Sertão, o espaço do "outro": territorialidade e resistências Guarani e Kaiowá no Norte do Paraná
Palavras-chave:
Guarani, Kaiowá, Norte do Paraná, Sertão, TerritorialidadeResumo
Desde o período colonial, a utilização do termo sertão vem carregada de significados depreciativos, indicando uma região à diferença das preenchidas pelo colonizador, e essencialmente constituída pelo “outro”, o não branco, considerado racionalmente inferior e violento, dentro de uma determinada hierarquia de raças. No período republicano, o sertão recebeu múltiplos significados e esteve interligado à formação identitária brasileira. Nesse momento, se associava a noção de sertão a do vazio demográfico para reforçar a ideia de um espaço destituído de habitantes e justificar a sua reocupação pela população branca. Esse discurso se perpetuou durante a reocupação do Norte paranaense, que iniciou entre a metade do século XIX e se estendeu ao longo do século XX, e reverberou nas décadas seguintes como uma verdade irrefutável, fazendo com que os povos não brancos, como os Guarani e Kaiowá que tradicionalmente ocupam a região há milhares de anos, fossem invisibilizados e constantemente desterritorializados. Esta reflexão tem como suporte de análise a produção bibliográfica do termo sertão e seus desdobramentos no Brasil republicano, a historiografia paranaense sobre a presença da população Guarani e Kaiowá no Norte do Paraná, bem como os estudos da tríade território-territorialidade-territorialização, através da produção de Rogério Haesbaert e Carlos Porto-Gonçalves. A partir desses referenciais, intenta-se apontar o sertão como o espaço geo-simbólico do “outro”, explanando a sua reocupação através de um ordenamento territorial que o marginaliza; historicizar a presença e a resistência Guarani e Kaiowá na região em estudo; e demonstrar as alterações na territorialidade desses povos em decorrência dos processos de territorialização impostos desde o período colonial. Os resultados deste trabalho indicam que, durante a reocupação do sertão no período republicano, se reproduziu o discurso de branqueamento do território, privilegiando a inserção da população branca-eurodescendente no espaço, ao mesmo tempo em que houve expropriações territoriais, desterritorializações, e negação de direitos territoriais das populações não brancas. Desde o período colonial, a imposição de territorialidades hegemônicas ocasionou mudanças na territorialidade Guarani e Kaiowá, nos quais resistiram às violências e expropriações de seus territórios ancestrais através de conflitos e alianças com indígenas e não indígenas, e buscaram novas estratégias para recriar sua territorialidade.
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