Conflito, memória e injustiça: o massacre dos colonos estrangeiros e a invisibilidade das vítimas nativas no Contestado

Autores

  • Gerson Witte Universidade Federal da Fronteira Sul UFFS Autor
  • Delmir José Valentini Universidade Federal da Fronteira Sul Autor

Palavras-chave:

Guerra do Contestado, Colonização, Chacina do Iguaçú, Violência

Resumo

O artigo analisa a violência e a seletividade da memória institucional durante a Guerra do Contestado (1912-1916), centrando-se na problemática da profunda assimetria de tratamento entre as vítimas de origem estrangeira e a população nativa. O objetivo central do estudo é investigar episódios de execuções sumárias, com ênfase na "Chacina do Iguaçu", para revelar como a indignação pública e a pressão diplomática se mobilizaram em torno da morte de colonos e comerciantes europeus, enquanto o extermínio sistemático de caboclos e indígenas permanecia invisibilizado pelo aparato estatal. A metodologia adotada combina a pesquisa histórica documental, em especial das historiadoras Arlene Renk e Viviane Poyer, em fontes jornalísticas da época, registros parlamentares e laudos oficiais. A análise conta com a prática artística, utilizando o desenho digital como ferramenta de reflexão crítica e comentário visual sobre as tensões sociais do período. O referencial teórico fundamenta-se nos conceitos de colonização predatória e desumanização do colonizado, estabelecendo um diálogo com as obras de Albert Memmi e João Carlos Tedesco para interpretar as relações assimétricas de poder e a negação da cidadania. Os resultados da pesquisa demonstram que a estrutura do conflito foi moldada por uma aliança entre o Estado brasileiro, empresas transnacionais e o coronelismo local, resultando em uma "indignação seletiva". Enquanto o assassinato de dezoito estrangeiros provocou debates no Congresso Nacional e exigências consulares, o massacre de 57 crianças brasileiras na "Grota dos Anjinhos" e a degola de sertanejos não geraram inquéritos ou punições, evidenciando o caráter excludente e autoritário do processo de ocupação territorial e a persistente desvalorização da vida das populações autóctones.

Publicado

06-06-2026

Edição

Seção

Processos migratórios e imigratórios na fronteira sul do Brasil: passado e presente