Autobiografia, Trabalho e Resistência: A Escrita de Si como Gesto Político.

Autores

  • Sara Munique Noal UFFS Autor

Palavras-chave:

Autobiografia. Resistência. Trabalho. Escrita de si.

Resumo

Este artigo, o qual faz parte de uma pesquisa mais ampla, analisa a escrita autobiográfica de Carolina Maria de Jesus como gesto político de resistência e elaboração simbólica. O objetivo principal é compreender como sua obra, notadamente os diários Quarto de Despejo, Casa de Alvenaria e Diário de Bitita, articula as categorias de gênero, raça e classe a partir de uma perspectiva decolonial e da história social do trabalho. A problemática central reside em superar leituras que reduzem seus diários a meros testemunhos, propondo, em vez disso, entendê-los como práticas ativas de insurgência narrativa. Metodologicamente, o estudo realiza uma análise textual crítica, articulada ao referencial teórico dos estudos decoloniais, tendo como base obras como as de Sueli Carneiro e Bell Hooks; da história social, pensando o conceito de experiência a partir de E. P. Thompson e das teorias da memória e do cotidiano, tendo em vista a perspectiva de Walter Benjamin. Além disso, o conceito de escrita de si, por sua vez, será pensado a partir da perspectiva de Michel Foucault, segundo o qual “[...] em torno dos cuidados consigo toda uma atividade de palavra e escrita se desenvolveu, na qual se ligam o trabalho de si para consigo e a comunicação com outrem” (FOUCAULT, 2014, p. 6667). Os resultados demonstram que Carolina converte a experiência cotidiana da exclusão em ferramenta crítica, transformando corpo, trabalho e memória em matéria narrativa. Sua escrita constitui, assim, um ato político de reexistência, que reinscreve a mulher negra trabalhadora no campo do saber e desafia as estruturas de silenciamento impostas pela colonialidade. Conclui-se que a autobiografia, em sua obra, opera como um gesto de permanência e de produção de humanidade a partir das margens.

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Publicado

06-06-2026

Edição

Seção

Protagonismos à margem: gênero e relações étnico-raciais na história