Comportamento Nutracêutico em laranja 'Valência' em função da presença de cancro cítrico
Palavras-chave:
Citrus sinensis, Xanthomonas axonopodis, Vitamina C, FruticulturaResumo
A laranjeira (Citrus sinensis) é uma das espécies frutíferas de maior importância econômica mundial, sendo amplamente cultivada em regiões de clima subtropical e tropical. No Brasil, o setor citrícola enfrenta desafios fitossanitários relevantes, com destaque para o cancro cítrico, doença bacteriana causada por Xanthomonas axonopodis, que compromete a produção e a comercialização dos frutos em diversas regiões produtoras. O Rio Grande do Sul é um dos maiores produtores de laranja do País, sendo que o Estado convive endemicamente com o cancro cítrico em várias de suas regiões produtoras, incluindo municípios do Alto Uruguai. Nesse cenário, compreender os efeitos da doença não apenas sobre aspectos produtivos, mas também sobre a qualidade química dos frutos torna-se fundamental para promover estratégias de manejo e viabilizar a citricultura regional. Entre as cultivares recomendadas para regiões de ocorrência endêmica do cancro, a 'Valência' destaca-se por seu nível moderado de resistência à doença e por suas excelentes características culturais, sendo amplamente indicada pela Embrapa Clima Temperado para o Rio Grande do Sul. Considerando a importância desses fatores, este trabalho avalia o efeito da presença do cancro cítrico sobre os componentes nutracêuticos em frutos da laranjeira 'Valência'. Os frutos foram coletados em pomar comercial em Novo Xingu-RS, acondicionados caixas térmicas e levados ao laboratório da UFFS, campus Chapecó onde foram imediatamente congeladas em frio convencional e posterior realizado as análises onde foram comparados os frutos oriundos de plantas com a presença da doença (T1) e plantas livres do cancro cítrico (T2). As variáveis analisadas foram: Teores de açúcares redutores, açúcares totais, vitamina C e compostos fenólicos. Para os açúcares redutores (CV = 2,62%), a partir do método de Sumner e Graham, os frutos provenientes de plantas livres do cancro (T2) apresentaram teor significativamente superior (3,25 g 100 mL⁻¹) em relação às plantas com a doença (2,67 g 100 mL⁻¹), sendo o único parâmetro em que houve diferença estatística entre os tratamentos. Esse resultado sugere que a infecção bacteriana pode interferir no metabolismo de carboidratos da planta, comprometendo a síntese ou o acúmulo de açúcares nos frutos. Para os açúcares totais (CV = 30%), realizada com metodologia colorimétrica Fenol-sulfúricoos, os valores de T2 (6,95 g 100 mL⁻¹) e T1 (6,86 g 100 mL⁻¹) não diferiram estatisticamente entre si, indicando que, embora a doença afete a fração redutora, o teor total de açúcares não é alterado de forma significativa, possivelmente pela compensação entre as frações. Quanto à vitamina C (CV = 2,16%), os teores foram de 68,62 e 65,17 mg 100 mL⁻¹ para T1 e T2, respectivamente, sem diferença estatística entre os tratamentos, indicando que a presença do cancro cítrico não compromete o teor desse antioxidante nos frutos da cultivar avaliada. De modo semelhante, os compostos fenólicos totais (CV = 4,82%), utilizando o método de Swain, não apresentaram diferença estatística entre os tratamentos, com valores de 89,48 mg GAE 100g⁻¹ MF para T1 e 80,39 mg GAE 100g⁻¹ MF para T2, embora haja uma tendência numérica de maior acúmulo de fenólicos nos frutos de plantas doentes, o que pode estar associado a uma resposta de defesa do metabolismo secundário da planta frente ao estresse biótico imposto pela infecção bacteriana, mas até o momento, sem diferenças significativas. De modo geral, conclui-se que a presença do cancro cítrico, embora exerça influência direta no bom desenvolvimento vegetativo da planta, se comporta de forma limitada sobre a qualidade química dos frutos da laranjeira 'Valência'. Nas condições edafoclimáticas de Novo Xingu-RS, foi observado efeito significativo apenas sobre os açúcares redutores, sendo os demais parâmetros preservados, o que reforça o potencial desta cultivar para regiões de ocorrência da doença quando associada a práticas adequadas de manejo fitossanitário e de manutenção das plantas em estado reprodutivo.
