SOFRIMENTO MENTAL POR PROFISSIONAIS DA SAÚDE QUE ESTIVERAM E/OU ESTÃO ENVOLVIDOS NA LINHA DE FRENTE DA PANDEMIA DA COVID-19 – UMA REVISÃO DA LITERATURA CIENTÍFICA

Autores

  • Amanda Gollo Bertollo UFFS
  • Roberta Eduarda Grolli
  • Silvio José Batista Soares
  • Maiqueli Eduarda Dama Mingoti
  • Adriana Remião Luzardo
  • Zuleide Maria Ignácio

Palavras-chave:

Profissionais de Saúde; COVID-19; Saúde Mental.

Resumo

Introdução: Profissionais de saúde que trabalham na linha de frente de guerras, desastres naturais e pandemias enfrentam uma enorme carga emocional e jornadas maçantes de trabalho. Situação semelhante ocorre durante a atual pandemia, momento que aqueles que cuidam os doentes em urgência/emergência e UTI precisam lidar com o desgaste físico e emocional constante. Com o surto da COVID-19 o trabalho em ritmo prolongado e irregular cresceu drasticamente e no mesmo ritmo os sintomas de transtornos psiquiátricos. Além de estarem expostos aos riscos de contaminação, os profissionais na linha de frente da COVID-19 apresentam sofrimento psicológico e estigma social. As emoções negativas e privação de sono diárias contribuem para o desenvolvimento de transtornos depressivos e de ansiedade.1 Dentre os profissionais de saúde, a enfermagem é a categoria que apresenta maior risco de desenvolver morbidades psiquiátricas em decorrência da pandemia, tendo em vista o medo constante de infectar familiares, por serem potenciais vetores de vírus, pela necessidade de isolamento para evitar disseminar o vírus e o alto nível de estresse devido à falta de insumos e precariedade na logística são alguns agravantes para a vulnerabilidade psicológica.2 Objetivo: Elencar os principais sintomas de adoecimento psicológico apresentados pelos profissionais de saúde que estiveram e/ou estão na linha de frente  da pandemia da COVID-19. Metodologia: Revisão narrativa a partir de artigos presentes nas bases de dados PubMed e Scielo publicados entre 2019 e 2020, buscando encontrar pesquisas sobre o sofrimento mental pelos profissionais de saúde na linha de frente ao combate da COVID-19 e os principais sintomas desenvolvidos por eles. Resultados e Discussão: Na pesquisa prévia foram encontrados diversos trabalhos que objetivavam avaliar impactos na saúde mental dos profissionais de saúde que estavam na linha de frente da COVID-19. Foram selecionados 17 artigos. No que diz respeito ao local de publicação dos trabalhos, notou-se que a maioria das publicações era oriunda da China, fenômeno que pode ter decorrido de dois fatores, sendo que o primeiro envolve o destaque positivo na organização e estruturação do sistema de saúde chinês por isso, o entendimento da importância da produção deste conhecimento científico; e o segundo fator decorre de que este país foi onde os primeiros casos foram confirmados e, consequentemente, eles iniciaram as pesquisas sobre os impactos da COVID-19 na saúde mental dos profissionais de saúde antes de outros países. Na epidemia de SARS-CoV-1 em 2003 os profissionais que participaram na linha de frente sofreram impactos negativos em sua saúde mental, envolvendo crises de ansiedade e quadros depressivos.2 Nos trabalhos encontrados nessa revisão, notou-se que os principais sintomas destacados pelos profissionais da saúde na atual pandemia envolvem quadros de ansiedade, depressão, medo, insônia, estresse e  fadiga. Diante disso, pode-se perceber a similaridade de sintomas maléficos causados nos profissionais, enfatizando que o vírus  SARS-CoV-1 causou uma epidemia que não se desenvolveu a ponto de se tornar pandemia, indicando que os prejuízos decorrentes da situação atual podem ser mais graves e perdurarem por mais tempo.