Saberes que atravessam fronteiras: Literatura infantil, migração e memória intergeracional

Autores

  • ANDREIA BRAGA Universidade do Oeste de Santa Cataria - UNOESC Autor

Palavras-chave:

Imigração europeia. , Memória intergeracional. , Patrimônio imaterial.

Resumo

O presente trabalho discute como a obra Bolachas de Colher (2025), embora concebida como literatura infantil, transcende fronteiras etárias ao mobilizar memórias, afetos e vivências intergeracionais. Inspirada na receita da avó italiana, a narrativa transforma o preparo cotidiano das bolachas de colher em portal para a história da imigração europeia na região Sul entre os séculos XIX e XX, especialmente nas colônias do Rio Grande do Sul e, posteriormente, em Piratuba/SC, onde a autora reside na mesma propriedade rural que foi da avó. Ao rememorar histórias e trajetórias familiares, evidencia-se como identidades se constroem na articulação entre memória, território e experiência. Apesar de estar centrada na experiência familiar, a obra dialoga com os modos de vida rurais, tensionados por políticas de reocupação, modernização agrícola e mudanças econômicas que afetaram pequenos agricultores, comunidades caboclas e famílias colonizadoras. A permanência da família na mesma propriedade por gerações constitui um gesto de resistência, expresso na manutenção de práticas culturais, como culinária e tradição oral, aproximando a narrativa das reexistências que marcam o território. A perspectiva freiriana de educação como prática de liberdade permite compreender a obra como espaço de humanização. Para Freire, “não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes” (FREIRE, 1996, p. 25). A partir dessa ideia, reconhecemos culinária, oralidade e memórias afetivas como saberes legítimos. Já Saviani nos permite perceber que “a educação é mediação no interior da prática social” (SAVIANI, 2008, p. 59), e assim entendemos que a obra  mediatiza passado e presente, preservando vínculos e significados invisibilizados. Rossi reforça que “a memória não conserva o passado tal como foi, mas o reorganiza a partir do presente” (ROSSI, 2010, p. 37), mostrando como a literatura infantil conecta passado, presente e futuro por meio da transmissão de saberes. Ao relacionar memórias às dinâmicas migratórias, evidencia-se que a experiência individual não se dissocia dos fluxos históricos que reconfiguram territórios. A literatura Bolachar de Colher (2025) propõe reflexões sobre a memória intergeracional como ferramenta pedagógica, cultural e subjetiva, aproximando leitores de todas as idades de histórias marcadas por afetos, trabalho, coletividade e transmissão cultural.

Publicado

06-06-2026

Edição

Seção

Movimentos Sociais de luta pela terra e memória cabocla