IMPLEMENTAÇÃO DO MONITORAMENTO COVID-19:
REPERCUSSÕES NA FORMAÇÃO ACADÊMICA
Palavras-chave:
Enfermagem; Saúde pública; Infecções por coronavírus; Telemonitoramento; Atenção primária à saúdeResumo
Introdução: a COVID-19 é uma doença infectocontagiosa que surgiu na China, em dezembro de 2019 e que tem como patógeno o coronavírus, denominado SARS-CoV-2. Desde o seu aparecimento a humanidade tem enfrentado uma crise sanitária global. Os casos aumentaram aceleradamente em diversos continentes, o que fez a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelecer como pandemia no dia 11 de março de 2020.1 Este cenário complexo estabelece dificuldades à vigilância epidemiológica, às relações internacionais e à programação de políticas públicas, especialmente por meio de medidas que amenizem as desigualdades de acesso aos sistemas de saúde e a condições estruturais para o autocuidado. Nesse sentido, contemplar o monitoramento da pandemia nas diferentes regiões torna-se imprescindível para a atualização e regulação de métodos de enfrentamento à nível local.2 No município de Chapecó, localizado no oeste de Santa Catarina, com aproximadamente 200 mil habitantes, até o dia 30 de julho de 2020 registrava 10.549 casos monitorados (desde março de 2020), sendo 4.337 casos confirmados (sendo 3.530 recuperados), 1.070 suspeitos e 5.080 descartados.3 O monitoramento dos casos suspeitos e confirmados de COVID-19 faz parte do Protocolo de Manejo Clínico da COVID-19 na Atenção Primária à Saúde desenvolvido pelo Ministério da Saúde, e tem como objetivo orientar a Rede de Serviços de Atenção à Saúde para atuação na identificação, na notificação e no manejo oportuno de casos de infecção, de modo a mitigar a transmissão sustentada no território nacional.4 Objetivo: Relatar as repercussões na formação acadêmica na implementação do monitoramento dos casos suspeitos e confirmados de COVID-19 em Chapecó. Metodologia: trata-se de um relato de experiência, descritivo, vivenciado por acadêmicos da décima fase durante o Estágio Curricular Supervisionado II (ECS II) no curso de Enfermagem da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Diante de um acordo de cooperação entre a UDESC e a Secretaria Municipal de Saúde de Chapecó, foi elaborado um plano de trabalho para a ampliação do monitoramento de casos suspeitos e confirmados de COVID-19 que foi assumido pela 10ª fase do curso, composta por 14 acadêmicos e três docentes. Foi pactuada a realização inicial do monitoramento de casos pertencentes a três Centros de Saúde da Família (CSF) pertencentes ao município. O monitoramento, iniciado no dia 15 de junho de 2020 e ainda em vigência, ocorre numa sala ampla da própria Universidade, atentando à todas as medidas sanitárias exigidas no período (higienização dos sapatos, das mãos e objetos, uso de máscara e distanciamento social). Foram disponibilizados seis celulares da UDESC para realizar o contato telefônico e/ou via WhatsApp com os usuários que precisam ser monitorados a cada 48h ou 24h (os grupos de risco). Para acompanhamento dos casos de COVID-19 foi compartilhada uma planilha do Microsoft Excel que é alimentada pelas CSF com os casos que pertencem ao seu território adscrito. Os acadêmicos foram divididos em três grupos (de acordo com a unidade de saúde) e escalados em até 6 pessoas diariamente para monitorar os casos de segunda à sexta-feira, no turno vespertino, das 13 às 18 horas, totalizando cinco horas diárias. O registro do monitoramento é realizado na planilha da unidade de saúde e no prontuário eletrônico do paciente acessado via sistema web nos computadores disponibilizados. Tem-se uma média de 100 casos monitorados pela UDESC. O monitoramento é supervisionado diretamente pelas docentes enfermeiras da fase e compartilhado diariamente via grupo do WhatsApp com as enfermeiras coordenadoras dos CSF, que exercem uma supervisão indireta. Resultados e Discussão: Durante a