Língua e Cultura: o ensino obrigatório de Língua Alemã no município de Cerro Largo (RS)
Palavras-chave:
Glotopolítica, Fronteira, Ensino de línguas, MultilinguismoResumo
Marcado por uma expressiva diversidade linguística e cultural (italianos, alemães, libaneses, argentinos, etc), como apontam Fagundes e Sturza (2022) , o município de Cerro Largo configura-se como um espaço em que diferentes línguas, práticas e identidades coexistem e se entrelaçam no cotidiano escolar e social. Nesse contexto diverso, o ensino de língua alemã assume um papel singular, sendo instituído como componente obrigatório na rede municipal desde o Decreto nº 1364 (Cerro Largo, 2002). A cidade, assim, além de ser um território constituído de fronteiras políticas, também é um território constituído de fronteiras linguísticas e culturais. Para tanto, foi realizada uma coleta de dados a partir de uma entrevista de caráter semi estruturado, objetivando compreender o papel do professor de alemão em meio ao cenário linguísticamente plural e fronteiriço da referida cidade. No que diz respeito ao campo metodológico, evidenciamos nossa pesquisa como de natureza aplicada e de abordagem qualitativa, com procedimentos etnometodológicos e objetivos exploratórios (Silveira; Córdova, 2009). Acerca dos resultados estabelecidos e das discussões realizadas, observamos que a fronteira estudada revela um contexto marcado pela intensa circulação e contato de diferentes línguas e culturas. Conforme Eliana Sturza (2026), estamos intrinsecamente rodeados de fronteiras, sejam elas políticas, linguísticas e culturais. Neste sentido, observamos que, no cenário cerrolarguense, os idiomas alemão, português, espanhol, entre outros, coexistem nas práticas sociais e escolares. Contudo, no âmbito social do município, tal diversidade linguística não se configura como um objeto de valorização sistemática, dado que a língua alemã, ainda que legalmente reconhecida como oficial, não configura-se, ainda assim, como a língua de prestígio no espaço de estudo. As entrevistas apresentam fatores que evidenciam, ainda, que a fronteira como território vai além da esfera geográfica, podendo ser compreendida como um espaço multilingue e dinâmico de trocas linguísticas e culturais. A fronteira, assim, surge como esse espaço de encontros — mas também de disputas. Ao mesmo tempo, constatamos, também, a tendência do não-uso da língua alemã, especialmente entre as gerações mais jovens, dado que reforça o caráter hegemônico da língua portuguesa neste contexto de estudo, bem como reforça a necessidade de ações de manutenção e valorização da língua de imigração em foco. Destarte, a prática docente em língua alemã, no espaço de estudo, pode ser considerada uma prática glotopolítica situada em um contexto de fronteira marcado pela negociação e mediação entre línguas e culturas dominantes e dominadas, tal qual numa relação dialética (Chauí, 2005). Elencamos, por fim, a partir das elucidações de Guespin e Marcellesi (2021), os fatos da linguagem enquanto caracteres intrinsecamente culturais e socializados em todos os seus eixos.
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