Caboclo colonizado: Território, Poder e Invisibilização na Região do Contestado
Palavras-chave:
Contestado. Branqueamento. Colonização. Invisibilidade. CaboclosResumo
O presente artigo analisa o processo de colonização da região do Contestado (1911–1940) a partir da articulação entre raça, terra e poder, demonstrando como os caboclos foram convertidos, política e simbolicamente, em sujeitos invisibilizados pelo projeto republicano de modernização e branqueamento. Pois, na historiografia tradicional frequentemente reduziu a Guerra do Contestado a messianismo ou conflito agrário. Propõe-se, aqui, uma releitura crítica que evidencia o caráter estruturante da violência estatal e empresarial na reorganização territorial do sertão catarinense, destacando a invisibilização cabocla como elemento constitutivo do Estado-nação. Neste sentido, a pesquisa adota abordagem qualitativa, baseada em análise documental (leis, decretos, anúncios de colonização e discursos oficiais) e diálogo teórico com autores como Albert Memmi, Frantz Fanon, Norbert Elias, João Baptista de Lacerda e Paulo Pinheiro Machado. Examina-se o impacto do discurso eugenista apresentado no Congresso Universal das Raças (1911), a atuação de empresas colonizadoras na Colônia Irany e a inversão analítica da categoria “estabelecidos e outsiders” no contexto regional. Sendo assinto, evidencia-se que o branqueamento operou como política de Estado, articulando legislação fundiária, repressão militar e colonização empresarial. Os caboclos, historicamente estabelecidos no território, foram convertidos em outsiders pela narrativa oficial e pela reconfiguração fundiária, especialmente após 1916. A colonização da Colônia Irany consolidou um processo de substituição étnico-social e apagamento simbólico. Conclui-se que a violência no Contestado não foi exceção, mas expressão fundacional da modernidade republicana nas fronteiras internas. A análise revela a continuidade de estruturas coloniais no interior do Brasil e aponta a necessidade de reescrever essa história a partir da perspectiva dos vencidos, reconhecendo o conflito como disputa por território, memória e legitimidade histórica.
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