AVALIAÇÃO DA DOR E QUALIDADE DE VIDA NO  CÂNCER DE MAMA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

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Resumo

Introdução: O câncer de mama representa um dos maiores desafios de saúde pública no cenário global, tanto pela elevada incidência quanto pelas repercussões físicas, emocionais e sociais que este agravo provoca. Estima-se que, em 2020, tenham ocorrido mais de 2,3 milhões de novos casos de câncer de mama no mundo, consolidando-o como a neoplasia mais prevalente entre mulheres, com tendência de crescimento especialmente em países de média e baixa renda (Sung et al., 2021). No Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de mama é a neoplasia mais incidente na população feminina, com impacto expressivo na mortalidade e morbidade (INCA, 2022).  Embora os avanços terapêuticos tenham contribuído para a redução da mortalidade e aumento da sobrevida, o impacto psicossocial da doença permanece expressivo. Entre os sintomas mais prevalentes está a dor, considerada uma experiência complexa e multifatorial, resultante não apenas do tumor, mas também dos efeitos colaterais dos tratamentos. Essa manifestação não se restringe ao aspecto físico, englobando componentes psicológicos, sociais e espirituais que intensificam o sofrimento total. Nesse contexto, compreender e estudar a dor torna-se essencial para elaborar estratégias de cuidado que promovam qualidade de vida e bem-estar às pacientes. Objetivo: O presente estudo tem como objetivo relatar a experiência de coleta de dados para avaliação do impacto da dor na qualidade de vida de pacientes com câncer de mama, destacando tanto as estratégias metodológicas quanto às implicações formativas e humanísticas dessa vivência. Metodologia: O trabalho insere-se em um estudo quali-quantitativo, observacional e transversal, realizado nas instituições Rede Feminina de Combate ao Câncer e Ação Social Diocesana, situadas no município de Chapecó, Santa Catarina. O projeto foi previamente submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal da Fronteira Sul e aprovado sob CAAE 83334524.0.0000.5564, assegurando os princípios éticos de pesquisas envolvendo seres humanos. Todas as participantes foram informadas acerca dos objetivos e procedimentos do estudo e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.  A coleta de dados foi conduzida em ambientes reservados, garantindo privacidade e conforto. Foram utilizados dois instrumentos de pesquisa: a Ficha de Identificação, destinada à coleta de dados sociodemográficos e clínicos, e o Questionário de Dor de McGill – versão brasileira (Br-MPQ), validado para o contexto nacional e que engloba em suas perguntas não apenas a intensidade da dor, mas também seus aspectos sensoriais, afetivos e avaliativos. O processo incluiu acolhimento inicial com escuta ativa, aplicação dos instrumentos e registro de observações quali-quantitativas. Resultados e discussão: A experiência de coleta evidenciou manifestações de dor variadas quanto à intensidade, localização e frequência. Algumas participantes relataram dor contínua e crônica, enquanto outras referiram episódios agudos relacionados a procedimentos terapêuticos. As descrições incluíram dor em queimação, latejante e opressiva. Além da dimensão física, os relatos revelaram forte componente afetivo, permeado por sentimentos de medo, ansiedade e angústia. Para algumas pacientes, a dor era lembrança constante da doença, impactando diretamente sua qualidade de vida. Também foram relatadas limitações funcionais significativas, como dificuldade para dormir, redução da mobilidade, restrições no trabalho e nas atividades de lazer. Os achados corroboram pesquisas anteriores que identificam a dor como um dos sintomas mais prevalentes no câncer de mama, presente em até 80% das pacientes a depender do estágio e das terapias adotadas (Costa et al., 2017). No contexto brasileiro, o estudo demonstrou que a maioria das mulheres relatou dor de intensidade moderada, afetando de maneira relevante atividades cotidianas, autocuidado e relações sociais (Costa et al., 2017). Esses dados reforçam a necessidade de compreender a dor em sua totalidade, não apenas como um fenômeno físico mensurável, mas também como uma experiência subjetiva e multidimensional que influencia o processo de adoecimento. Do ponto de vista formativo, a vivência foi significativa para os discentes envolvidos. O contato direto com as pacientes exigiu não apenas rigor técnico na aplicação dos instrumentos, mas também escuta empática e sensibilidade diante das narrativas pessoais. A pesquisa reforçou a importância da humanização no cuidado, destacando que a prática médica deve aliar competência técnica e respeito à individualidade de cada paciente. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O estudo se relaciona diretamente ao ODS 3 – Saúde e Bem-Estar, especialmente à meta 3.4, que busca reduzir a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis e promover saúde mental e bem-estar até 2030. Avaliar e compreender a dor em pacientes com câncer de mama contribui para estratégias de cuidado mais eficazes e integradas, voltadas não apenas para a sobrevida, mas também para a qualidade de vida. Além disso, a pesquisa também se articula com o ODS 4 – Educação de Qualidade, por promover formação integral e humanística dos estudantes de saúde; com o ODS 5 – Igualdade de Gênero, uma vez que o câncer de mama afeta majoritariamente mulheres e o acesso ao cuidado de qualidade é essencial para a equidade; e com o ODS 10 – Redução das Desigualdades, já que a coleta ocorreu em instituições que atendem populações em situação de vulnerabilidade, favorecendo a inclusão e o acesso à pesquisa. Assim, o trabalho reforça o compromisso da prática científica com metas globais de promoção da saúde, equidade e sustentabilidade (Nações Unidas Brasil, 2025). Considerações finais: A experiência de coleta de dados possibilitou uma análise abrangente da dor em pacientes com câncer de mama, revelando sua natureza multidimensional e suas repercussões físicas, emocionais e sociais. Os relatos reforçaram a necessidade de abordagens terapêuticas humanizadas e individualizadas, que considerem não apenas os sintomas físicos, mas também as dimensões afetivas e existenciais. Para os discentes, a vivência foi transformadora, pois favoreceu o desenvolvimento de habilidades técnicas e éticas, além de estimular uma prática médica mais empática e centrada no paciente. Entre as limitações do trabalho, destaca-se o caráter transversal e o número reduzido de participantes, o que restringe a generalização dos resultados. Sugere-se que futuras investigações ampliem a amostra, considerem diferentes contextos socioculturais e explorem intervenções integradas de manejo da dor. Em síntese, conclui-se que a dor no câncer de mama é um fenômeno complexo que exige olhar ampliado e interdisciplinar, e que a experiência relatada contribuiu tanto para o avanço científico quanto para a formação humanística dos profissionais em formação.

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Publicado

16-01-2026