Resistindo às emoções

PERCEPÇÕES DE UMA SIMULAÇÃO CLÍNICA SOBRE A ASSISTÊNCIA À GESTANTE EM SITUAÇÃO DE PERDA FETAL

Autores/as

  • Willian Lorentz Universidade Federal da Fonteira Sul Chapecó
  • Rafael de Lima Carmo Universidade Federal da Fronteira Sul
  • Caroline Sbeghen de Moraes Universidade Federal da Fronteira Sul
  • Lucimare Ferraz Universidade Comunitária da Região de Chapecó
  • Joice Moreira Schmalfuss Universidade Federal da Fronteira Sul

Palabras clave:

Obstetrícia, Morte Fetal, Cuidados de Enfermagem, Simulação

Resumen

Introdução: na educação, a evolução do modelo de ensino-aprendizagem é indispensável para a formação de um profissional com visão ampliada da realidade. Estar preso a um único modelo de ensino, não atentando-se à possibilidade de inovações, é inibir as expressões singulares metodológicas. Nesse sentido, a utilização de metodologias ativas no ensino em saúde se apresenta como caráter necessário e inovador. Esse modelo metodológico tem como característica o empoderamento do estudante para que ele atue de maneira direta em sua formação.1 Assim, um método que vem se popularizando na formação em saúde é a simulação clínica. Esse recurso de ensino-aprendizagem proporciona que acadêmicos vivenciem a prática em eventos de baixa, média e alta complexidade, em ambientes livres de riscos2 e que minimizem os erros. Por sua vez, representando importante área da saúde, a Enfermagem carrega consigo a possibilidade da criação de vínculo com o usuário, tendo em vista que a profissão atua direta e constantemente na vida dos indivíduos. Portanto, oportunizar simulações clínicas a acadêmicos de Enfermagem, considerando abordagens que perpassam a questão técnica da profissão, amplia sua ótica e evidencia uma melhor assistência, sobretudo na assistência em Enfermagem a mulheres em situação de perda fetal, temática permeada de questões emocionais. Objetivo: relatar as percepções de atores simulados sobre a resistência dos participantes demonstrarem suas emoções em uma simulação clínica sobre assistência à gestante em situação de perda fetal. Metodologia: estudo de abordagem qualitativa, do tipo descritivo, que considerou as vivências de três acadêmicos de Enfermagem em simulações clínicas desenvolvidas em dezembro de 2019, em um Laboratório de Semiologia e Semiotécnica localizado nas dependências de uma universidade pública do oeste catarinense. As simulações fizeram parte da coleta de dados de uma tese de doutorado que aborda a assistência de Enfermagem a mulheres em situação de perda fetal. As etapas de planejamento dos cenários envolveram a participação ativa dos três

