhar nos aspectos culturais, sociais, epidemiológicos e geográficos, que estão diretamente relacionados as demandas e anseios dessa população. Como limitação do estudo, pode-se citar os trâmites burocráticos necessários para se obter as autorizações de ingresso em Território Indígena pelos Órgãos Oficiais e a escassez de publicações atualizadas na temática deste estudo.