² Corroborando com essa afirmação, uma pesquisa comparou indicadores de estresse e ansiedade entre a epidemia do SARS-CoV-1 e a pandemia da COVID-19 nos profissionais de saúde, resultando que esse último causava maiores respostas de estresse e ansiedade.3 Os autores apontaram que diversos protocolos desenvolvidos para o SARS-CoV-1 foram melhorados e ampliados para serem aplicados nessa pandemia, contudo a COVID-19 apresenta características singulares desde as formas de contágio até as terapêuticas, fato que tem impactado profundamente a saúde mental dos profissionais de saúde.3 A partir das buscas na literatura, identificou-se um maior número de publicações que conduziram os estudos com médicos e enfermeiros, porém quando discutido saúde mental em função da pandemia, deve-se considerar que os expostos a estressores vão além dos profissionais de saúde que lidam diretamente com os doentes. Estudos apontam que os profissionais da limpeza também apresentam sintomas de sofrimento mental, como distúrbios do sono.¹ Porém, não foram encontrados muitos dados relacionados a esses outros profissionais. A partir dessa análise prévia, fica clara a necessidade de intervenções estratégicas em prol da saúde mental dos profissionais, estando ou não na linha de frente no combate à COVID-19. No que diz respeito ao gênero, verificou-se que os profissionais que mais apresentaram agravamentos em sua saúde mental frente a pandemia foram os de sexo feminino. Além disso, constatou-se que a prevalência de estresse e ansiedade foi maior em equipes não médicas do que médicas. Assim, as equipes de enfermagem apresentaram-se como as mais afetadas diante do surto de COVID-19. Estudos também apontam que os sintomas de adoecimento mental vão além do desempenho laboral, envolvendo quadros de insônia, constante estresse após plantões noturnos e sonolência durante a volta para casa após o expediente, elevando o risco de acidentes de trânsito.¹ Talvez a diferença do adoecimento mental da pandemia de 2020 com as demais já presenciadas seja o fluxo de informações, associado à escassez de certezas científicas. As dúvidas referentes à fisiopatologia da doença, a insegurança gerada pela falta de insumos, profissionais capacitados e equipamentos de proteção individuais e coletivos geram um agravante nos quadros de ansiedade. Outro ponto que gera desconforto emocional nos profissionais envolvidos nos cuidados críticos referentes a COVID-19 é a necessidade de negar a autorização de visitas ou despedidas dos falecidos. Muitas vezes essas medidas de segurança geram sentimentos de culpa nos trabalhadores responsáveis. O histórico psiquiátrico e idade avançada caracterizam fatores de risco para o adoecimento mental desses profissionais.² Em um dos estudos analisados profissionais entre 46 e 55 anos foram os que atingiram maior pontuação na escala de estresse frente à pandemia. Entretanto, verificou-se, em outra pesquisa que a equipe médica mais jovem possuía maior probabilidade de desenvolver depressão e ansiedade do que as equipes mais velhas.⁴ Considerações finais: Uma das limitações para o desenvolvimento desta revisão narrativa envolveu a lacuna de dados científicos envolvendo os demais profissionais presentes no atendimento tanto direto quanto indireto aos pacientes contaminados por COVID-19, pois apesar de eles não trabalharem diretamente com os pacientes contaminados podem apresentar desequilíbrio emocional devido à insônia e ao estresse decorrentes do ambiente de trabalho. Por outro lado, foi possível observar que os profissionais da enfermagem e da medicina são aqueles que estão mais presentes na linha de frente no combate à COVID-19 e, diante disso, apresentam indicadores de adoecimento psicológico, destacando-se quadros de estresse, ansiedade e depressão. Estes profissionais são de extrema importância no combate a doenças e situações relacionadas à pandemia da COVID-19 por isso, precisam encontrar estratégias para melhorar a saúde mental a partir de iniciativas governamentais, grupais e individuais.

Publicado

22-04-2024