Território insurgente e patrimônio: a captura simbólica do Quilombo Urbano da Liberdade (São Luís-Maranhão)
Palavras-chave:
Quilombo Urbano Liberdade, Racialização do espaço urbano, Resistência negra, Patrimonialização, Captura simbólicaResumo
Este trabalho analisa criticamente a patrimonialização do Quilombo Urbano Liberdade, em São Luís (MA), compreendendo este processo como um acontecimento ambíguo que, ao mesmo tempo em que reconhece a historicidade e a resistência negra urbana, pode operar como mecanismo de captura territorial e simbólica por parte do poder público. Derivado de um projeto de doutorado que faz uso de uma abordagem que se pretende geohistórica crítica, ancorada nos conceitos de território, rugosidade e insurgência espacial, o estudo interpreta o Quilombo Liberdade não como mero objeto de política cultural, mas como uma espacialidade negra historicamente produzida por práticas cotidianas de resistência, memória e permanência frente à modernidade urbano-racializada em que teve sua gênese nos fins do século XIX. Dialogando com Santos (2006), Beatriz Nascimento (Ratts, 2021), Gomes (2006; 2010) e Bourdieu (2003), o cerne da discussão reside na hipótese de que o reconhecimento oficial como uma comunidade remanescente de quilombo, embora represente uma conquista na luta por direitos e permanência, opera, simultaneamente, como uma forma de poder simbólico e de captura. A partir disso, o patrimônio é entendido como campo de poder e disputa, no qual narrativas, práticas e identidades são selecionadas, hierarquizadas e, por vezes, despolitizadas, produzindo efeitos concretos sobre a autonomia comunitária. O trabalho propõe que, ao transformar o território insurgente em “bem cultural”, o Estado pode redefinir alguns de seus sentidos, convertendo uma história viva de conflito e resistência em objeto gerenciável, passível de mediação externa, normatização simbólica e, talvez, produto turístico de pouco aprofundamento sobre as suas lutas históricas internas já que seus moradores mobilizaram, ao longo do tempo, estratégias de resistência cotidiana que tensionam, hoje, essa captura, por terem inscrito sentidos próprios no espaço atualmente patrimonializado (De Certeau, 1998). Assim, o Quilombo Liberdade emerge como lugar de fricção permanente entre memória subalterna e governamentalidade urbana, revelando os limites e contradições das políticas de reconhecimento no contexto das cidades negras da diáspora atlântica. Objetiva-se contribuir para os debates sobre patrimônio, memória e conflitos territoriais ao evidenciar que a patrimonialização, longe de ser um gesto neutro de preservação, constitui-se como arena de disputas simbólicas, políticas e espaciais.
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