FORTE SÃO JOAQUIM: COLONIALIDADE E PATRIMÔNIO EM DISPUTA NA AMAZÔNIA SETENTRIONAL.
Palavras-chave:
Forte São Joaquim do rio Branco. Fronteira amazônica. Povos indígenas. Colonialidade do poder. Patrimônio.Resumo
Uma análise do Forte São Joaquim do rio Branco, erguido na confluência dos rios Tacutu e Uraricoera, no vale do rio Branco (atual Roraima), como patrimônio colonial inscrito em território historicamente marcado por conflitos, resistências indígenas e disputas de soberania. Inaugurado em 1775 e construído com trabalho compulsório indígena, o forte extrapolou sua função militar, tornando-se instrumento de territorialização, controle fluvial, vigilância fronteiriça, disciplinamento dos corpos indígenas, e reordenamento da paisagem amazônica, segundo a lógica europeia de poder e fé. Conforme discutido pela historiografia sobre o rio Branco, o episódio da “Praia de Sangue”, episódio no qual povos indígenas da região, como Wapichana, Macuxi e os Paravilhana foram violentamente atacados, resultando na dizimação de parte significativa da população local e no apagamento histórico dos Paravilhana, isso evidencia que a consolidação desse núcleo colonial esteve atravessada por confrontos, resistências e imposições brutais aos indígenas. Suas ruínas podem ser interpretadas não apenas como vestígios arqueológicos, mas como artefato da cultura material que evidencia a colonialidade na Amazônia setentrional. O estudo propõe uma leitura crítica para além da monumentalização patrimonial, compreendendo o forte como dispositivo de imposição de hierarquias coloniais e ordenações territoriais, nos termos da colonialidade do poder formulada por Aníbal Quijano. O sítio é abordado como lugar de memória e campo de disputa simbólica, articulando memória social e poder. Inspirado na perspectiva metodológica de Walter Benjamin, o trabalho desloca o foco da narrativa militar para as experiências indígenas silenciadas. A partir de uma leitura a contrapelo, reavalia-se a celebração do forte como símbolo de soberania, evidenciando processos de expropriação e deslocamento. Ao revisitar seus sentidos contemporâneos, a análise contribui para o campo da História do Patrimônio ao deslocar o eixo interpretativo das fronteiras meridionais para a fronteira amazônica, ampliando o debate nacional sobre patrimônio, fronteira e memória.
Simpósio Territórios, Memória, Reexistências e Patrimônio - STMRP está licenciada sob a licença