AÇÃO EDUCATIVA À MULHER RIBEIRINHA SOBRE PREVENÇÃO DE CÂNCER DO COLO UTERINO

Autores

  • Emily Aleixo da Silva Universidade Federal do Pará
  • Gabriel dos Santos Pereira Neto Universidade Federal do Pará
  • Mayara Carvalho Larrat Cristino Universidade Federal do Pará
  • Viviane Ferreira Ferraz de Aguiar Universidade Federal do Pará
  • Andreia Pessoa da Cruz Universidade Federal do Pará

Resumo

Introdução: No Brasil, a região Norte lidera maior incidência de câncer de colo uterino, cerca de 23,97 casos para cada 100.000 habitantes, evidenciando as maiores taxas de mortalidade e com predisposição temporal para o crescimento1. Concomitantemente, as comunidades tradicionais que habitam à beira dos rios da região Amazônica (ribeirinhos) possuem dificuldade de acesso aos serviços de saúde e fragmentação da integralidade do cuidado2. A realidade do Sistema Único de Saúde (SUS) é contraditória, visto que há fatores recorrentes relacionados a não adesão ao exame Preventivo de Câncer de Colo Uterino (PCCU), como o déficit de conhecimento a respeito da finalidade e importância, sentimentos relacionados ao constrangimento no momento do exame, falta de orientação/comunicação entre os profissionais da área da saúde e as pacientes, pautado em um modelo biomédico arcaico3.  Objetivo: Relatar uma experiência dos discentes de enfermagem da Universidade Federal do Pará (UFPA), durante uma ação educativa sobre prevenção de câncer do colo uterino por meio do exame PCCU. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, realizado no mês de março de 2019 em uma comunidade ribeirinha no Pará. A ida até a região é feita por meio de barco, em torno de 30 minutos. As atividades realizadas com a comunidade são realizadas em uma sede comunitária. Participaram dez mulheres, cuja média de idade foi de 32,1 anos com vida sexual ativa. Utilizou-se a roda de conversa como metodologia educativa, realizada na recepção da sede comunitária onde as coletas foram realizadas. Resultados e Discussão: Para iniciar a ação educativa, foi questionado se as pacientes conheciam e compreendiam a relevância do exame para a saúde da mulher. Cerca de 50% das participantes não compreendiam a importância do exame para a sua própria saúde e 10% afirmaram que tinham total desconhecimento sobre o mesmo. Por conseguinte, foi explicado sumariamente o que era o exame, como é realizado e a sua relevância imprescindível para a saúde da mulher. Para dar prosseguimento a ação, foi questionado se as que conheciam o exame haviam realizado no último ano, apenas 20% fizeram. Quando questionadas a respeito da longa periodicidade entre as coletas, informaram que além da questão econômica sentiam-se desconfortáveis durante a coleta, vergonha ao despir-se, dor durante o procedimento e relataram não se sentirem acolhidas antes, durante e depois por parte dos profissionais de saúde. É válido ressaltar que o último motivo foi unânime entre aquelas que não realizaram o exame dentro da periodicidade recomendada. Foi explicado pelos discentes, utilizando os materiais para a coleta, como o procedimento é realizado e a periodicidade preconizada pelo Ministério da Saúde4 e fomentaram novamente sobre a importância do exame, reforçando que estavam diante de profissionais da área da saúde dispostos a sanarem suas dúvidas e apoiá-las neste momento para que fossem acolhidas, encorajadas e empoderadas. Questionadas se utilizavam preservativos durante as relações sexuais, 80% alegaram não utilizar por conta da opressão por parte dos seus parceiros, mas que preferiam utilizá-los por se sentirem seguras e protegidas de Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST). Este momento da ação educativa tornou-se imprescindível, pois foi anteparo a estas mulheres, um espaço para se expressarem, pois 70% não possuem parceiros fixos e 80% não aderem aos preservativos, em suma, por decisão dos parceiros, sentem-se coagidas e cedem a imposição do parceiro, pois estes alegam manter relações sexuais somente com suas respectivas cônjuges. Em consonância com o perfil de mulheres atendidas na rede pública de saúde, indivíduos que convivem com companheiro fixo, via de regra não têm auto percepção de destrutibilidade para o surgimento de infecções que podem ser provenientes pela via sexual, resultando no julgamento equivocado para ausência de riscos, tanto pelos pacientes quantos pelos próprios profissionais de saúde5. Outrossim, 100% do espaço amostral desconhecia a existência dos preservativos femininos e as mesmas demonstraram interesse em conhecer. Foi demonstrado por meio de uma simulação, com o preservativo, a forma correta de utilizá-lo. Por fim, não havendo dúvidas entre as pacientes foram encaminhadas para a coleta. Mesmo com as orientações e ação educativa, muitas sentiram-se retraídas e desejaram desistir da coleta dentro da sala preparada para a realização do exame. Por tal razão é fundamental que os profissionais de saúde estejam capacitados não somente para realizar a técnica, mas que tenham empatia e sensibilidade para compreender que este é um momento delicado na vida dessas mulheres, pois é um exame que abrange a dimensão psicológica e as suas vivências, as condutas destes influenciam diretamente a adesão ao exame, o retorno dentro do período correto e uma experiência às pacientes que seja menos desconfortável possível. Ao final receberam uma rosa, como gesto simbólico, e todas agradeceram, alegando ser uma experiência única e inédita em suas vidas, sentindo-se importantes e foram gratas pela sensibilidade de todos os profissionais que estavam envolvidos. Apesar da resistência inicial, todas aderiram e realizaram o exame por espontânea vontade, sem quaisquer intercorrências.  Considerações finais: Torna-se imprescindível compreender a configuração do perfil do cuidado à saúde da mulher no Brasil na prática, bem como as lacunas existentes. Todas as pacientes eletivas ao exame o realizaram, despindo-se dos seus receios em prol de um bem maior, com o apoio dos discentes, futuros enfermeiros e dos demais profissionais que contribuíram para tal. O processo abordado é contínuo e inicialmente construído durante a graduação. Não basta vislumbrar o paciente somente com o olhar clínico, é necessário ser holístico, ter empatia e compreender a singularidade de cada ser, buscando a prevenção e promoção da saúde. Apesar dos obstáculos historicamente e socialmente construídos, a enfermagem se molda na contramão desses fatos e constrói futuros enfermeiros para serem agentes transformadores da realidade social.

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Publicado

14-04-2024