EXERCÍCIO FÍSICO, SAÚDE MENTAL E MORTALIDADE PREMATURA: EVIDÊNCIAS E ROTAS PARA A META 3.4

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Resumo

Introdução: a Meta 3.4 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propõe reduzir, até 2030, a mortalidade prematura (30–69 anos) por doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) mediante prevenção e tratamento ao passo que, simultaneamente, propõe promover a saúde mental e o bem‑estar (United Nations, s.d.). Nesse horizonte, o exercício físico (prática planejada, estruturada e repetitiva, prescrito com dose, intensidade e progressão) surge como alavanca dupla neste estudo, (entretanto, ele vai muito além em termos de benefícios): atua terapêuticamente sobre sintomas depressivos e contribui para reduzir riscos clínicos associados às DCNT, com elevada viabilidade na Atenção Primária à Saúde (APS). Objetivo: sintetizar criticamente as melhores evidências recentes sobre os efeitos do exercício aeróbico e do fortalecimento muscular na depressão e em desfechos de mortalidade relevante (ou proxies robustas, como reinternações cardiovasculares), em adultos, e traduzir os achados em recomendações operacionais para serviços de APS alinhadas à Meta 3.4. Metodologia: conduziu‑se revisão integrativa (2015–2025) nas bases PubMed/Medline, Scopus e SciELO, priorizando revisões sistemáticas/meta‑análises e coortes de grande porte (idiomas: português, inglês e espanhol; sem restrição geográfica). Incluíram‑se estudos com adultos, intervenções de exercício aeróbico e/ou treinamento de força com duração ≥ 4 semanas; desfechos em sintomas depressivos (escalas validadas) e/ou mortalidade/hard outcomes (p.ex., hospitalizações e reinternações cardiovasculares); e estimativas de efeito reportadas. Triagem, elegibilidade e extração foram realizadas em duplicidade (dupla checagem independente), e os achados foram organizados por perguntas de revisão, descritos quanto à direção, magnitude e aplicabilidade em serviços. Resultados e discussão: emergiram três eixos de evidência e um bloco de implementação. (1) No que tange a exercício como tratamento da depressão, a síntese contemporânea mais abrangente confirma que exercício físico reduz sintomas depressivos em adultos, com efeito global significativo e boa tolerabilidade; caminhada/corrida, yoga e treinamento de força figuram entre as modalidades mais eficazes, e há gradiente de intensidade (maior dose útil, maior resposta), sem prejuízo de segurança (Noetel et al., 2024). Em recorte específico, o treinamento de força demonstrou tamanho de efeito moderado em comparação a condições controle, sustentando sua inclusão de rotina inclusive em serviços comunitários com recursos limitados (Gordon et al., 2018). (2) No que tange a reabilitação cardiovascular e desfechos clínicos, em cardiopatia isquêmica, a reabilitação baseada em exercício é padrão de cuidado e está associada a redução de internações/reinternações e melhora de qualidade de vida; embora a heterogeneidade e o seguimento variável limitem estimativas conclusivas para mortalidade por todas as causas, há sinais de redução de desfechos cardiovasculares versus o cuidado usual e balanço benefício‑risco favorável, o que respalda a expansão dessa tecnologia nas redes de DCNT (Dibben et al., 2021). Quanto às práticas mais efetivas para redução do risco cardiovascular, a literatura converge para três pilares: (a) treino aeróbico contínuo de intensidade moderada, como caminhada rápida, ciclismo, corrida leve ou natação, com progressão de volume e intensidade; (b) treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT) supervisionado, quando clinicamente elegível; e (c) modelo combinado aeróbico + fortalecimento (com duas sessões semanais para grandes grupos musculares), que otimiza marcadores cardiometabólicos e é padrão em programas de reabilitação. (3) No que tange ao fortalecimento muscular e mortalidade, em meta‑análise de coortes indica que atividades de fortalecimento se associam a 10–17% menor risco de mortalidade por todas as causas, doenças cardiovasculares e câncer; observa‑se padrão em “J”, no qual 30–60 min/semana concentram a maior parcela do benefício, com ganho adicional quando o fortalecimento se combina ao exercício aeróbico, base para prescrição mínima efetiva na APS (Momma et al., 2022). Contudo, os resultados indicam rotas práticas e efetivas para a APS: prescrição breve de exercício com metas progressivas (3–5 sessões/semana, 30–60 min, incluindo duas sessões de força/semana), grupos comunitários supervisionados de caminhada e força (peso corporal, elásticos ou pesos livres) em espaços públicos com apoio de profissionais e agentes comunitários, rastreamento e manejo da depressão com instrumentos validados (p.ex., PHQ‑9) dentro das linhas de cuidado de DCNT, e arranjos intersetoriais (urbanismo tático, transporte ativo, uso seguro de praças e escolas) para reduzir barreiras de acesso e impulsionar adesão. São medidas simples, escaláveis e equitativas, com priorização de territórios de maior carga de DCNT e vulnerabilidade social, onde o ganho absoluto tende a ser maior. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: o mapeamento apoia dois mecanismos convergentes para a Meta 3.4: (i) o exercício alivia sintomas depressivos (melhorando sono, energia, cognição e engajamento no cuidado) e (ii) reduz risco clínico por DCNT (via melhora da aptidão cardiorrespiratória, força muscular e parâmetros cardiometabólicos). Ao combinar essas vias no mesmo percurso assistencial, políticas públicas podem diminuir a mortalidade prematura com custo‑efetividade e sustentabilidade (United Nations, s.d.; Noetel et al., 2024; Dibben et al., 2021; Momma et al., 2022). Considerações finais: mover o corpo e cuidar da mente no mesmo percurso assistencial constitui estratégia de alto valor para acelerar a Meta 3.4 com humanidade, pragmatismo e foco em equidade; começar simples, como caminhar regularmente e realizar duas sessões semanais de força, captura grande parte do benefício; somar isso ao rastreamento e manejo da depressão, apoiado por ambientes que favoreçam o deslocamento ativo, multiplica o impacto populacional (Noetel et al., 2024; Gordon et al., 2018; Dibben et al., 2021; Momma et al., 2022; United Nations, s.d.).

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Publicado

16-01-2026