EPIDEMIOLOGIA DA SÍNDROME RESPIRATÓRIA AGUDA GRAVE EM POPULAÇÕES INDÍGENAS DO SUL DO BRASIL
Resumen
Introdução: a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) constitui um relevante desafio à saúde pública global, sendo uma condição clínica de disfunção respiratória severa com elevada morbimortalidade. Populações indígenas apresentam alta vulnerabilidade a doenças infecciosas, como as respiratórias, devido a uma complexa interação de determinantes socioeconômicos, culturais, ambientais e barreiras de acesso aos serviços de saúde (Da Luz, 2024). No Brasil, a vigilância epidemiológica da SRAG em territórios indígenas é fundamental para a detecção precoce de surtos e para subsidiar políticas públicas específicas e culturalmente pertinentes. O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Interior Sul abrange áreas nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com uma diversidade étnica e geográfica que impõe desafios singulares à atenção à saúde. Portanto, a análise comparativa do perfil da SRAG entre os polos base (PB) deste DSEI é essencial para compreender as dinâmicas locais da doença e identificar disparidades que demandam intervenções prioritárias. Objetivo: caracterizar o perfil sociodemográfico e clínico-epidemiológico dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave notificados em populações indígenas de quatro PB (Chapecó, Ipuaçu, Passo Fundo e Guarita) do DSEI Interior Sul. Metodologia: trata-se de um estudo epidemiológico, transversal e descritivo, com base em dados secundários do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), referentes às notificações de SRAG entre os anos de 2020 e 2024. A população do estudo compreendeu todos os casos confirmados de SRAG em indivíduos indígenas, residentes na área de abrangência dos PB de Chapecó, Ipuaçu, Passo Fundo e Guarita. Foram analisadas variáveis sociodemográficas (sexo, faixa etária, escolaridade, etnia), temporais (ano de notificação, tempo até o atendimento) e clínico-epidemiológicas (hospitalização, internação em UTI, uso de suporte ventilatório, classificação final e evolução do caso). A análise estatística foi realizada por meio do teste qui-quadrado de Pearson para avaliar associações entre as variáveis categóricas e os PB (p<0,05). A força da associação foi medida pelo coeficiente V de Cramer. Por utilizar dados secundários, de domínio público, agregados e anonimizados, o estudo dispensa aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com a Resolução CNS 466/12. Resultados e discussão: a análise dos dados de SRAG nos quatro PB do DSEI Interior Sul revela uma heterogeneidade epidemiológica. Embora inseridos no mesmo distrito sanitário, os polos de Chapecó, Ipuaçu, Passo Fundo e Guarita apresentam perfis distintos de morbidade, vulnerabilidades sociodemográficas, capacidade diagnóstica e desfechos clínicos. Entre 2020 e 2024 foram registrados 442 casos nos quatro polos, dos quais houveram 31 registros em Chapecó, 64 em Ipuaçu, 109, em Passo Fundo e 238 em Guarita. Tais disparidades sugerem a necessidade de abordagens de vigilância e assistência territorializadas. A distribuição temporal dos casos variou significativamente entre os polos (p<0,001), refletindo dinâmicas de transmissão viral distintas. O polo de Passo Fundo, por exemplo, concentra quase metade de seus casos (48,6%) no ano de 2020, o primeiro da pandemia de covid-19. Em contraste, Chapecó registrou seu pico de notificações apenas em 2022, com 58,1% do total de seus casos. Esta variação temporal sugere uma circulação heterogênea de patógenos respiratórios, influenciada por fatores como a emergência de novas variantes de SARS-CoV-2, de cepas de Influenza e o ressurgimento de outros vírus respiratórios em um cenário de mudanças na imunidade populacional e nas medidas de saúde pública (Oliveira et al., 2025). O acesso aos serviços de saúde, um indicador crítico da qualidade da atenção primária, também se mostrou desigual (p<0,001). Enquanto o PB Guarita conseguiu realizar o atendimento de 8,8% de seus casos em menos de 24 horas, essa agilidade não foi observada nos PB Chapecó e Ipuaçu, que não registraram nenhum atendimento neste intervalo de tempo. A maioria dos indivíduos em todos os polos levou de 3 a 10 dias para receber o primeiro atendimento, um atraso que pode ser decisivo para o prognóstico de um quadro de SRAG (Ribeiro et al., 2023). Esta demora pode ser atribuída a diversos fatores, como barreiras geográficas, dificuldades de transporte desde as aldeias até as unidades de saúde, e possíveis barreiras culturais que influenciam a percepção da gravidade da doença e a busca por cuidado. O perfil sociodemográfico das populações acometidas expõe vulnerabilidades específicas em cada polo. A diferença na distribuição por faixa etária foi significativa (p<0,001). O PB Chapecó apresentou um perfil predominantemente pediátrico, com 64,6% dos casos concentrados em crianças menores de 4 anos, sendo 45,2% na faixa etária de 1 a 4 anos. Em contrapartida, os polos de Passo Fundo e Guarita registraram uma carga de doença significativamente maior em idosos com 60 anos ou mais (33,0% e 22,6%, respectivamente), um