O USO DA HEPARINA NO TRATAMENTO DA COVID-19
Palavras-chave:
Infecções por coronavírus, Heparina, Tratamento FarmacológicoResumo
Introdução: Em dezembro de 2019, diversos casos de pneumonia surgiram em Wuhan na China, o que chamou a atenção das autoridades sanitárias. Posteriormente, foram realizadas investigações sobre o porquê do aumento desses números, concluindo-se que a causa das pneumonias era um novo vírus, o SARS-CoV-2 e a doença causada por ele passou a ser chamada de COVID-19. Meses depois, o vírus já havia se espalhado por diversos países e, nesse contexto, a Organização Mundial da Saúde (OMS), no dia 13 de março de 2020, declarou tratar-se de uma pandemia. As características clínicas da infecção por SARS-CoV-2 variam desde quadros oligo/assintomáticos a pneumonia grave, incluindo Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e choque. Nesse contexto, tornou-se necessária a realização de estudos para descrever as características gerais do vírus e seus efeitos sobre o organismo humano para, desta forma, encontrar possíveis tratamentos e a cura para a doença. Desse modo, diversas pesquisas sobre potenciais tratamentos foram publicadas, mas ainda não foi descoberto um medicamento específico que iniba o vírus. Entretanto, algumas medicações já existentes se demonstraram eficazes no manejo das consequências oriundas da infecção. Objetivo: Descrever o uso de heparina no tratamento da COVID-19. Metodologia: Foi realizada uma revisão narrativa da literatura através de buscas em bases de dados como Scielo e PubMed com as palavras-chave “heparina”, “COVID-19”, “coagulopatia” e “tratamento”. Resultados e Discussão: A fisiopatologia da COVID-19 envolve entre suas alterações, a disfunção da coagulação, que pode levar ao tromboembolismo venoso (TEV) e à Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD). As alterações da coagulação possuem papel importante na evolução da doença para formas mais graves e são consideradas fator de risco para Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e morte. Nesse contexto, os indivíduos com infecção pelo SARS-CoV-2 possuem níveis elevados de dímero-D e de outros marcadores de hipercoagulabilidade quando comparados com a população geral. Também foi demonstrado que o risco de desenvolver TEV e de morte aumenta em pacientes com maiores níveis de dímero-D, o que o torna um fator de pior prognóstico.1,2 Desse modo, os estudos apontam para a necessidade de utilizar tromboprofilaxia na COVID-19, a fim de evitar essas complicações. As heparinas parenterais, heparina de baixo peso molecular (HBPM) e heparina não fracionada (HNF), são os anticoagulantes mais empregado na COVID-19 devido ao perfil de menores efeitos adversos e interações medicamentosas quando comparadas aos anticoagulantes orais – anticoagulantes orais diretos (ACOD) e antagonistas da vitamina K (AVK).³ No que tange ao tipo a ser utilizado, as pesquisas apontam o uso da HBPM em detrimento da HNF devido à não necessidade de monitoração frequente do tempo de tromboplastina ativado e por possuir menor chance de desenvolvimento de resistência.4 Não há um consenso sobre a indicação de anticoagulante no tratamento da doença, pois alguns autores sugerem o uso de doses profiláticas de HBPM para pacientes com elevados níveis de dímeros-D, quadro de inflamação, síndrome de tempestade de citocinas, problemas de coagulação e risco de tromboembolismo enquanto outros apontam que se deve administrar a terapia em todos os pacientes internados com COVID-19.5 Em relação à dose que deve ser administrada, também não há um consenso. Contudo, a Sociedade Espanhola de Trombose e Hemostasia (SETH) faz recomendações quanto à dosagem profilática e à dosagem no tratamento da doença tromboembólica. Nesse contexto, ela recomenda que todos os pacientes com COVID-19 façam uso de anticoagulante – enoxaparina, tinzaparina, bemiparina, nadroparina ou dalteparina –, mas que a dose dos que possuem fatores de risco seja superior aos que não possuem. Além disso, as doses terapêuticas são superiores às profiláticas. Sobre a ação da heparina na doença, foi visto que ele auxilia na reversão do quadro provocado pela tempestade de citocinas, assim evitando a formação de trombo e posteriores complicações, contribui para a proteção da parede endotelial e auxilia na prevenção de trombose.4 Desse modo, diminui o risco de tromboembolismo pulmonar, melhora os níveis de oxigenação e ajuda a combater a SRAG. Ainda, parece possuir efeitos antivirais e antiarrítmicos.4 O uso de heparina em pacientes com níveis aumentados de dímeros-D e pontuação SIC maior que 4 resultou em diminuição da mortalidade.² No entanto, estudos controlados relacionados a eficácia da heparina nos pacientes com COVID-19 ainda são escassos, sendo que a maior base para as sugestões feitas pela literatura é teórica ou de estudos realizados antes da pandemia. Considerações finais: Conclui-se que a heparina não possui ação curativa, mas sim um papel fundamental para evitar complicações trombóticas e diminuir a mortalidade. Dentre as heparinas, a que demonstrou mais apropriada é a HBPM. A revisão contribuiu para melhorar a compreensão da atuação da heparina sobre os efeitos da doença. Por último, constata-se a necessidade de elucidar diversas características da doença, para que desta forma se tenha estudos mais conclusivos e eficazes em relação às possibilidades terapêuticas, uma vez que a maioria dos artigos publicados sobre a temática são preprints.
