MENTE VIVA: A ARTICULAÇÃO ENTRE CULTURA, CIÊNCIA E TERRITÓRIO NA PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL EM CHAPECÓ/SC

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Resumo

Introdução: A depressão constitui atualmente um dos principais problemas de saúde pública a nível global, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) (2023), caracteriza-se por seu impacto direto na qualidade de vida dos indivíduos e por representar uma das principais causas de incapacitação. A complexidade do tema se acentua diante da persistência do estigma social, da desinformação e das dificuldades de acesso aos cuidados em saúde mental, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais, como no Brasil (Brasil, 2015). A Política Nacional de Saúde Mental orienta, desde sua formulação, ações que valorizem a promoção do cuidado em liberdade, a atuação intersetorial e a centralidade do território como espaço de produção de saúde (Brasil, 2016). No entanto, observa-se a necessidade crescente de estratégias que articulem conhecimento científico, linguagem acessível e aproximação cultural com os diversos públicos, especialmente aqueles mais vulneráveis (Guttman; Gesser-Edelsburg; Aycheh, 2013). Nesse cenário, o projeto de cultura "Mente Viva", desenvolvido por acadêmicos da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), com orientação docente e apoio de instituições parceiras. Surgiu como uma iniciativa voltada à educação popular em saúde, à promoção da saúde mental e à superação do estigma relacionado à depressão. Objetivo: Apresentar e discutir a experiência e os primeiros resultados da implementação do projeto “Mente Viva” no município de Chapecó/SC, enfatizando as estratégias utilizadas para a promoção da saúde mental por meio de práticas culturais, intersetoriais e territorialidades. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência com abordagem qualitativa, ancorado nos pressupostos da educação popular em saúde e da cartografia social. O projeto foi idealizado e conduzido por estudantes dos cursos da área da saúde da UFFS, sob supervisão de professores e em articulação com serviços públicos e entidades locais. As ações ocorreram entre os meses de maio e agosto de 2025 e envolveram diferentes etapas: mapeamento das demandas e dos espaços estratégicos no território; planejamento colaborativo das atividades; execução de oficinas temáticas, rodas de conversa, exibição de vídeos educativos, intervenções culturais (como performances, exposições de filmes e arteterapia), além da elaboração e distribuição de materiais informativos em linguagem acessível de forma impressa e nas redes sociais do projeto. As atividades foram realizadas em espaços diversos, como salas de aula da universidade e ao ar livre, visando atingir diferentes perfis populacionais e reduzir as barreiras de acesso à informação e ao cuidado em saúde mental. A proposta surgiu a partir de observações de estudantes no ambiente universitário, que, em diversos momentos, demonstravam não apenas sinais de tédio, mas também a necessidade de dispor de um tempo para relaxar, interagir e se expressar livremente.  Resultados e discussão: Como principais resultados, observou-se impacto direto em mais de 300 pessoas, incluindo estudantes, técnicos, servidores da universidade e membros da comunidade em geral. As ações permitiram momentos significativos de escuta, acolhimento e reflexão, especialmente no que se refere à depressão e seus impactos sociais e emocionais. Diversos participantes relataram sentir-se, pela primeira vez, ouvidos com atenção e sem julgamento, o que os encorajou a buscar ajuda profissional. As intervenções artísticas, como o uso de objetos simbólicos e performances, facilitaram a abertura emocional dos participantes, ao mesmo tempo em que despertaram interesse e promoveram empatia. A linguagem simples e acessível empregada nos materiais educativos contribuiu para a apropriação do conhecimento científico pela comunidade, promovendo a desmistificação de conceitos ligados à saúde mental. A escolha de espaços não convencionais para as ações revelou-se uma estratégia eficaz para democratizar o acesso à informação e alcançar públicos pouco engajados nas práticas tradicionais de cuidado. Do ponto de vista acadêmico, os estudantes envolvidos relataram que o projeto possibilitou um processo formativo intenso, que ampliou sua compreensão sobre os determinantes sociais da saúde, as práticas de cuidado e os desafios éticos e afetivos envolvidos no acolhimento de pessoas. A atuação em campo favoreceu o desenvolvimento de competências como empatia, escuta qualificada, comunicação sensível e compromisso social (Freire, 2003; Brasil, 2015). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: As contribuições do projeto "Mente Viva" estão fortemente alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, destacando-se a vinculação ao ODS 3 – Saúde e Bem-Estar (meta 3.4), que busca até 2030 reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis, por meio da prevenção e do tratamento, e promover a saúde mental e o bem-estar; ao ODS 4 – Educação de Qualidade (meta 4.7). A qual visa assegurar que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessários para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive por meio da educação para a cidadania global e a valorização da diversidade cultural; ao ODS 10 - Redução das Desigualdades (meta 10.2), que busca empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todas as pessoas, independentemente de idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião ou condição econômica ou outra; e ao ODS 17 - Parcerias e Meios de Implementação (meta 17.17), que estimula parcerias eficazes entre governo, setor privado e sociedade civil, construídas sobre princípios e valores compartilhados (Organização das Nações Unidas, 2025). Considerações finais: A experiência do projeto "Mente Viva" evidenciou o potencial transformador das ações extensionistas interdisciplinares, culturais e territorialidades na promoção da saúde mental. A integração entre universidade, Sistema Único de Saúde (SUS) e comunidade possibilitou o fortalecimento das redes locais de cuidado, a mobilização de saberes diversos e a formação crítica dos estudantes envolvidos. Apesar dos resultados positivos, reconhece-se como limitação do estudo a ausência, até o momento, de uma avaliação quantitativa mais aprofundada sobre os impactos gerados nas comunidades envolvida. Recomenda-se, assim, a continuidade e institucionalização das ações, bem como a replicação da metodologia em outros contextos territoriais, respeitando suas especificidades socioculturais. O projeto mostrou que o uso da cultura como ferramenta de cuidado em saúde mental contribui para a superação do estigma e da desinformação, possibilitando que diferentes públicos se sintam parte ativa na construção de um modelo de cuidado mais humano, acessível e sustentável. A valorização do território, das parcerias locais e da escuta sensível deve ser mantida como eixo central das futuras iniciativas voltadas à promoção da saúde mental no âmbito das políticas públicas e da extensão universitária.

 

 

 

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Publicado

16-01-2026