Na escuridão da noite: o desaparecimento e a morte do preto velho Jeronymo nos Campos de Palmas, 1903
Palavras-chave:
Pós-abolição, Racialização, Violência, Justiça, População negra.Resumo
Este trabalho analisa o desaparecimento e a morte do preto velho Jeronymo na cidade de Palmas, Paraná, no início do século XX, tomando como eixo interpretativo o processo de racialização no contexto do pós-abolição. A problemática central consiste em compreender de que maneira a cor, a condição social e o passado escravista de Jeronymo influenciaram a condução das investigações policiais e judiciais, bem como o tratamento dispensado ao caso pelas autoridades locais. O objetivo é evidenciar como a violência sofrida por um homem negro, idoso e ex-escravizado foi naturalizada e silenciada em uma sociedade marcada pela permanência de hierarquias raciais após 1888. A metodologia baseia-se na análise qualitativa de fontes judiciais, especialmente um inquérito policial de 1903 e um processo-crime reaberto em 1906, além dos autos de exumação cadavérica, permitindo reconstruir a narrativa do desaparecimento, a oitiva das testemunhas, a localização de uma ossada meses depois e o desfecho do caso. O estudo dialoga com a História Social e com o conceito de racialização, mobilizando aportes teóricos de Wlamira Albuquerque, Hebe Mattos, Sidney Chalhoub e Achille Mbembe, compreendendo a raça como construção histórica e instrumento de hierarquização social. Os resultados indicam que a reiterada menção à cor de Jeronymo nas fontes, em contraste com a ausência dessa marcação para os sujeitos brancos envolvidos, revela mecanismos de desumanização e negação da cidadania negra. O arquivamento do processo, mesmo diante de indícios de violência, evidencia os limites da justiça republicana no reconhecimento da vida negra como digna de proteção legal. O caso de Jeronymo, assim, permite compreender como práticas herdadas do escravismo continuaram operando no pós-abolição, produzindo silêncios, impunidades e mortes socialmente toleradas
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