UM OLHAR PARA A FORMAÇÃO DE DOCENTES: PERCEPÇÕES DE MESTRANDAS EM ENFERMAGEM

Autores

Resumo

Introdução: O direito à educação de qualidade é de extrema relevância para o desenvolvimento social, tão logo é assegurado pela Agenda 2030 das Nações Unidas como linha estruturante do desenvolvimento sustentável. Ao possibilitar uma formação de qualidade à população, a educação impulsiona a inovação, equidade e o crescimento socioeconômico, compondo um instrumento essencial para a diminuição de vulnerabilidades e a consolidação da democracia (BRASIL, 2014). Nesse contexto, a universalização do acesso à educação de qualidade deve vir acompanhada de políticas de qualidade que promovam a aprendizagem ao longo da vida e a transformação social das comunidades atendidas. Na área da saúde a educação é vital, a educação em enfermagem desponta como estratégia decisiva para a qualificação da assistência e a segurança do paciente. As diretrizes nacionais de 2021 para os cursos de Enfermagem advertem a necessidade de currículos críticos, capazes de articular teoria, prática e responsabilidade social (BRASIL, 2021). Profissionais enfermeiros bem formados são fundamentais para alcançar a cobertura universal de saúde, através do estabelecimento de programas acadêmicos que favoreçam o pensamento científico, a ética profissional e a competência clínica. Como processo permanente, a formação continuada de educadores responde aos desafios de um cenário pedagógico dinâmico e instável, marcado por metodologias ativas, tecnologias digitais e demandas de aprendizagem centradas no estudante. Projetos de extensão universitária também assumem papel significante nesse contexto, ao integrar saber acadêmico e necessidades comunitárias, viabilizando espaços de capacitação colaborativa baseados em princípios de andragogia ou também conhecida como a popular “educação de adultos”  e reflexão-na-ação (Knowles, 1984) (Schön, 1987). Relatos de experiência são uma boa estratégia para tornar visíveis e divulgar tais práticas, permitindo analisar contextos, estratégias e resultados prévios de forma crítica. Diante deste cenário considera-se profícuo o relato de uma formação docente derivada de um projeto de extensão denominado “Oficina de Formação Docente: Implementação do novo Projeto Pedagógico de Curso (PPC) da Enfermagem”, promovido pela coordenação do curso de graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) campus Chapecó (SC). Objetivo: Descrever a percepção de mestrandas em Enfermagem sobre o desenvolvimento de uma atividade de formação docente relativa  ao novo PPC implementado. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência, que descreve, analisa e reflete criticamente sobre uma prática acadêmica vivenciada em contexto real. A experiência é oriunda da participação de duas mestrandas em Enfermagem em uma formação docente de nível superior, que ocorreu no dia vinte e cinco de abril de 2025, no turno vespertino, nas dependências da UFFS campus Chapecó, em uma sala de aula equipada com recursos multimídia e acesso à internet, propiciando a integração de estratégias presenciais e digitais e envolveu 26 docentes que atuam na graduação em enfermagem. Resultados e Discussão: O registro formal da presença, necessário para certificação dos participantes, deu-se por meio de um formulário eletrônico hospedado no Google Forms, que permitiu contabilizar e validar a adesão ao evento. Foi observado que vários docentes chegaram após o horário previsto para o início das atividades o que impactou no horário de início das atividades. A formação foi organizada na modalidade de uma oficina de debate, e buscou proporcionar, simultaneamente, aprimoramento de competências pedagógicas, reforço da responsabilidade social universitária e estabelecimento de espaços de diálogo entre saberes disciplinares e práticas educacionais contemporâneas. Participaram da organização do encontro quatro docentes do curso de graduação em Enfermagem, responsáveis pela facilitação, e duas mestrandas do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, que atuaram como monitoras e colaboradoras na organização e condução. Foram utilizadas ferramentas interativas apoiadas por metodologias ativas. Em dois momentos distintos recorreu-se ao recurso online Mentimeter para criar nuvens de palavras sobre as potencialidades e fragilidades percebidas pelos docentes em relação à nova proposta pedagógica, estimulando o debate coletivo e a reflexão crítica imediata. Durante a capacitação foi possível perceber, logo nos primeiros momentos, um ambiente permeado por conversas paralelas e frequentes desvios de atenção. Ainda que a proposta formativa tivesse sido amplamente divulgada e contasse com recursos didáticos modernos (técnicas de metodologia ativa de aprendizagem) a interação entre os participantes desviava-se do tópico central com relativa facilidade, comprometendo a fluidez das discussões e dificultando a construção coletiva de conhecimento. Esse comportamento tornou-se particularmente expressivo por envolver docentes que, em seu cotidiano