Escritas de um professor negro: Uma abordagem contracolonial

Autores

  • João Augusto Varela Mascarello UFFS Autor
  • Maria Fernanda de Goes Fachin UFFS Autor
  • Renilda Vicenzi UFFS Autor

Palavras-chave:

Protagonismo negro, Contracolonial, Memória(s), Pós-abolição, Resistência

Resumo

Embora silenciadas por narrativas colonialistas e embranquecidas, personalidades negras são produtoras de saberes e conhecimentos, que em geral tencionam a história oficial, afirmando-se como intelectuais e como sujeitos capazes de narrar o passado de outro(s) modo(s), ou seja, reivindicando-se como protagonistas de suas próprias memórias e histórias. Em Santa Catarina, identificamos Sebastião Ataide, professor e intelectual negro natural de Lages, na serra catarinense. Descendente de pessoas escravizadas, acessou a educação formal sob a tutela informal de seus tios paternos. Contudo, sua infância foi vivida em meio a trabalhos domésticos, sem desfrutar dos privilégios dos filhos consanguíneos do casal branco. Embora não tenha sido criado pela mãe, Sebastião manteve contato frequente com ela, preservando o vínculo com a memória coletiva e a resistência. Em 1983, licenciou-se em Ciencias Sociais e, em 1988, publicou sua obra O negro no planalto lageano, na qual analisa e ressignifica a presença e a memória negra em Lages. Ao tomar a obra de Ataide como fonte, nosso foco é compreender o seu papel e a sua voz enquanto intelectual negro que pensa a história da população negra de Lages no período escravista e no pós-abolição, ao mesmo tempo em que se coloca como sujeito dessa história. Para isso, baseamos nossa análise no pensamento contracolonial, que, conforme Antonio Bispo dos Santos (2023), entende o colonialismo não apenas como um processo de exploração econômica, mas também de adestramento, ou seja, de apagamento de linguagens, saberes e formas de viver que fogem ao padrão do colonizador. Em complemento, a pesquisa dialoga com conceitos como o de lugar de fala (Ribeiro, 2019), noções de raça e representação (hooks, 2019) e na compreensão da permanência das violências da escravidão no pós-abolição. Para além da obra-fonte, utilizamos o livro biográfico Sebastião Ataide: Presença, trajetória e protagonismo (Vicenzi, 2023) que oferece importantes reflexões sobre a vida do professor. Portanto, esperamos evidenciar a escrita de Sebastião Ataide como prática de resistência, memória e afirmação do protagonismo negro, contribuindo para a valorização de saberes historicamente deslegitimados e para a construção de uma história contracolonial da população negra em território catarinense.

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Publicado

06-06-2026

Edição

Seção

Territórios de Memória e Resistência: Populações negras no Sul do Brasil