Território, Etnicidade e Modernização: A Construção do Complexo Agroindustrial Cervejeiro no Paraná (Guarapuava e Ponta Grossa)
Palavras-chave:
Modernização Agrícola, Imigração, Cevada, Território, ParanáResumo
O presente trabalho analisa a formação socioeconômica e territorial dos municípios de Guarapuava e Ponta Grossa, no Paraná, investigando as convergências e distinções que culminaram na estruturação do atual complexo agroindustrial cervejeiro regional. A pesquisa fundamenta-se na análise de fontes primárias, como o documento "Bases do Programa de Governo (1970-1973)", discursos presidenciais da década de 1970, dados estatísticos (IBGE/IPARDES) e narrativas museográficas. A fundamentação teórica transita entre a História Ambiental, a Geografia Agrária e o conceito de "lugares de memória" de Pierre Nora. Argumenta-se que a ocupação desses territórios consolidou-se através de projetos de modernização dirigidos pelo Estado que privilegiaram a etnicidade europeia como vetor de progresso técnico. Em Ponta Grossa, a imigração européia do século XIX integrou-se a um nó logístico ferroviário pioneiro, resultando num modelo de cooperativismo multiétnico e numa economia voltada ao processamento e à prestação de serviços industriais. Em contrapartida, Guarapuava apresenta o caso da Colônia Entre Rios, onde os Suábios do Danúbio, estabelecidos em 1951, formaram um enclave técnico-cultural via Cooperativa Agrária. Este modelo viabilizou o que se denomina como "reforma agrária interna": um processo de concentração fundiária e tecnificação financiado pelo Estado, com suporte da Embrapa e de fundos especiais (PLANACEM), em benefício das elites cooperadas sob o pretexto da autossuficiência nacional. Os resultados demonstram uma divisão técnica do trabalho no território: enquanto Guarapuava detém a hegemonia da produção primária, consolidando-se como o maior produtor nacional de cevada e importante vetor malteiro Ponta Grossa afirmou-se como centro logístico e indústrial. A análise revela que a construção deste "território da cerveja" sustenta-se numa hiper discursividade que exalta o sucesso técnico e a ascendência germânica, ao mesmo tempo que silencia sobre a exclusão de agricultores familiares, o apagamento das populações originárias (Kaingang e Xokleng) e os custos ecológicos da substituição de biomas nativos por monoculturas industriais. Conclui-se que a ciência e a técnica atuaram como vetores de seletividade territorial, moldando a identidade regional a partir de uma lógica de mercado excludente.
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