profissional, exigem dos acadêmicos disciplina, foco e atenção. Ao assumirem o papel de estudante, porém, reproduziram práticas desafiadoras que costumam enfrentar em sala de aula, evidenciando um descompasso entre o discurso pedagógico e a prática real. Tal contradição sugere que a autoridade atribuída à docência não garante, por si só, postura reflexiva quando esses profissionais transitam para a condição de capacitados. O uso constante de dispositivos eletrônicos também reforçou o quadro de dispersão. Celulares e notebooks foram acionados para fins alheios às dinâmicas propostas, fragmentando ainda mais a interação coletiva. A ausência de combinados prévios sobre etiqueta digital contribuiu para o cenário de competição direta entre a capacitação e os estímulos externos. No entanto, os fatos apresentados também podem representar uma nova oportunidade de reflexão, visto que a formação continuada de professores se estabelece como um dos pilares para se pensar novas posturas didáticas e formas diversificadas nas relações pedagógicas (Souto; Mariz, 2023), a reflexão sobre as próprias atitudes perante a atividade pode promover uma nova postura destes docentes em sala de aula. Além disso, a constituição de grupos numerosos de trabalho reduziu a responsabilidade individual e favoreceu zonas de conforto. Os participantes sentiram-se à vontade para manter diálogos privados ou simplesmente acompanhar passivamente as atividades, confiando que outros assumiriam a produção de respostas ou relatórios. A combinação de equipes menores, tarefas com produtos concretos e distribuição de papeis bem definidos poderia ter funcionado como mecanismo de engajamento e de corresponsabilização coletiva. No entanto é necessário incentivar o protagonismo do docente mesmo em situações adversas, visto que a formação continuada docente deve ser abordada não apenas como procedimental ou como um processo para suprir lacunas da formação inicial de professores, mas sim como algo inerente ao exercício da docência, sendo assim, trata-se de um processo de autoformação em que o profissional assume naturalmente um papel de protagonismo (Souto; Mariz, 2023) a fim de ser efetiva. Ao final da atividade os docentes participantes responderam um formulário de avaliação anônimo, hospedado também na plataforma Google Forms, e de modo geral as respostas descreveram um bom aproveitamento da ação formativa para o cotidiano de trabalho, não obstante um dos participantes discordou parcialmente que a ação tenha contribuído para que ele se sentisse mais preparado(a) para atuar com o novo PPC, e também um(a) participante expressou dificuldade, mesmo após a ação, em entender os fundamentos da curricularização da extensão. As estratégias utilizadas foram unanimemente vistas como positivas e efetivas, e a reflexão crítica também foi unanimemente dada como promovida, segundo a avaliação. O que foi notado como mais relevante foi a troca entre os docentes, o que pode sugerir que mesmo os menos participativos puderam absorver novos conhecimentos de forma eficiente, a partir da exposição das experiências dos demais, e dentre as sugestões se destaca fortemente a necessidade de ocorrência de mais momentos como este, e que estes disponham de mais tempo para sua realização. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: o presente estudo está alinhado ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 4- Educação de qualidade, sendo melhor especificado à meta 4.c que prevê até 2030, substancialmente aumentar o contingente de professores qualificados. A qualificação profissional é indispensável para um bom exercício da docência, notoriamente no ensino superior em Enfermagem, já que a formação de bons enfermeiros também impacta diretamente no ODS 3- Saúde e Bem-Estar, com sua atuação assistencial, gerencial, educacional e de pesquisa, enfermeiros podem influenciar na meta 3.8: Atingir a cobertura universal de saúde, incluindo a proteção do risco financeiro, o acesso a serviços de saúde essenciais de qualidade e o acesso a medicamentos e vacinas essenciais seguros, eficazes, de qualidade e a preços acessíveis para todos. Considerações finais: Destaca-se que a experiência de monitoria em formação docente pelas mestrandas foi de grande valia para a formação acadêmica e profissional. Diante das constatações foram identificadas a necessidade de estabelecer, desde o início, um contrato pedagógico claro que detalhe objetivos, expectativas de participação e normas de convivência digital, além do alerta e forte recomendação futura em alternar exposições breves com micro atividades interativas, integrar conscientemente os dispositivos eletrônicos como ferramentas de coleta e debate em tempo real, formar subgrupos reduzidos com atribuições específicas e, por fim, garantir reconhecimento institucional do esforço empreendido pelos participantes. A adoção desses ajustes tende a converter potenciais distrações em oportunidades de aprendizagem significativas, fortalecendo a cultura de desenvolvimento profissional entre os docentes.

Downloads

Publicado

16-01-2026