realização do monitoramento de casos suspeitos e confirmados de COVID-19, foi possível executar de forma satisfatória ações que competem ao enfermeiro no âmbito da assistência, gestão, educação e investigação, mesmo que de forma diferente, mas com o enfoque integral aos pacientes, o que repercute na formação diferencial dos acadêmicos envolvidos. As tecnologias de informação tornaram possível que os acadêmicos realizassem telemonitoramento e, muitas vezes, teleconsultas de enfermagem respaldadas pela Resolução N° 634/2020 do Conselho Federal de Enfermagem,5 mantendo o distanciamento social. Em relação à dimensão assistencial, desenvolveram-se as competências clínicas dos acadêmicos, na observação de respiração, fala e alterações de quadro clínico dos pacientes, além de identificação de ansiedade, medo e solidão, denotando uma interface contínua com a saúde mental. Para um cuidado qualificado, os acadêmicos realizaram escuta ativa pautada em roteiro pré-elaborado de forma a identificar as demandas em saúde e realizar as orientações aos usuários, pautadas em evidências científicas, de forma ética e responsável, realizando os encaminhamentos necessários diante das particularidades, bem como embasados nos registros no sistema de informações em saúde municipal. Esse atendimento também possibilita o desenvolvimento da educação em saúde dos usuários sobre a COVID-19, testagem, fisiopatogenia e medicamentos, de modo a esclarecer dúvidas, compartilhar informativos via WhatsApp, evitando informações equivocadas a fim de contribuir com a saúde comunitária, impedir a procura desnecessária aos serviços, e permitir a assistência à saúde de forma remota.4 Além disso, o monitoramento realizado pelos acadêmicos de enfermagem possibilitou o aprendizado da sistemática de priorização dos pacientes com maior risco de agravamento dos sintomas e ativação da rede de atenção à saúde, organização do plano de trabalho por meio das planilhas e quantidade de pacientes a cada dia, indicadores de monitorização, estabelecimentos de metas e gerenciamento do sistema de informação. Destaca-se que essa atividade também contribuiu para auxiliar os profissionais das unidades de saúde que encontram-se sobrecarregados com outras demandas de atendimentos presenciais e remotas. Em relação à dimensão de pesquisa, a repercussão do monitoramento foi na construção de habilidades investigativas em relação ao quadro clínico dos pacientes, prática baseada em evidências, que na situação da COVID-19 está em constante atualização em vistas do reconhecimento da patologia, além de participação na análise dos relatórios advindos dos pacientes monitorados. Considerações finais: a realização do monitoramento de casos de COVID-19 oportunizou repercussões na formação acadêmica dos graduandos no que se refere às dimensões assistencial, gerencial, educativa e investigativa do processo de trabalho do enfermeiro, incluindo novos desafios quanto a adaptação ao contexto de distanciamento e ao teleatendimento, assim como no desenvolvimento de pensamento crítico-reflexivo frente aos pacientes e situações vivenciadas. Dessa maneira, os acadêmicos tiveram a oportunidade de estar desenvolvendo as competências necessárias para as atribuições do enfermeiro juntamente com a equipe de saúde da APS em um contexto atípico. Atuar no monitoramento é aprender a observar e analisar o contexto de saúde do paciente por meio da abordagem clínica e escuta ativa, realizando um cuidado integral, de forma a empoderar o usuário mesmo sem estar presencialmente com ele, denotando a essencialidade das competências do Enfermeiro nesse atendimento e acompanhamento dos casos de COVID-19. O telemonitoramento tem contribuído com a organização do enfrentamento à pandemia de COVID-19, possibilitando o aprendizado dos acadêmicos e o desenvolvimento de uma efetiva resposta à sociedade, considerando a responsabilidade social das instituições envolvidas.