perfil mais característico da morbimortalidade associada à covid-19 e à influenza em populações com maior prevalência de comorbidades. A etnia predominante foi a Kaingang, especialmente em Guarita (88,7%), reforçando a necessidade de ações de saúde culturalmente orientadas. Contudo, a análise teve elevada proporção de “Ignorado” em Ipuaçu (56,3%), Passo Fundo (35,8%) e Chapecó (35,5%). Esta lacuna no registro de dados é um problema crônico na saúde indígena e invisibiliza a real dimensão dos problemas de saúde em etnias específicas (Barbosa; Caponi, 2022). A escolaridade, como determinante social da saúde, também variou significativamente (p<0,001), com Ipuaçu e Chapecó registrando os maiores percentuais de indivíduos sem escolaridade ou analfabetos. O expressivo volume de dados “Ignorados” sobre escolaridade em Passo Fundo (33,9%) impede uma análise mais robusta, mas indica uma falha sistêmica no processo de notificação. As diferenças no perfil clínico-assistencial e nos desfechos são ainda mais alarmantes. Apesar de Passo Fundo apresentar a menor taxa de hospitalização (50,5%), foi o polo com a maior proporção de internações em UTI (70,6%) e um dos maiores usos de ventilação mecânica invasiva (29,4%). Este achado pode sinalizar duas hipóteses não excludentes: (i) uma hospitalização seletiva de casos de maior gravidade ou (ii) uma maior capacidade instalada de leitos de terapia intensiva na rede de referência do polo. A etiologia da SRAG também apresentou um padrão distinto entre os polos (p<0,001). Enquanto a covid-19 foi o principal agente em Chapecó (35,5%), a Influenza predominou em Passo Fundo (33,0%) e Guarita (30,7%), e outros vírus respiratórios, como adenovírus, vírus sincicial respiratório e rinovírus, foram as principais causas em Ipuaçu (28,1%). Esta variabilidade etiológica sublinha a importância de um sistema de vigilância laboratorial robusto, capaz de identificar diferentes patógenos para orientar medidas de prevenção, como campanhas de vacinação, e o manejo clínico adequado. A alta proporção de casos classificados como "SRAG por outro agente etiológico" ou "não especificado" em Chapecó (48,4%) e Guarita (35,3%) é um achado crítico. Este resultado indica uma provável fragilidade na vigilância laboratorial, seja por dificuldades na coleta de amostras, logística de transporte ou acesso limitado a testes moleculares, comprometendo o conhecimento da circulação viral e a efetividade da vigilância epidemiológica (Brasil, 2022). Nesse contexto, a análise da evolução dos casos revela a disparidade mais contundente. O polo Chapecó registrou uma taxa de cura de 71,0%, um valor drasticamente superior aos demais, que ficaram abaixo de 40%. Em contrapartida, os polos de Passo Fundo, Ipuaçu e Guarita apresentaram proporções alarmantes de dados ignorados sobre a evolução (45,9%, 35,9% e 34,5%, respectivamente) e de óbitos ainda em investigação (18,3%, 25,0% e 22,3%, respectivamente). A elevada proporção de casos com evolução ignorada ou em investigação representa uma falha crítica do sistema de vigilância, pois impede o cálculo acurado de indicadores essenciais, como a letalidade. Consequentemente, a mortalidade real pela doença nestes territórios pode estar subestimada, mascarando a verdadeira gravidade do cenário epidemiológico. A discrepância entre a alta taxa de cura em Chapecó e os desfechos incertos ou negativos nos outros polos indica que, para além do perfil epidemiológico, existem iniquidades estruturais na rede de atenção à saúde indígena que precisam ser investigadas e corrigidas. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: este estudo alinha-se diretamente ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 (Saúde e Bem-Estar), especificamente à meta 3.3 (acabar com as epidemias de doenças transmissíveis). Ao mapear as vulnerabilidades e disparidades da SRAG em populações indígenas, a pesquisa oferece evidências para o fortalecimento de sistemas de vigilância e resposta em saúde, visando maior equidade e eficácia. Adicionalmente, ao expor as desigualdades no acesso e nos desfechos clínicos, o trabalho dialoga com o ODS 10 (Redução das Desigualdades), reforçando a urgência de políticas públicas que atuem sobre os determinantes sociais da saúde para garantir a universalidade e a integralidade do cuidado. Considerações finais: o perfil epidemiológico da SRAG nas populações indígenas do DSEI Interior Sul é marcadamente heterogêneo, com significativas disparidades sociodemográficas, clínicas e de desfecho entre os PB. Tais diferenças indicam a existência de iniquidades estruturais no acesso e na qualidade da atenção à saúde indígena. A principal limitação deste estudo reside no uso de dados secundários, suscetíveis a vieses de informação, notadamente a elevada proporção de dados ignorados em variáveis essenciais. As evidências geradas reforçam a necessidade de fortalecer a vigilância epidemiológica em territórios indígenas, qualificar o preenchimento dos sistemas de informação e desenvolver estudos de abordagem qualitativa para aprofundar a compreensão sobre os determinantes sociais e as barreiras de acesso ao cuidado em saúde nesta população.
