TERRITÓRIOS EM DISPUTA E MEMÓRIA CAMPONESA NO OESTE CATARINENSE: EXPERIÊNCIAS DE RESISTÊNCIAS NO ASSENTAMENTO SANTA ROSA III (ABELARDO LUZ/SC, 1985–2025)

Autores

Palavras-chave:

Memória(s), Território, Conflitos Agrarios, Assentamento, MST

Resumo

O presente trabalho analisa as relações entre memória, território e resistência camponesa a partir da trajetória de famílias assentadas no Assentamento Santa Rosa III, localizado no município de Abelardo Luz, no oeste catarinense. A pesquisa integra o projeto “Nas Trilhas da História, Memória e Arqueologia do Conflito na Fronteira Sul” e busca compreender como as experiências de expropriação, luta pela terra e permanência no território constituem formas de resistência frente à expansão do agronegócio e à histórica concentração fundiária no Brasil. O estudo fundamenta-se na escuta e registro de memórias orais, com destaque para a trajetória de Dona Romilda, assentada que participou das ocupações organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) a partir de 1985, marco da reorganização das lutas pela terra na região. A memória, nesse contexto, é compreendida como um campo de disputa, atravessado por relações de poder que determinam o que é lembrado e o que é silenciado (MOTTA, 2003). Os relatos evidenciam que a perda da terra, o trabalho precarizado como meeiros e a instabilidade social constituem experiências compartilhadas por diversas famílias camponesas, revelando a persistência de uma estrutura fundiária desigual. Como argumenta Santos (2006), o território é produzido segundo a lógica do capital, que privilegia formas hegemônicas de uso do espaço em detrimento dos modos de vida tradicionais. Nesse sentido, os assentamentos rurais configuram-se como territórios de resistência, onde a permanência na terra representa não apenas uma conquista material, mas também a afirmação de identidades coletivas e saberes historicamente marginalizados. Os resultados indicam que a memória desempenha papel central na construção de pertencimento territorial e na transmissão de experiências de luta, constituindo-se como instrumento político frente aos processos de apagamento histórico e homogeneização promovidos pelo avanço do agronegócio. Ao mesmo tempo, os relatos evidenciam entraves contemporâneos à permanência no campo, com destaque para a ausência de políticas de crédito e de assistência técnica voltadas à agricultura familiar e agroecológica, o que tende a empurrar jovens filhos e filhas de camponeses para trajetórias fora do meio rural. Em diálogo com Santos (2001), trata-se também de compreender como a organização desigual do território produz cidadanias limitadas, condicionando acessos, oportunidades e futuros possíveis.  Assim, o assentamento Santa Rosa III emerge como um espaço onde memória, território e resistência se articulam, revelando as múltiplas dimensões dos conflitos agrários contemporâneos e contribuindo para a compreensão das territorialidades camponesas no sul do Brasil.

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Publicado

06-06-2026

Edição

Seção

Fronteiras, conflitos e reexistências: territórios rurais em disputa na América Latina