Relato de experiência de residentes multiprofissionais em uma UTI em tempos de pandemia
Palavras-chave:
Equipe de Assistência ao Paciente; Pandemias; Sistema Único de Saúde; Hospitais Universitários; Infecções por Corona vírus.Resumo
Introdução: No contexto da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), a alta tecnologia empregada, os procedimentos altamente invasivos, administração intensa de antimicrobianos associados à elevada manipulação dos pacientes, requer uma atenção multiprofissional e interdisciplinar. O cuidado de saúde neste local é baseado no monitoramento de fenômenos fisiológicos, passíveis de influências constantes devido à dinamicidade dos eventos patognomônicos e na manutenção da integridade física dos indivíduos ali hospitalizados1. Esse setor possui recursos tecnológicos que não estão presentes em outras unidades dos hospitais, que permitem avaliação constante e tomada de decisão baseada em evidências e em dados clínicos disponíveis. Por tanto, o paciente crítico é caracterizado por necessitar de uma assistência especializada devido ao seu estado de saúde, e dessa forma é necessária uma equipe multiprofissional ampla e altamente capacitada, ao mesmo tempo em que as relações entre os profissionais devem ser bem estabelecidas e consolidadas. Neste período, os residentes buscam somar ao conhecimento científico adquirido na academia a vivência da prática clínica, da gestão e as experiências dos profissionais atuantes no serviço. São 60 horas semanais de imersão no campo prático oportunizando o aperfeiçoamento do conhecimento científico das ações técnicas conhecidas durante a graduação, bem como a aquisição de novos conhecimentos e integração entre teoria e prática. Da mesma forma que o residente aprende com o seu processo de trabalho ele traz para a equipe novos saberes firmando uma troca de conhecimento que reflete em uma mudança de cultura em prol da melhoria do cuidado. Nesse momento de pandemia rotinas e processos vêm se alterando constantemente pela intensa publicação científica e pela realidade de cada hospital, decorrente dos recursos humanos e materiais. O desabastecimento de materiais e medicamentos não é um assunto atual e geralmente é previsível pelo histórico de consumo, mas a intensa demanda dos recursos tornou essa escassez imprevisível, exigindo que os profissionais tracem estratégias de manutenção de estoque e alternativas para substituições, tais ações precisam de uma equipe multiprofissional para que sejam factíveis e implementadas. Objetivo: Descrever a vivência da prática profissional, enquanto residentes multiprofissionais do segundo ano em uma UTI no contexto de uma pandemia. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo, tipo relato de experiência, elaborado no contexto da UTI em tempos de pandemia, por um residente da Farmácia, uma residente da fisioterapia e uma residente da Enfermagem no programa de residência Integrada Multiprofissional em saúde (RIMS) do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina. Resultados e Discussão: Os residentes são um dos elos entre os profissionais de saúde, pensando nisso o planejamento das ações evita o retrabalho, já que direciona as condutas dos profissionais por meio da avaliação clínica e planejamento, resultando em tomadas de decisão direcionadas e de melhor qualidade que permitem um replanejamento diário por meio da reavaliação diária ou sempre que necessário, tanto em relação aos cuidados humanos quanto aos recursos físicos e materiais inseridos no processo, nesse momento de pandemia a avaliação diária é essencial1. Em consequência disso, ocorre a melhora na segurança do paciente, pois, a assistência é realizada, invariavelmente, com mais eficácia e eficiência, levando-se em consideração as necessidades do paciente de forma individualizada, resultando em intervenções de enfermagem oportunas para aquela situação saúde-doença e no contexto em que se está inserido. No que tange a visibilidade do profissional residente em enfermagem essa se manifesta por meio do seu conhecimento científico, da sua participação no processo de tomada de decisão e nas atividades de gerenciamento e coordenação. Além disso, tem sua visibilidade expressa pelas ações articuladoras que desenvolve frente a equipe multiprofissional, a fim de proporcionar o desenvolvimento de ações transversais e, consequentemente, uma atenção mais integral em saúde. Outro ponto que se destaca é o desabastecimento, em especial dos medicamentos, repercutiu em todos os lugares e gerou uma preocupação nos insumos usados nas UTIs, o que levou a uma corrida das equipes gestoras e assistências na garantia dos suprimentos usados na intubação e sedação dos pacientes. Apesar dos sedativos, analgésicos e bloqueadores neuromusculares serem o foco da angústia do desabastecimento, outras classes de medicamentos como os antibióticos, vasopressores, anticoagulantes, inibidores da bomba de próton e outros, entraram em escassez e precisaram de medidas que garantisse o tratamento adequado para as diversas indicações2. A aquisição de medicamentos é um processo complexo que requer transparência e eficácia de atender a demanda dos hospitais, entretanto na pandemia o aumento da demanda sem o aumento da oferta impulsionou a elevação dos preços dos insumos e inviabilizou a aquisição deles, em especial para hospitais públicos que se baseiam em compra por pregões2. Esse impasse ocasionou em uma dicotomia entre não atender as necessidades dos pacientes com o processo administrativo por quebrar o financiamento. Devido a essa situação, os farmacêuticos logísticos, clínicos e residentes formaram uma força tarefa para elencar alternativas terapêuticas e orientar estratégias de preservação em conjunto com toda a equipe multiprofissional. É importante ressaltar que a falta de materiais como bomba de infusão e bureta refletem diretamente no uso seguro dos medicamentos e precisaram também de ações entre as equipes2. O papel do farmacêutico clínico e residente imerso na UTI demonstrou também a importância da sua assistência a beira leito na otimização da terapia em consonância com a dos outros profissionais e residentes3. Nesse contexto a fisioterapia vem mostrando sua atuação no manejo cardiorrespiratório e conquistando a equipe para a mobilização precoce dos pacientes internados na UTI. Existem barreiras, principalmente a contratação de fisioterapeutas e, em vários hospitais, o descumprimento da resolução da ANVISA de um fisioterapeuta para até 10 leitos e 18h, no mínimo por dia do fisioterapeuta na UTI3. A taxa de sobrevida na UTI está aumentando, porém, as complicações advindas da internação prolongada têm destaque, dentre elas a fraqueza muscular adquirida na UTI, onde o fisioterapeuta tem um papel essencial na prevenção e recuperação neuromuscular do doente. Alguns fatores como sepse, vasopressores, aminoglicosídeos, bloqueadores neuromusculares, hiperglicemia, idade, tempo prolongado de ventilação mecânica, sedação e imobilidade no leito estão intimamente relacionados com a fraqueza muscular adquirida na UTI4. Considerações finais: Faz-se necessário na UTI medidas em equipe multiprofissional e avaliação constante do paciente para o melhor manejo clínico e diminuição de complicações advindas da internação. Uma equipe bem engajada, trabalhando em conjunto, revisando o caso diariamente do paciente, realizando checklists e rounds de discussão tende a diminuir os efeitos deletérios de uma internação hospitalar em unidade intensiva.
