PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA DENGUE NO BRASIL DE 2015 A 2024
Resumo
Introdução: A dengue é uma doença infecciosa febril aguda transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. O vírus da dengue (DENV), de RNA fita simples, pertence ao gênero Flavivirus e à família Flaviviridae. Esse agente etiológico pode se apresentar em cinco sorotipos antigenicamente distintos: DENV-1, DENV-2, DENV-3, DENV-4 e DENV-5. É uma arbovirose hiperendêmica em áreas urbanas e semiurbanas de climas tropicais e subtropicais. Os sintomas incluem febre alta, cefaléia, náusea, vômito, desidratação, exantema, petéquias, equimoses, hemorragia, mialgia, artralgia e dor retro-orbicular (Brasil, 2025a). A dengue está incluída, como agravo, na Lista de Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nesse cenário, a doença está associada, também, a estigmas e à exclusão social de populações negligenciadas, que perpetuam um ciclo de resultados educacionais precários e de oportunidades profissionais limitadas (WHO, 2025). No Brasil, no ano de 2024 foram notificados 6,4 milhões de casos, um aumento de mais de 320% em relação ao ano anterior (Brasil, 2025b). As características socioeconômicas regionais são determinantes fundamentais para os padrões de distribuição espacial de dengue no Brasil. Fatores como o Produto Interno Bruto (PIB), a urbanização e o saneamento básico, em conjunto, superam o determinante temperatura no aumento do número de casos da doença (Simon, Rangel, 2021). Assim, torna-se uma das grandes preocupações de saúde pública nacional. Objetivo: Esse estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico da dengue nas cinco regiões brasileiras no período de 2015 a 2024. Metodologia: Esta pesquisa adotou uma abordagem epidemiológica, observacional, descritiva, transversal, analítica e retrospectiva. As fontes de dados utilizadas foram o Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Brasil (SINAN), do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde do Brasil (DATASUS), compreendendo os dados de dengue, no Brasil, de 2015 a 2024. Os dados populacionais de faixa etária para os cálculos de incidência foram coletados no Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE, 2022). As variáveis analisadas foram o número de casos prováveis e óbitos por dengue notificados no período, identificados por ano, região do país, faixa etária e sexo. O estudo foi desenvolvido de acordo com os preceitos das Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Resultados e discussão: No Brasil, foram registrados 16.109.568 casos prováveis de dengue notificados no período de 2015 a 2024. O maior número de casos confirmados foi no ano de 2024 (6.454.399) e o menor número de casos, no intervalo de tempo dessa pesquisa, ocorreu no ano de 2017 (241.865). Durante o período de 2015 a 2024, a região Sudeste foi a que apresentou maior número absoluto de casos e de óbitos de dengue. Entretanto, em termos relativos, quando analisado o número de casos de indivíduos infectados e de casos de mortalidade pelo vetor, na população residente local de cada grande região brasileira, a macrorregião Centro-Oeste foi a que obteve a maior incidência de casos e de óbitos, a cada 100 mil habitantes. Com relação à idade da população acometida foi identificado que a maior parte das notificações no país ocorreu na faixa etária de 20 a 39 anos, seguida pela faixa etária de 40 a 59 anos. Na população feminina, a incidência foi maior na faixa etária de 15 a 19 anos, seguida de 20 a 39 anos. Já na população masculina, a incidência foi maior na faixa etária dos 15 aos 19 anos, seguida dos 10 aos 14 anos de idade. Em relação ao sexo, o feminino foi o mais acometido, com 8.841.760 casos notificados. No período de 2015 a 2024, a região sul apresentou a maior taxa de letalidade (0,094%), seguida da região Centro-Oeste (0,090%). A região Nordeste apresentou a menor taxa de letalidade das cinco regiões estudadas (0,054%). Entretanto, ao analisar a incidência de casos e de óbitos no período referido, a região Norte configurou-se com a maior taxa de letalidade e, a região Centro-Oeste, a menor. O maior número de casos na região Sudeste pode estar relacionado à maior densidade populacional, ao diagnóstico precoce, a maior cobertura de serviços de saúde e a elevada urbanização da região. A mobilidade humana pode afetar a disseminação do vírus, particularmente, em grandes cidades tropicais. Os fatores meteorológicos que mais explicam os casos de dengue são: velocidade do vento, precipitação, temperatura mínima e temperatura máxima. O aumento na temperatura pode aumentar a quantidade e reduzir o tempo de desenvolvimento do vetor. Observou-se uma queda do número de notificações de dengue durante os anos de 2017 e de 2018. Por outro lado, nos anos de 2015, 2016, 2019 e 2024 houve um pico nos casos, fator esse que pôde estar relacionado ao aumento dos índices pluviométricos e à introdução do sorotipo DENV-2 que se tornou o mais prevalente. Em contrapartida, durante a pandemia do Sars-Cov-2 houve diminuição no número de casos, o que pode ser explicado por subnotificação devido à sobrecarga dos serviços de saúde, na redução das atividades ao ar livre e no distanciamento social. Durante o período estudado, o Brasil registrou 12.137 óbitos confirmados por dengue. Embora a taxa de mortalidade seja relativamente baixa em relação ao número total de casos, os óbitos ocorrem, majoritariamente, entre pacientes mais vulneráveis, como idosos, crianças e pessoas com comorbidades. As mulheres foram as mais afetadas pela doença. Esse dado pode ser atribuído ao fato de que o sexo feminino tende a buscar serviços de saúde com mais frequência do que os homens, o que pode resultar em um maior número de diagnósticos (Guedes, Figueiredo, Medeiros, 2025). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O estudo relaciona-se ao eixo saúde e bem-estar dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Nesse contexto, por meio dos resultados obtidos e através de sua análise, é possível traçar políticas públicas de fortalecimento de campanhas contra a dengue em populações-chaves, regiões e faixas etárias específicas, assim como o correto direcionamento do dinheiro público, com o intuito de promover saúde, educação e bem-estar à população brasileira vulnerável à epidemia da dengue. Considerações finais: O perfil epidemiológico da dengue, no período estudado, seguiu um padrão de distribuição heterogênea, com oscilações crescentes e decrescentes, contando com um aumento significativo, nas cinco macrorregiões brasileiras, no ano de 2024. Verificou-se que a circulação do vírus teve maior incidência em adolescentes e adultos jovens, especialmente do sexo feminino, da região Sudeste e Centro-Oeste. Esse cenário evidencia um sinal de que novos patamares de transmissão devem se tornar padrão nos próximos anos no Brasil.