acadêmicos que participaram como atores simulados voluntários e da docente pesquisadora. Participaram da coleta de dados 40 acadêmicos do Curso de Graduação em Enfermagem que já tinham cursado o Componente Curricular “O cuidado no processo de viver humano II”, o qual aborda assuntos da obstetrícia e saúde da mulher. A mesma simulação clínica foi realizada em seis momentos distintos, considerando a disponibilidade dos acadêmicos participantes e envolveu cinco cenários que compreenderam seis momentos da assistência a uma mulher em situação de perda fetal: diagnóstico de morte fetal; acompanhamento do trabalho de parto e do parto; nascimento do bebê sem vida e atendimento do binômio mãe-bebê no pós-parto imediato e mediato; atendimento na maternidade/unidade de alojamento conjunto e alta hospitalar. O primeiro cenário aconteceu em um consultório de Enfermagem, onde era realizado o atendimento a uma gestante, acompanhada por seu marido, no qual a mulher afirmava não sentir a movimentação fetal. Na oportunidade, um participante que simulava um enfermeiro realizava o exame físico completo da gestante, a tentativa de ausculta dos batimentos cardíacos fetais (nulos para o cenário) e a solicitação de um exame de ultrassonografia para a confirmação da morte fetal. Após a gestante realizar o exame e ter o resultado em mãos, retornava ao consultório de Enfermagem para a revelação do diagnóstico de morte fetal pelo profissional, com orientações relativas a este cenário, bem como sobre o prosseguimento da assistência. O segundo cenário consistia na assistência de Enfermagem ao trabalho de parto da mesma gestante, oportunidade que o enfermeiro simulado atuou no alívio das dores das contrações e no acompanhamento do processo de parturição. O terceiro cenário envolvia o nascimento do bebê sem vida, momento em que o profissional simulado pôde possibilitar ao casal a permanência com seu bebê, auxiliando-os a vivenciar o processo de luto de forma respeitosa. No quarto cenário era solicitado que o enfermeiro simulado fizesse uma ligação telefônica para outro setor do hospital, a fim de solicitar um leito para a transferência da, então, puérpera. O quinto e último cenário simulava a assistência de Enfermagem à mulher no período pós-parto, com vistas à alta hospitalar, sendo que o enfermeiro simulado orientava o casal em relação aos cuidados no puerpério. O projeto de pesquisa que deu origem a este trabalho foi aprovado em dois Comitês de Ética em Pesquisa, com pareceres de número 3.285.522 e CAAE 11750518.0.0000.0116 e 3.336.383 e CAAE 11750518.0.3001.5564 (instituição coparticipante). Todos as etapas da pesquisa seguiram os preceitos éticos de acordo com as Resolução 466, de 2012, e 510, de 2016, do Conselho Nacional de Saúde. Resultados e discussão: a participação dos atores simulados nas simulações clínicas possibilitou que estes pudessem relatar suas percepções a respeito da resistência dos participantes demonstrarem suas emoções. No primeiro cenário que envolveu a revelação do diagnóstico da morte fetal, o enfermeiro simulado não tinha conhecimento prévio acerca desse fato. No momento que recebia a informação de que se tratava de uma morte fetal, ao ler o diagnóstico, alguns participantes que se encontravam no papel de enfermeiro simulado, inicialmente, ficavam, visivelmente, chocados e sem ação. As expressões faciais anunciavam sentimentos como surpresa, receio e desconforto. No entanto, as expressões eram repentinamente neutralizadas de maneira consciente. Ao revelar o diagnóstico para o casal de atores simulados, palavras como “morte” não foram pronunciadas pelos participantes e houve tentativas de amenizar a situação com o emprego de expressões como “partir”, “não está mais entre nós” e “veio a óbito”. Na sociedade ocidental, há grande resistência das pessoas em falarem sobre a morte, sendo necessário que esse assunto seja tratado de maneira franca e serena nas inúmeras situações que envolvem o cuidado.3 Esta resistência criada acerca da morte diz respeito a uma percepção negativa do acontecimento. No entanto, muitas pessoas possuem uma visão diferenciada do processo de morte e morrer, ressignificando como algo

positivo, de alguma maneira. Ou seja, as concepções em relação ao processo de morte e morrer são singulares, possuem formas de expressão dissemelhantes e sofrem influências sociais, culturais e religiosas. Dessa forma, observou-se que um dos fatores cruciais para a resistência em expressar os sentimentos no primeiro cenário da simulação clínica diz respeito ao papel em que o indivíduo estava representando. Assumir a figura de enfermeiro impõe ao participante conceitos socialmente estabelecidos acerca de sua função, onde tal profissional necessita ser forte e dar apoio e amparo ao usuário, não podendo expressar suas emoções e fragilidades acerca do acontecimento. Contudo, esse profissional, assim como outros da área da saúde, não estão livres de expressar seus sentimentos. Essa atitude não faz o indivíduo ser menos profissional, muito pelo contrário, promove uma relação mais respeitosa e sincera com o usuário. Em momentos como revelação de diagnósticos complexos, recursos como o toque terapêutico e, até mesmo, a presença silenciosa são mecanismos que podem ser utilizados. Considerações finais: utilizar a simulação clínica para tratar de assuntos como o exposto favoreceu que os participantes vivenciassem emoções nunca antes experenciadas no âmbito acadêmico. Percebeu-se que, ao se depararem com uma circunstância delicada, mesmo que em um primeiro momento os participantes tenham apresentado uma reação de surpresa com a revelação do diagnóstico de morte fetal, intencionaram uma assistência respeitosa à gestante, prestando suporte, apoio e amparo de forma profissional. Por fim, acredita-se que estar aberto a experienciar sentimentos causados por situações externas é entender-se enquanto ser humano, o qual não está desvinculado do “ser profissional”.

Publicado

22-04-2024